9 de agosto de 2017

Pesquisas apontam educação como 'escudo' contra criminalidade

Estudos elaborados pelo TCE e por professor do Ipea apontam uma relação inversa entre o crime e o ensino. Quanto maiores são as taxas de escolarização, menores são os registros de violência.



Por Cristine Gallisa, RBS TV


Estudos elaborados pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul (TCE-RS) e pelo professor Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), do Rio de Janeiro, apontam uma relação inversa entre o crime e a educação. Quanto maiores são as taxas de escolarização, menores são os registros de violência.
Cerqueira analisou a escolaridade das vítimas de homicídios no Brasil entre 1980 e 2010, e descobriu que quem estuda mais tem menos chances de morrer de forma violenta. Segundo o professor, a cada 1% a mais de jovens entre 15 e 17 anos fora da escola, a taxa de homicídio numa determinada localidade aumenta 2%.
"Percebemos que a chance de alguém que não tem o Ensino Médio sofrer homicídio no Brasil é 15,9 vezes maior do que alguém que tenha nível superior, o que mostra que a educação é um verdadeiro escudo contra os homicídios no Brasil", diz o pesquisador.
Desde esta segunda-feira (7), o RBS Notícias exibe uma série de reportagens sobre a relação da educação com a violência. Confira nesta terça-feira (8) como o governo pode investir no ensino diante da crise.
Na pesquisa do TCE-RS, realizada em municípios com mais de 100 mil habitantes, foram comparadas as taxas de escolarização e os registros de casos de violência. "Em municípios onde tinha maior taxa de abandono do [ensino] fundamental, a taxa de homicídio doloso é maior, e naqueles em que a expectativa de anos de estudo é menor, também havia maior numero de homicídios", explica a auditora pública externa do TCE, Débora Brondani da Rocha.
Números de apenados no estado corroboram a relação. Mais 60% sequer concluíram o ensino fundamental, pois trocaram as salas de aula pelas ruas por volta do quinto ou sexto ano. É justamente nessa fase da vida, aos 12, 13 anos de idade, que os adolescentes podem encontrar no crime a identificação e o acolhimento que deveriam ter sido proporcionados pela escola.
"O maior critério de sucesso educacional seria sabermos quantos alunos não deixamos no meio do caminho", diz o professor.
Na faixa dos quatro aos 17 anos, 151 mil crianças e adolescentes ainda estão fora da sala de aula, segundo o movimento Todos pela Educação. Por trás do abandono, há escolas defasadas e sucateadas, além de problemas sociais que cercam as periferias.
"Você não dissocia a questão da educação da criança da realidade da família. O crime não é uma situação isolada, é uma decorrência. Quando você chega ao sistema prisional, o sistema prisional é a parte final do desastre social brasileiro", afirma o advogado e professor Luiz Marcelo Berger.

Quase 800 escolas a menos

A falta de recursos e de infraestrutura na educação gaúcha é mais um obstáculo na luta contra o crime. Nos últimos 20 anos, 793 escolas foram fechadas no estado, como aponta o Conselho Estadual de Educação.
Neste período, o investimento público em educação no estado passou de quase R$ 6 bilhões em 1997 para R$ 9,7 bilhões em 2015. Ainda assim, o montante é inferior ao previsto em lei. Desde 2001, os governos gaúchos não cumprem a Constituição Estadual, que manda destinar 35% dos impostos para a educação. No ano passado, a proporção ficou em 29,28%.
Berger defende um maior investimento na área em curto prazo para melhorar a situação das escolas no estado. "No mínimo entre cinco a 10 anos, que a gente comece a ter resultado se fizermos investimento a partir de agora. E essa é a pergunta que temos de fazer, se esse investimento vai vir ou não. E nós vamos qualificar esse investimento ou não vamos? Ou seja, vamos analisar se aquilo dá resultado ou não?", questiona.

