29 de junho de 2015

Criança fora da escola no Rio de Janeiro é negra e pobre

29 de junho de 2015
Segundo dados do projeto "Fora da Escola Não Pode", só na cidade do Rio são 79.681 crianças e jovens de 4 a 17 anos fora das salas de aula

Fonte: O Globo (RJ)



Victor (nome fictício), de 14 anos, não consegue esquecer o último réveillon: naquela noite, assistiu a uma mulher ser assassinada numa cracolândia perto do Jacarezinho. Filho de usuários da droga, o menino viveu nas ruas por dois anos — logo após os pais venderem a TV, o carro, a casa e tudo mais por causa do vício. Victor é o retrato dos que saem da escola: negro e pobre, segundo dados do projeto “Fora da Escola Não Pode”, realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e o Instituto Tim, com base no Censo 2010, do IBGE. Só na cidade do Rio, segundo o projeto, são 79.681 crianças e jovens de 4 a 17 anos fora das salas de aula (6,6% do total do município).
— A solução para a volta da criança à escola é um trabalho intersetorial da educação com a saúde, o desenvolvimento social, a segurança pública, o esporte, a cultura. Além disso, é preciso que exista a participação do jovem dentro da escola. É assim que ele se fixa — explica Luciana Phebo, coordenadora nacional da Plataforma dos Centros Urbanos e do escritório do Unicef no Rio.
Violência (dentro e fora da escola), dificuldade de locomoção pela cidade até chegar às unidades educacionais — que podem ser escolas, mas também bibliotecas, teatros, museus —, currículo desconectado do mundo real e trabalho infantil são algumas das principais causas apontadas por especialistas para o abandono das salas de aula.
— O ensino médio é a faixa mais desafiadora. A violência e o tráfico competem muito com a educação. Eles (os jovens) também são atraídos pelo trabalho, quando precisam e até quando escolhem. A escola atual atrai menos — analisa a educadora Maria Rehder, da Campanha Nacional pelo Direto à Educação.
A Prefeitura do Rio informa que levou 4.448 crianças de volta para a escola com o projeto Aluno Presente, criado no fim de 2013. Já a Secretaria estadual de Educação diz que mantém programas contra o abandono escolar como o Reforço Escolar e o Renda Melhor Jovem, que paga até R$ 3.800 para o aluno se formar.
‘O abandono escolar tem raça e tem gênero’
Entrevista com: Marcelo Mazzoli, coordenador do Programa de Educação do Unicef no Brasil
A criança fora da escola é aquela que nunca foi matriculada ou a que saiu?
A maior parte é de quem já passou pela escola e não ficou. E o abandono tem raça e tem gênero. São meninos negros nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio.
Quais são os fatores que levam à saída deles?
O atraso escolar é um fator muito importante. Em 2010, o Brasil tinha 14,6 milhões de estudantes com defasagem de dois ou mais anos de ensino — isso significa mais de 20% das matrículas no país. Outro fator é a monotonia curricular. A falta de sentido prático da vida cotidiana do aluno é um problema que o país tem que resolver. Um terceiro fator é a relação verticalizada da aprendizagem. Eles se sentem clientes da escola, quando poderiam participar. Participação crítica na própria construção do projeto da escola reduz muito as taxas de abandono.
No Brasil, onde estão os números mais altos de criança fora da escola?
Nas zonas rurais. Claro que você encontra bolsões de exclusões na cidade, mas nas partes rurais é muito maior. O estado do Amazonas também tem taxas muito altas.
‘Meu sonho é ser médico’
Victor (nome fictício), de 14 anos:
— Vivi dois anos na rua com meus pais, que eram viciados em drogas. Morar na rua é muito triste. Agora eu estou recuperando o tempo que eu perdi na escola. Estou fazendo dois anos em um, numa escola municipal aqui de perto, no Grajaú. Daqui a pouco vou estar no meu ano normal do colégio. Eu quero ser um médico quando crescer para ajudar os outros. Na rua, as pessoas ajudavam a gente. Vi gente morrendo do meu lado. No dia do réveillon, vi uma mulher sendo assassinada. Três dias depois, um viciado foi atropelado pelo trem na minha frente. Meu irmão mais novo está em outra casa de internação. Não sei até quando eu fico aqui na casa. Estou esperando meus pais se recuperarem. Eles estão numa clínica em Guaratiba. Ou então vou para a casa de uma tia de consideração. Mas nunca mais quero largar a escola.