Verba elevada para segurança

Enquanto falta investimento para educação, o dinheiro dos impostos destinado pelos governos para a segurança deu um salto, chegando a mais de R$ 5 bilhões em 2016. Ainda que o Poder Público não poupe recursos para combater o crime, as estatísticas aumentam, provando que só repressão não diminui a violência.
Desde 2012, o número de presos no Rio Grande do Sul saltou de 29 mil para 34 mil. Para abriga-los propriamente, o estado teria de criar cerca de 9,4 mil vagas, o que acarretaria em gastos de R$ 500 milhões.
"Não há política pública que vai resolver o problema da criminalidade no Brasil em um prazo de dois três anos", diz o professor de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Rogério Maia Garcia.

'Masmorras medievais'

O diretor do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados, José Vicente Tavares dos Santos, defende a educação em turno integral para evitar que os alunos. "As prisões não servem para nada, só para aumentar a capacidade criminal. As condições das prisões brasileiras, que são masmorras medievais, não ressocializam", disse.
Por cada preso cumprindo pena, o estado gasta hoje R$ 24 mil por ano, valor suficiente para manter três alunos em uma escola estadual. O gasto tem poucos resultados, já que o sistema penitenciário, sucateado e superlotado, recupera muito pouco. Cerca de 70% dos detentos de presídios do estado já haviam sido presos outras vezes.
"O Brasil prende muito, mas ao mesmo tempo prende mal, e se pensar em construir presídios para dar segmento a essa política de encarceramento em massa nós dificilmente vamos conseguir transformar isso em reflexos positivos, no que diz respeito à diminuição dos índices de criminalidade", diz Garcia.

8 de agosto de 2017

Como o Canadá se tornou uma superpotência em educação


Em debates sobre os melhores sistemas educacionais do mundo, os nomes mais citados costumam ser de países nórdicos, como a Noruega e a Finlândia, ou de potências como Cingapura e Coreia do Sul.
Embora seja muito menos lembrado, o Canadá subiu ao topo dos rankings internacionais.
Na mais recente rodada de exames do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, entidade que reúne países desenvolvidos), o Canadá ficou entre os dez melhores países em matemática, ciências e interpretação de texto.
As provas são o maior estudo internacional de desempenho escolar e mostram que os jovens do Canadá estão entre os mais bem educados do mundo.
Eles estão muito à frente de vizinhos como os Estados Unidos e de países europeus com quem têm laços culturais, como o Reino Unido e a França.
O Canadá também tem a maior proporção de adultos em idade produtiva com educação superior - 55%, em comparação com uma média de 35% de países da OCDE.
ALUNOS IMIGRANTES
O sucesso do Canadá em testes escolares é incomum ao ser comparado com tendências internacionais.
Os países com melhor desempenho costumam ser pequenos, com sociedades homogêneas e coesas e com cada pedaço do sistema educacional integrado a uma estratégia nacional - como em Cingapura, que tem sido usado como exemplo de progresso sistemático.
O Canadá nem sequer tem um sistema educacional nacional, pois a organização é baseada em províncias autônomas. E é difícil imaginar um contraste maior entre uma cidade-Estado como Cingapura e um país de dimensões continentais como o Canadá.
Em uma tentativa de entender o sucesso do Canadá na educação, a OCDE descreveu o papel do governo federal no setor como "limitado e às vezes inexistente".
Também é bem conhecido o fato de que o Canadá tem um alto número de imigrantes em suas escolas. Mais de um terço dos jovens no Canadá têm ambos os pais oriundos de outro país.
Os filhos das famílias de imigrantes recém-chegados se integram em um ritmo rápido o suficiente para ter o mesmo desempenho de seus colegas de classe.
Quando o último ranking da OCDE é analisado em detalhe, os resultados regionais do Canadá são ainda mais impressionantes.
Se as províncias se inscrevessem no teste como países separados, três delas (Alberta, Quebec e British Columbia) estariam entre os cinco primeiros lugares em ciências, junto com Cingapura e Japão e à frente de lugares como Finlândia e Hong Kong.
Afinal, como o Canadá superou tantos outros países na área de educação?
Andreas Schleicher, o diretor de educação da OCDE, diz a característica que une os diversos sistemas educacionais do país é a igualdade.
Apesar de diversas diferenças nas políticas educacionais, um traço em comum entre todas as regiões do país é o comprometimento em oferecer igualdade de oportunidades na escola.
Schleicher diz que existe um forte senso de equilíbrio e igualdade de acesso - o que pode ser observado na alta performance acadêmica de filhos de imigrantes.
Até três anos depois de chegar ao país, os alunos imigrantes alcançam notas tão altas quanto as de seus colegas. Isso torna o Canadá um dos poucos países em que crianças imigrantes atingem um patamar similar aos das não-imigrantes.
Outra característica distinta é que os professores são muito bem pagos em comparação com os padrões internacionais - e o ingresso na profissão é altamente seletivo.
OPORTUNIDADES IGUAIS
David Booth, professor do Instituto para Estudos em Educação da Universidade de Toronto, destaca um forte investimento de base em alfabetização.
Existiram esforços sistemáticos para melhorar a alfabetização, com a contratação de educadores bem treinados, investimento em recursos como bibliotecas nas escolas e avaliações para identificar escolas ou alunos que possam estar tendo dificuldades.
John Jerrim, do Instituto UCL de Educação de Londres, diz que o ótimo desempenho do Canadá nos rankings internacionais reflete a homogeneidade socioeconômica do país.
O país não é uma nação de extremos. Pelo contrário, seus resultados mostram uma média alta, com pouca diferença entre os estudantes mais e menos favorecidos.
No mais recente Pisa, o exame da OCDE, a variação de notas causada por diferenças socioeconômicas entre os estudantes canadenses foi de 9%, em comparação com 20% na França e 17% em Cingapura, por exemplo.
Os resultados mais igualitários explicam porque o Canadá está indo tão bem em exames internacionais. O país não tem nem uma fatia residual de estudantes com desempenho ruim, o que normalmente é algo relacionado à pobreza.
É um sistema consistente. Além da pouca diferença entre estudantes ricos e pobres, também há uma variação muito pequena entre diferentes escolas, em comparação com a média de países desenvolvidos.
Segundo o professor Jerrim, o alto número de imigrantes não é visto com um potencial entrave ao sucesso nos exames - o fato é provavelmente um dos ingredientes dos bons resultados.
Os imigrantes que vivem no Canadá, muitos de países como a China, a Índia e o Paquistão, têm educação relativamente alta, e a ambição de ver seus filhos se tornarem profissionais bem sucedidos.
O especialista afirma que essas famílias têm "fome de sucesso", e que suas altas expectativas provavelmente influenciam o desempenho escolar de seus filhos.
O professor Booth, da Universidade de Toronto, também cita esse fato. "Muitas famílias recém-chegadas ao Canadá querem que seus filhos tenham sucesso, e os alunos têm motivação para aprender", diz.
Este ano tem sido excepcional para a educação no Canadá. As universidades estão aproveitando o "efeito Donald Trump", com um número recorde de inscrições de estudantes que enxergam o Canadá como uma alternativa aos Estados Unidos após a eleição do atual presidente.
A vencedora do Prêmio Global de Professores também é canadense –Maggie MacDonnel está usando a condecoração para fazer campanha pelo direitos dos estudantes indígenas.
No ano em que celebra seu aniversário de 150 anos, o Canadá reivindica o status de uma superpotência em educação.

7 de agosto de 2017

O custo do analfabetismo para a vida do indivíduo


Com base em dados brasileiros, estudo feito pelo economista Ricardo Paes de Barros mostra o efeito do analfabetismo na saúde, na renda e no planejamento familiar do adulto