“Dejé Twitter y Facebook y mi vida es más tranquila”


La decana de Educación Continuada de la Universidad de Columbia defiende que estar callado con alguien significa más que las palabras


Kristine Billmeir posa en la Universidad CEU San Pablo en Madrid, donde firmó un convenio de colaboración. / LUIS SEVILLANO

¿La prisa por contar no distrae nuestra manera de escuchar?Muchas veces lo que no decimos es lo que decimos. Una serie de palabras en determinado orden pueden causar felicidad o tristeza en las personas. Cuando un juez le dice a un prisionero la condena utiliza palabras para cambiar la vida de la gente. En clase hemos tenido una charla muy fructífera, por ejemplo, sobre la palabra confianza.
¿Qué significa? Es mi sensación de empatía con usted, la creencia de que usted va a cuidar de mí, y que usted tiene ese sentimiento recíproco respecto de mí.
¿Por qué se siente confianza? Es una necesidad básica: desear no estar solo en el mundo y saber que hay alguien a quien le preocupan tus necesidades e intereses.
El sonido del silencio es una imagen visual, no lo oigo, es una vista del  monte Fuji
¿La comunicación es contra la soledad? No es la única manera de combatirla. Los apaches tienen una expresión, “perder la fe en las palabras”. Pensamos que la comunicación es un modo de tender puentes hacia la felicidad; ellos creen mejor el silencio.
¿Y usted? Ellos creen que es importante estar callados semanas, por ejemplo cuando te enamoras. O cuando alguien acaba de morir. O cuando vuelven los hijos de sus estudios: están días sin hablarles, para observar cómo han cambiado. Estar callado con alguien significa más que las palabras.
Beckett y Joyce pasaban tardes enteras sin decirse nada.Hoy en día es difícil no distraerse, ¡hay tantas maneras de comunicarse! La tecnología ha cambiado la manera de comunicarnos.
¿Para bien o para mal? Mi madre tiene 97 años. Ya puede llamarme a cualquier lugar del mundo. Y para mal: estamos abrumados de comunicación. Hemos de aprender a atender a cosas que exigen atención sostenida. Habrás estado alguna vez en la habitación con alguien cuyo móvil suena constantemente: no estás con el otro, ¡estás con una multitud!
Eso nos vuelve histéricos. Eso es lo malo. Una constante descarga de información es lo contrario de lo que hacían Beckett y Joyce: pasaban tiempo juntos sin hablar, para sentir confianza.
¿Cómo luchar contra esa histeria? El lenguaje es un arma poderosa; podemos usarlo para cambiar nuestras vidas. Y tenemos elección: podemos apagar el móvil, apagar la tele, pero también podemos encender los aparatos. Hay que recuperar la voluntad de hacer una cosa y no la otra.
Pero, ¿cómo? Primero hemos de tener conciencia de que sí podemos ser manipulados. La comunicación siempre se ha usado para manipular a la gente, no es nada nuevo. Tenemos nuevas herramientas tecnológicas que tal vez puedan abrumarnos más que antes. Hay que estar vigilante.
Nicholas Carr se preguntó “qué está haciendo Internet con nuestras mentes”. ¿Estamos exagerando o hay que alarmarse? Yo me alarmo porque veo que influye en los jóvenes de forma muy negativa. He decidido dejar Twitter y Facebook y mi vida es más tranquila. Pero sé que hay estudiantes que miran su página de Facebook para ver cuánto gustan sus posts. Han llegado a identificar su valía con la cantidad de veces que logran un me gusta. Es una distorsión terrible: no aprendes a quererte a ti mismo si no es en el espejo de Twitter o Facebook.
Terrible. Pero no funciona que los padres digan: “Vete de ahí”. No se trata de poner restricciones, sino de comprender de dónde viene nuestro valor personal.
¿No se siente obsoleta diciendo eso? ¡Para nada! Cuando lo digo pienso que los estudiantes están interesados en saber lo que pueden hacer con su lenguaje.
¿Cuál es el sonido del silencio? ¿Qué oye usted? Es una imagen visual, no lo oigo. Es una vista del monte Fuji.