FLÁVIA YURI OSHIMA
03/08/2017 - 16h49 - Atualizado 03/08/2017 18h16
A alfabetização é a principal porta de acesso à educação formal. Não há discussão sobre isso. O que não se sabia até pouquíssimo tempo era o impacto da alfabetização no desenvolvimento geral da criança no decorrer da vida. Estudos internacionais começaram a trilhar esse caminho nesta década. Agora, um levantamento liderado por Ricardo Paes de Barroseconomista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, usou os dados do Censo Educacional, do Censo Brasileiro e outras informações do Brasil para mostrar o impacto da não alfabetização na saúde, nos ganhos financeiros e no planejamento familiar de cada indivíduo e de sua família.
O estudo se concentrou no perfil de adulto, homem, de 35 anos. A equipe de Paes de Barros comparou as informações de adultos que tenham largado a escola depois de alfabetizados com aqueles que largaram a escola antes de concluir esse processo. Os resultados mostram que os indicadores são piores em todos os aspectos para o segundo grupo.
Com base nos dados levantados pelo estudo, os pesquisadores chegaram a um índice de qualidade de vida. Essa medição considera que quanto mais próximo de 100% melhor é a qualidade de vida do indivíduo. Para adultos que não tenham concluído a escola, mas sejam plenamente alfabetizados, esse índice chega a 77%. Já para aqueles que não aprenderam a ler, esse percentual cai para 43%. Ao desdobrar esses dados, vê-se que até mesmo a saúde é afetada pela não alfabetização. 

Entre os alfabetizados, a probabilidade de ter uma boa saúde aos 35 anos é de 67%, enquanto entre os não letrados é de 56%. As chances de o primeiro grupo praticar esporte – o que contribuiria para a manutenção da boa saúde – é mais que o dobro em relação ao segundo grupo (45% entre aqueles que foram alfabetizados e 21%entre os que não foram). 
Trabalho e rendimento financeiro são bem mais desvantajosos para os não letrados. Enquanto homens alfabetizados registram 71%de probabilidade de ter um emprego formal, para os analfabetos esse percentual cai para 45%. A renda familiar per capta do primeiro grupo fica em R$ 1.200,00 enquanto a do segundo em R$ 600,00.
As desvantagens trazidas pela não alfabetização alcançam os filhos desses indivíduos. Os números brasileiros evidenciam que a probabilidade de os filhos de pai analfabeto terminarem o ensino médio com até um ano somente de atraso é de apenas 38%,enquanto entre os alfabetizados é de 69%. As oportunidades de acesso à creche e à educação infantil – dois preditores importantes de desenvolvimento adequado na vida adulta – também é menor entre os analfabetos: fica em 54% e 74%, respectivamente, em comparação a 63% e 84% para os adultos que largaram a escola depois de ter aprendido a ler. 
O analfabetismo é um problema que o Brasil ainda não aprendeu a resolver. De acordo com os últimos números oficiais, divulgados pelo governo em novembro de 2016, existem no Brasil 12,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais de idade que não sabem ler. Isso representa 8% dos brasileiros nessa faixa de idade. O Nordeste é a região que concentra o maior número de analfabetos, com 16,1%. O Sul e o Sudeste têm as menores taxas, com 4,1% e 4,3%,respectivamente. No Norte do país, 9% da população adulta não saber ler e no Centro-Oeste esse índice é de 5,7%. “A alfabetização é um meio imprescindível para a realização de todos os direitos humanos preconizados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela convenção do Direito das Crianças, pela Constituição brasileira, por qualquer lei internacional ou nacional sobre direitos do ser humano”, diz Ricardo Paes de Barros. “Não é preciso refletir muito para constatar que esse tema deveria ser priorizado.”

Bullying, exposição e golpes: o papel das escolas diante dos riscos da internet

Banir é impraticável: o caminho é a educação direcionada,

                             

 dizem especialistas


  • Ludimila Gonçalves, especial para a Gazeta do Povo,
  • [04/08/2017]


    Em 2015 uma estudante de 15 anos de Itanhaém, no litoral de São Paulo, pediu para ser transferida de escola após alguns colegas de classe compartilharem por WhatsApp montagens que a humilhavam. Na época, a diretoria não acreditou na aluna, o que intensificou os ataques dentro da escola – meses se passaram até ela e a mãe conseguirem provar após terem acesso às mensagens, e então a troca foi realizada. 