Delação no Brasil foi sentida como golpe nos termos originais da visita

MATIAS SPEKTOR

ESPECIAL PARA A FOLHA, 29/6/2015

Dilma levou meses até aceitar o convite de Obama. Quando o fez, optou por uma visita a jato, sem dar tempo para grandes preparativos.
A presidente concebeu sua viagem como um "choque de credibilidade" internacional. A ideia era visitar os Estados Unidos para divulgar uma mensagem capaz de restaurar a reputação perdida durante o primeiro mandato.
O Planalto sabia que a operação seria uma batalha ladeira acima. Afinal, a presidente fora reeleita com a menor margem da série histórica. Ela chegaria aos EUA com baixa popularidade, recessão, inflação, uma base parlamentar rachada e acusações de irresponsabilidade fiscal.
A presidente não temeu o improviso, porém, e mobilizou sua tropa a toque de caixa. Joaquim Levy montou uma agenda pesada no mundo dos negócios; Jaques Wagner talhou expectativas de contratos futuros na área militar. Kátia Abreu e Armando Monteiro prometeram "recalibragem comercial", abrindo um pouco a mais fechada das economias do Brics.
O plano teve incentivo da Casa Branca desde o início. Para os EUA, o Brasil é grande demais para afundar, e o custo de um gesto de apoio é minúsculo. Assim como Clinton apostou em FHC quando o tucano estava em seu pior momento e Bush estendeu a mão a um Lula recém-eleito, Obama decidiu dar a Dilma o benefício da dúvida neste início de segundo mandato.
No entanto, nesse fim de semana que passou, os termos originais da visita sofreram um golpe frontal. Não bastasse o escândalo da Petrobras macular a imagem pessoal da presidente que durante anos esteve no comando da empresa, a delação de Ricardo Pessoa escancarou as portas do Planalto, empurrando dois ministros palacianos em direção ao precipício.
Apesar de o governo Obama esbanjar otimismo sobre o futuro do Brasil, dificilmente Dilma voltará para casa com uma vitória definitiva.
Como diplomacia a jato não existe, a restauração da imagem do Brasil no mundo demandará tempo e investimento. Nesse processo, Dilma terá de aplicar doses grandes de engajamento pessoal em política externa.
Ela já sabe como isso é difícil quando se trata dos EUA. "Quero uma relação excelente com o governo americano", disse a seu chanceler após sua primeira eleição, em 2010.
Nas reuniões com Obama, porém, houve pouco progresso real. Em seguida, ele apoiou a demanda indiana ""mas não a do Brasil-- por assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. E tudo piorou quando o governo americano virou a principal fonte de crítica internacional à "nova matriz econômica".
O Planalto entende que o objetivo central da política externa neste momento é reverter o descrédito internacional do país. A visita desta semana não fará mágica. Com alguma sorte, será o início de uma longa caminhada.

    28 de junho de 2015

    ANNA VERONICA MAUTNER , Outros jeitos de se comunicar


    Acho que vamos ter que viver mais um pouco para que as regras de boa conduta dos novos jeitos de nos comunicarmos
    Hoje em dia, organizamos nosso pensamento para que ele possa ser comunicado por meio de alguns meios modernos de comunicação: telefone --fixo ou celular--, interfone, e-mail, Whatsapp, Skype, Facebook e outros tantos.
    São sistemas que usamos não só para ampliar as áreas de atuação de nossa mente: alguns deles possuem memória, outros somente estabelecem contato instantâneo entre duas ou mais fontes.
    O que importa é que contamos com a possibilidade de nos comunicar de forma quase imediata com um sem-número de interlocutores. Esses sistemas foram um milagre muito aplaudido quando do seu aparecimento, até que se tornaram intrusos. Hoje, criamos jeitos de evitá-los ou controlá-los.
    Há muito pouco tempo, era tudo tão diferente! Há 20 anos, e-mail e celular não passavam de promessas. Pouquíssimos privilegiados de sociedades mais desenvolvidas tinham acesso a essas formas de comunicação instantânea.
    Há 50 anos não fazia muita diferença se um sobradinho tinha campainha ou não. Os moradores atendiam tanto quem tocava a campainha como quem batia palmas no portão. Há menos de cem anos, nem mesmo campainhas existiam. Os vendedores e visitantes anunciavam-se em alto e bom som.
    A campainha foi um aperfeiçoamento para o nosso bem e para o mal. Podia ser também alvo de brincadeiras de mau gosto, tipo tocar campainha e sair correndo. E então, a campainha e o telefone adquiriram funções diferentes: o telefone foi devagarzinho substituindo a comunicação de corpo presente.
    Agora, é só ligar, encomendar e esperar a entrega. Por um lado, a comunicação pessoa a pessoa ficou mais próxima. Por outro, mais distante, intermediada por telefones, e-mails ou mensagens de texto.
    Hoje só precisamos saber que horas são em Paris para não perturbar os amigos ou parentes por lá, pois a ligação telefônica é instantânea.
    Setenta anos atrás, quando a Segunda Guerra terminou, quem queria falar com a família na Europa ou qualquer outro lugar distante, precisava ir à Telesp, agendar a ligação com antecedência --de dias, às vezes-- e permanecer a postos, esperando ser chamado a ocupar uma das cabines. Na rua 7 de Abril, em São Paulo, os bares em frente à Telesp faturavam a rodo.
    O celular, então, é um caso à parte. Em qualquer lugar, a qualquer hora, o mundo está à disposição do mundo. Mas não é só um prêmio --invadir o outro é tão fácil quanto premiar o outro. Todos estamos permanentemente sob ameaça de sermos interrompido por um "trim", necessário ou banal.
    Surpreendemo-nos quando ligamos para um celular e não somos atendidos. Se você me deu o seu número, tenho o direito de imaginar que serei atendido no momento em que eu ligar. Chega às raias da grosseria não atendê-lo. Essa é a etiqueta do celular: deu o número é porque se propõe a atender.
    Acho que nós vamos ter que viver mais um pouco para que as regras de boa conduta dos novos jeitos de nos comunicar forneçam mais informações sobre o que é privado ou público. Tudo isso até aparecer um outro jeitinho de eu me comunicar com você.