    Já em outro caso que ocorreu em uma escola pública de Brasília, há pouco mais de um ano, a humilhação envolveu 10 estudantes que foram expostas em uma montagem em vídeo com conotação sexual; fotos utilizadas no vídeo foram retiradas do próprio perfil nas redes sociais das vítimas, desde selfies na escola a fotos de biquíni. 
    A internet, parte importante da vida dos jovens, traz riscos com os quais eles não estão preparados para lidar. E, além da família, a escola tem um papel fundamental a desempenhar nessa área.
    Risco calculado? 
    Crianças hoje em idade escolar já nasceram em um mundo que não se desconecta. No Brasil, a última pesquisa do TIC Kids Online Brasil revelou que 79% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos estão ativas na internet – número que representa 23,7 milhões de jovens, sendo que 85% deles acessam pelo celular. 
    Com os aparelhos móveis elas têm mais privacidade ao navegar online, sem necessariamente ter a mediação dos responsáveis. Daí surgem os perigos.
    Para Rodrigo Njem, psicólogo e diretor de educação da ONG SaferNet Brasil, entre os principais problemas e riscos do uso da internet no ambiente escolar estão a “distração do aluno, cyberbullying (intimidação ou discriminação), exposição da intimidade e outras questões de privacidade, como roubo de dados”. 
    Um estudo divulgado ano passado pela NASUWT, um dos sindicatos de professores do Reino Unido, descobriu mais da metade dos professores estavam ciente de alunos que praticavam “sexting” (envio de imagens íntimas) dentro da escola. A maioria dos incidentes envolveu alunos de 13 a 16 anos, mas os professores disseram estar cientes da prática também na escola primária, com alunos de até sete anos. Metade dos docentes afirmaram que encontraram alunos usando mídias sociais para enviar insultos ou praticar bullying. 
    Cristina Sleiman, presidente da Comissão Especial de Educação Digital da OAB-SP, alerta que a internet permite ao aluno contatar pessoas que estão fora da escola. “Em caso de uso aleatório para comunicação externa, até aliciamento, a escola pode acabar responsabilizada. Por isso devem existir regras claras sobre o uso; eles têm que entender que é um risco para eles mesmos a não utilização adequada”. 
    Influenciando o ambiente 
    Uma pesquisa pela London School of Economics mostra que, após as escolas proibirem os celulares, o desempenho dos estudantes melhorou. Mas especialistas acreditam que já não é mais possível ter um controle completo sobre os dispositivos. 
    “Se falamos em educação e desenvolvimento, você não poder proibir tecnologia, por isso o melhor caminho é educação digital: educar para que crianças e adolescentes saibam usá-la de maneira ética e segura”, diz Cristina. 
    Na Escola da Vila, instituição de ensino particular em São Paulo, alunos a partir do 6º ano podem levar o celular. Em alguns casos os dispositivos são incluídos em atividades escolares e contam com uma rede Wi-Fi livre para uso. Segundo Helena Mendonça, Coordenadora de Tecnologias Educacionais, há, porém, um controle para que eles não o utilizem durante a aula. 
    ”Uma situação em que uma aluna posta uma foto inadequada de uma colega na rede social, por exemplo, ou um aluno acessa indevidamente a conta de outro, gera conflitos na escola. A partir dos casos que acontecem, propomos uma discussão e a equipe de orientação educacional acompanha os envolvidos e desenvolve campanhas que são direcionadas para toda a escola”, conta. 
    Problema global 
    A importância da escola para a educação digital do aluno ganha força em todo o mundo. Em junho o Google lançou nos EUA o projeto “Be Internet Awesome” (“Seja Incrível na Internet”, em tradução livre), que consiste em uma plataforma informativa para pais e professores com princípios para uma internet segura. Para as crianças há um jogo interativo chamado “Interland”, em que elas devem combater hackers, phishers (golpistas online), oversharers (aqueles que compartilham informações em excesso na rede) e valentões, praticando as habilidades que precisam para serem bons cidadãos digitais. O objetivo é fazer com que os jovens tomem decisões inteligentes por conta própria. 
    De acordo com Sonia Livingstone, da London School of Economics and Political Science, mesmo que sejam nativas digitais, “crianças não necessariamente sabem tudo sobre como usar a internet”. Sonia afirma ainda que a visão dos adultos europeus mudou nos últimos anos, com uma maior percepção de que eles devem ser responsáveis por manter as crianças seguras na internet, mas que elas também devem desenvolver habilidades para se manterem seguras por conta própria. 
    A questão de uma idade mínima para a criança usar livremente a internet surge, então, naturalmente. Para Nejm um comparativo simples pode ajudar a responder a questão. “A criança tem capacidade de sair sozinha na rua? Ela já tem estabelecidos os parâmetros de segurança, de autocuidado e autoproteção? Ou ela ainda tem certa dependência? Se ela não tem maturidade para ficar sozinha no mundo real, o mundo digital é tão grande ou maior que o bairro onde ela mora. Pais e educadores precisam ter sempre essa referência”, diz.