    El terrorismo no es lo que parece, Moisés Naím



    Las estadísticas indican que los yihadistas matan más musulmanes




    Fue un viernes de terror. En un hotel de playa en Túnez dos terroristas asesinaron a 38 turistas e hirieron a 39 más. En Kuwait, un terrorista suicida hizo estallar un bomba en una mezquita chií matando a 27 personas y dejando 202 heridos. El Estado Islámico se hizo responsable de esta matanza. En Lyon, Francia, una persona fue decapitada poco antes de un asalto a una planta de gases. El objetivo del ataque era hacer estallar la instalación. Según las autoridades, Yassin Salhi, el acusado del atentado, habría tenido vínculos con grupos musulmanes radicales.
    Hasta ahora no hay evidencia de que los atentados en Túnez, Lyon y Kuwait hayan sido coordinados o que respondan a un plan conjunto. Sin embargo, son claros ejemplos de una tendencia: el terrorismo islámico es una amenaza que ha venido agudizándose. Pero, ¿constituyen estos atentados y otros similares la confirmación de la teoría del choque de civilizaciones, popularizada por el profesor de Harvard Samuel Huntington a comienzos de los años noventa del siglo XX? Según Huntington, una vez agotado el enfrentamiento ideológico entre comunismo y capitalismo, los principales conflictos internacionales surgirían entre países con diferentes identidades culturales y religiosas. “El choque de civilizaciones dominará la política global. Las fallas tectónicas que dividen las civilizaciones definirán los frentes de batalla del futuro”, escribió en 1993. Para muchos, los ataques de Al Qaeda y las guerras en Afganistán, Irak y el surgimiento del Estado Islámico confirman esta visión. Pero en realidad, lo que ha ocurrido es que los conflictos se han dado más dentro de las civilizaciones que entre ellas. Las imágenes de los noticiarios de TV, la retórica oficial o la estridencia de los debates en radio e Internet hacen fácil creer que el conflicto más sangriento del siglo XXI es el que existe entre musulmanes radicales y quienes no lo son.
    Pero no es así. Las estadísticas muestran que esta es una visión errada y que los piadosos terroristas islámicos han asesinado a más de sus correligionarios que nadie. La pugna entre chiíes y suníes sigue produciendo víctimas, la mayoría musulmanas. Y por otro lado, también es falso que, en Estados Unidos, los principales atentados terroristas hayan sido llevados a cabo por musulmanes radicalizados. Son estadounidenses racistas —muchos de ellos pertenecientes a movimientos que propugnan la supremacía de la raza blanca— los responsables de la mayor cantidad de muertes en actos terroristas en EE UU. El más reciente fue Dylann Roof, un joven de 21 años que asesinó a nueve personas e hirió a otra en una iglesia en Charleston, Carolina del Sur.
    Las estadísticas son abrumadoras. Según el Índice de Terrorismo Global elaborado por el Instituto de Economía y Paz, en 2013 en el mundo murieron casi 18.000 personas en ataques terroristas. El 82% de estas víctimas se concentró en solo cinco países: Irak, Afganistán, Pakistán, Nigeria y Siria.
    Los responsables del 66% de todas las muertes por terrorismo fueron el Estado Islámico, Boko Haram, los talibanes y Al Qaeda.
    En contraste, en los últimos 14 años, el 5% de los asesinatos terroristas ocurrió en los países de la OCDE. Desde 2000, el 90% de los ataques de terroristas suicidas tuvo lugar en el Medio Oriente, el norte de África y en el sur de Asia (Pakistán y Afganistán principalmente). De los 162 países incluidos en el Índice de Terrorismo Global, Irak ocupa el primer lugar en víctimas y Francia, por ejemplo, está en el puesto 56.
    Ataques racistas
    Las estadísticas con respecto al terrorismo en EE UU son igual de reveladoras. Un estudio publicado esta semana por la fundación New America revela que desde el 11-S las muertes por actos terroristas en EE UU causadas por racistas y otros extremistas no musulmanes fueron el doble que las causadas por musulmanes. Los primeros se cobraron 48 víctimas mientras que los segundos mataron a 26. Además, los ataques terroristas en EE UU son comparativamente poco frecuentes. Desde el 11-S, allí ha habido 19 ataques por parte de no musulmanes y siete de militantes islámicos.
    Todo lo anterior no quiere decir que el terrorismo islámico no sea una grave y creciente amenaza. Y, lamentablemente, lo más probable es que aumente su asesina presencia en otros países. Pero aun así, nada indica que la tendencia vaya a cambiar: las principales víctimas de los terroristas islámicos seguirán siendo sus correligionarios. Las cosas tampoco muestran signos de cambio en Estados Unidos, por lo que cabe esperar que los racistas estadounidenses seguirán siendo una importante amenaza para sus compatriotas.
    El terrorismo no va a desaparecer. Lo importante es combatirlo sobre la base de realidades y no de prejuicios.

    Ejercicios para sobrevivir, Mario Vargas Llosa

    En las reflexiones de Jorge Semprún sobre la tortura, que acaban de publicarse en Francia, no hay autocompasión ni jactancia y, sí, en cambio, un pensamiento que traspasa lo superficial y llega al fondo de la condición humana

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    FERNANDO VICENTE
    Cuando, a los veinte años, Jorge Semprún decidió unirse a uno de los grupos de la Resistencia francesa contra el nazismo, el jefe de Jean-Marie Action, la red de la que iba a formar parte, le advirtió: “Antes de aceptarte, debes saber a lo que te arriesgas”. Y le presentó aTancredo,un sobreviviente de las torturas a que la Gestapo sometía a los combatientes del maquis que capturaba. Las atrocidades que aquél le describió, las padecería Semprún dos años más tarde, cuando, por la delación de un infiltrado, los nazis le tendieron una emboscada en la granja de Joigny que lo escondía.
    La pesadilla se convirtió en realidad: la inmersión en las aguas heladas de una bañera llena de basuras y excrementos; la privación de sueño; las uñas arrancadas; el crujir de todos los huesos del esqueleto al ser colgado del techo de los talones amarrados a sus manos; las descargas eléctricas y las palizas salvajes en las que el desmayo resultaba una liberación.