    Celular avança nas escolas, mas conectividade ainda limita novas práticas


    TIC Educação 2016 traz tendência de queda no uso dos laboratórios de informática e mostra difusão dos dispositivos móveis em atividades pedagógicas

    por Marina Lopes / Vinícius de Oliveira  3 de agosto de 2017
    No ano em que o ProInfo (Programa Nacional de Informática na Educação) completa 20 anos, apesar do acesso a pelo menos um tipo de computador estar quase universalizado nas escolas urbanas brasileiras, a falta de conectividade continua a limitar a adoção de novas práticas pedagógicas que geram impacto na aprendizagem. De acordo com os dados da sétima edição da pesquisa TIC Educação, divulgada nesta quinta-feira (3), pelo Cetic.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil), o celular se tornou o equipamento mais utilizado pelos alunos para acessar a internet, mas apenas 31% deles trabalham com esse dispositivo conectado dentro da escola.
    Realizada entre agosto e dezembro de 2016, a pesquisa traz dados sobre o uso e apropriação das tecnologias da informação e da comunicação em 1.106 escolas brasileiras de ensino fundamental e médio, localizadas em áreas urbanas. A partir da escuta de 935 diretores, 922 coordenadores pedagógicos, 1.854 professores e 11.069 alunos, a TIC Educação 2016 mostra que o uso dos dispositivos móveis está em ascensão. Entre os educadores usuários de internet, 49% declararam utilizar o celular em atividades com os alunos, representando um crescimento de dez pontos percentuais em relação ao ano anterior.
    “O fenômeno do uso dos novos dispositivos móveis já está presente na nossa vida. Eu diria que, independente da classe social, os alunos já chegam na escola com esses dispositivos e uma certa cultura digital”, avalia Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br. No entanto, o uso do celular em sala de aula ainda esbarra na baixa conexão, considerando que 45% das escolas públicas ainda não ultrapassaram 4 Mega de velocidade. “É um grande desafio liberar a rede Wi-Fi por uma questão de capacidade. Abrir uma banda de 2 Mega para 500 ou 600 alunos é impraticável, porque não há infraestrutura que dê vazão a toda essa demanda. Mas, por outro lado, ainda tem uma questão de cultura escolar”, observa.
    Mobilidade para o uso de tecnologia
    No Instituto Monsenhor Hipólito, em Picos (PI), o uso do celular trouxe maior mobilidade para as práticas pedagógicas. Com dois links de conexão, um de 50 Mega e outro de 5 Mega, educadores passaram a trabalhar com os dispositivos móveis de forma integrada ao currículo. Em uma atividade de língua portuguesa, por exemplo, a professora Andréia Vitorino Marcos espalhou QR Codes pela escola para os alunos analisarem gêneros textuais com ajuda do celular. “Quando você coloca limites e propõe uma atividade interessante, eles não fazem outra coisa a não ser utilizar de forma bem responsável. Para mim, o celular é o melhor recurso educacional que temos hoje”, conta.
    Apesar de contar com uma velocidade alta, quando comparada com a média das escolas brasileiras, a professora conta que o desenvolvimento de atividades desse tipo exige um bom planejamento, que vai além da estratégia pedagógica. “Nós temos que pensar no recurso tecnológico disponível. Se a atividade é para uma sala, liberamos a conexão apenas para ela”, menciona, ao ponderar a quantidade de dispositivos conectados simultaneamente que são suportados pela escola.
    Já em uma realidade com menor velocidade de banda, presente na maior parte das escolas públicas, a restrição de acesso à rede sem fio dificulta o desenvolvimento de atividades pedagógicas em espaços diversificados. Enquanto 91% das escolas públicas e 94% das escolas privadas possuem Wi-Fi, apenas 10% delas deixam o uso liberado para os alunos. “Quando analisamos as faixas de banda e conexão à internet, compreendemos um pouco porque o uso das tecnologias nas escolas ainda precisa avançar e superar obstáculos. A conectividade impacta na disponibilidade de espaços para o desenvolvimento de atividades de ensino e aprendizagem”, diz Daniela Costa, coordenadora da pesquisa TIC Educação.
    Entre os principais pontos de acesso à internet dentro das escolas públicas brasileiras, a sala do coordenador pedagógico ou do diretor ainda é o local que mais garante conectividade, com 92% das respostas. Em seguida, aparecem opções como a sala dos professores ou sala de reunião (78%), laboratório de informática (73%), sala de aula (55%) e biblioteca ou sala de estudo para os alunos (47%). Já nas escolas privadas, o acesso à internet tende a ser menor nos laboratórios de informática (45%) e maior no espaço da sala de aula (82%) ou da biblioteca e sala de estudos (69%).
    Mudança no uso dos laboratórios de informática
    A tendência de começar a espalhar o acesso à internet por espaços diversificados, observada em principalmente nas escolas particulares, também reflete em uma mudança no uso dos laboratórios de informática. Apenas 47% das instituições privadas afirmaram possuir um laboratório e 46% delas disseram usar esse espaço. Nas públicas, esse número ainda contrasta com um descompasso entre a existência (81%) e o uso da sala de informática (59%). “Embora os laboratórios de informática estejam muito presentes nas escolas públicas, mas com um baixo uso, nas escolas particulares esse local de uso vai sendo deslocado para ambientes ou locais de ensino aprendizagem mais apropriados ao dia a dia, como por exemplo na sala de aula, na biblioteca ou em outros espaços pedagógicos”, destaca gerente do Cetic.br.
    Há dois anos, o Colégio Elvira Brandão, em São Paulo (SP), decidiu transformar o laboratório de informática em um espaço maker e distribuir os computadores pela escola. “Os dispositivos presos em uma sala não atendem mais a necessidade da escola. O deslocamento dos estudantes até um local para usar Wi-Fi não combina com a dinâmica de uma escola que trabalha com metodologias ativas, cultura maker e projetos. Com esses três pilares, precisamos que a conectividade esteja espalhada pela escola inteira, e o laboratório passa a não ter mais sentido”, aponta a diretora Andrezza Amorelli.
    Para atender a essa proposta pedagógica, a escola teve que investir em mais conectividade. Hoje, a instituição trabalha com dois links de internet, um de 35 Mega e outro de 10 Mega. “O nosso investimento mais pesado foi na construção de um espaço maker e na ampliação da conexão. Comprar computador, notebook e tablet não é mais uma demanda da escola, cada estudante usa o seu próprio dispositivo”, explica.
    Na avaliação da pesquisadora e especialista em novas tecnologias para a educação Leila Iannone, do Cetic.br, a mudança no uso dos laboratórios de informática pode traduzir um avanço nas questões curriculares. “As práticas diversificadas, com uso de outros ambientes e dispositivos, estão impactando e influenciado uma nova visão de currículo. É uma nova forma de aprender e ensinar. Uma nova nova maneira de acessar, produzir e se apropriar do conhecimento, trazendo para o dia a dia uma coisa muito importante que o processo de autoria.”
    Avanço nas redes públicas
    Pensando na nova lógica de apropriação do conhecimento, o departamento de Tecnologias para a Aprendizagem da Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo começou a trabalhar com os laboratórios de informática em uma nova perspectiva educacional, que passou da inclusão e do letramento digital para uma abordagem maker. Desde 2015, esses espaços estão sendo pensados e usados para trabalhar projetos de robótica, programação e múltiplas linguagens.
    “O aluno deixa de ser um consumidor de conteúdo para se tornar um produtor de conteúdos”, afirma Tania Tadeu, coordenadora pedagógica na secretaria municipal. De acordo com ela, o uso do laboratório dentro de uma perspectiva de autoria traz muitos ganhos para a aprendizagem dos adolescentes. “Os alunos se tornam muito mais protagonistas e autores. O protagonismo está intrínseco em todos os eixos do nosso currículo.”
    No Paraná, um projeto que começa este ano, combinando a formação profissional e a possibilidade de compra personalizada por parte das escolas, também mostra que a política de deixar a conectividade restrita a um laboratório começa a ser superada. Orçado em R$ 15 milhões por ano, o programa chegará a 500 das 2.100 escolas da rede estadual (que contempla anos finais do fundamental e o ensino médio) em troca da elaboração de um plano pedagógico para o uso de tecnologia e do cumprimento de metas.
    Na lista oferecida para as escolas estão equipamentos que podem ser adquiridos no formato de combo, como acontece com os serviços de internet e TV para o consumidor doméstico. Eziquiel Menta, diretor de políticas e tecnologias educacionais da secretaria, cita como exemplos a infraestrutura de Wi-Fi por toda a escola, a instalação de projetor multimídia, laboratório móvel com laptop para uso em sala de aula, roteador com opção de acesso off-line, além de estúdio de produção com câmera, microfone e impressora 3D. Caso a escola deseje um equipamento que não condiz com a avaliação de suas competências, um alarme soa na equipe de TI da secretaria, que passa a exigir o cumprimento dos cursos por parte da equipe pedagógica e gestora.
    “Com isso, estamos mudando algumas concepções sobre aquisição de conectividade para a educação. A secretaria deixa de entregar uma única solução para todas as escolas, que por outro lado ficam obrigadas a estabelecer um plano coletivo para uso de tecnologia”, afirma Menta.
    Percepção dos professores
    Além de investigar a apropriação e o uso das tecnologias nas escolas, a nova edição da TIC Educação também apresentou dados sobre a percepção dos professores. Entre os educadores ouvidos, 94% deles concordam com a afirmação de que com o uso de tecnologia passaram a ter acesso a materiais mais diversificados ou de melhor qualidade. Eles também concordam que passaram a adotar novos métodos de ensino (85%) e passaram a cumprir suas tarefas administrativas com maior facilidade (82%).
    Quando o assunto é forma de aprendizado e atualização no uso do computador e da internet, a pesquisa também mostra que 91% dos educadores estão buscando capacitação sozinhos e 83% contam com a ajuda de outras pessoas. “Os cursos formais acabam sendo muito técnicos. Quando você aprende com um olhar do colega ou do professor que trabalha nessa área, o contato com a tecnologia é diferenciado”, observa a professora Fernanda Tardin, Instituto de Educação Eber Teixeira de Figueiredo, em Bom Jesus do Itabapoana (RJ).
    Para compartilhar experiências do uso de tecnologia com outros educadores, em 2009 ela criou o blog “Utilizando as Mídias na Educação”, que publica textos, vídeos, dicas de sites e blogs, entrevistas e jogos educacionais que podem ajudar a diversificar o processo de ensino e aprendizagem. “Cada vez mais os alunos estão tecnológicos e inseridos nesse meio digital. De uma certa forma, o professor que não busca acaba ficando para trás e não consegue interagir com os alunos.”
    info tic educacao