    En sus reflexiones sobre lo que significa la tortura no hay autocompasión ni jactancia y, sí, en cambio, un pensamiento que traspasa lo superficial y llega al fondo de la condición humana. En Buchenwald, su jefe en el maquis lo felicita por no haber delatado a nadie durante los suplicios —“Ni siquiera fue necesario cambiar los escondites y las contraseñas”, le dice— y el comentario de Semprún no puede ser más parco: “Me alegré de oír eso”. Luego explica que la resistencia a la tortura es “una voluntad inhumana, sobrehumana, de superar lo padecido, de la búsqueda de una trascendencia” que encuentra su razón en el descubrimiento de la fraternidad.
    Nunca antes de escribir este libro, que se ha publicado póstumamente en Francia (Exercices de survie),Jorge Semprún había hablado en primera persona de la tortura, el horror extremo a que puede ser sometido un ser humano a quien los verdugos no sólo quieren sacar información, sino humillar, volver indigno y traidor a sus hermanos de lucha. Pero, aunque nunca hablara de ella en nombre propio, aquella experiencia lo acompañó como una sombra y supuró en su memoria todos los años de su juventud y madurez, en la Resistencia, en el campo nazi de Buchenwald y en sus periódicas visitas clandestinas a España como enviado del Partido Comunista, para tender un puente entre los dirigentes en el exilio y los militantes del interior. En este libro inconcluso, apenas esbozado, y sin embargo lúcido y conmovedor, Semprún revela que la tortura —el recuerdo de las que padeció y la perspectiva de volver a soportarlas— fue la más íntima compañera que tuvo entre sus veinte y cuarenta años. La describe como el apogeo de la ignominia que puede ejercitar la bestia humana convertida en verdugo, y como la prueba decisiva para, superando el espanto y el dolor, alcanzar las mayores valencias de dignidad y de decencia.

    Resistieron para que no fuera la fuerza bruta sino el espíritu racional lo que primara en este mundo
    Un ser humano, sometido al dolor, puede ceder y hablar. Pero puede también resistir, aceptando que la única salida de aquel sufrimiento salvaje sea la muerte. Es el momento decisivo, en el que el guiñapo sangrante derrota al torturador y lo aniquila moralmente, aunque sea éste quien convierta a aquel en cadáver y vaya luego a tomarse una copa. En esa victoria silenciosa y atroz lo humano se impone a lo inhumano, la razón al instinto bestial, la civilización a la barbarie. Gracias a que hay seres así el mundo es todavía vivible.
    Hace bien Régis Debray, prologuista de Exercices de survie, en comparar a Jorge Semprún con André Malraux, que padeció también las torturas de los nazis sin hablar (sus verdugos no sabían quién era la persona a la que torturaban) y, como aquél, fue capaz de convertir “la experiencia en conciencia”. Fue, asimismo, el caso, en España, de George Orwell, a quien casi matan los propios compañeros por los que se había ido a España a luchar, y de Arthur Koestler, esperando en su celda de Sevilla la orden de fusilamiento expedida por el general Queipo de Llano. Ellos, y millares de seres anónimos que, en circunstancias parecidas, actuaron con el mismo coraje, son los verdaderos héroes de la historia, con más pertinencia que los héroes épicos, ganadores o perdedores de grandes batallas, vistosas como las superproducciones cinematográficas. No suelen tener monumentos y, la gran mayoría, ni siquiera son recordados o incluso conocidos, porque actuaron en el más absoluto anonimato. No querían salvar una nación ni una ideología; sólo que no fuera la fuerza bruta sino el espíritu racional y el sentimiento lo que primara en este mundo sobre el prejuicio racista y la intolerancia criminal ante el adversario político, la civilización creada con enormes esfuerzos para sacar a los seres humanos del estado feral y organizar sus sociedades a partir de valores que permitan la coexistencia en la diversidad y hagan disminuir (ya que erradicarla del todo es imposible) la violencia en las relaciones humanas.
    Jorge Semprún fue uno de estos héroes discretos gracias a los cuales el mundo en que vivimos no está peor de lo que está y queda siempre margen para la esperanza. Nacido en una familia acomodada, eligió desde muy joven, sacrificando su vocación por la filosofía, militar en el Partido Comunista y desaparecer en la clandestinidad bajo seudónimos, luchando contra el nazismo y el franquismo, padeciendo por ello el infierno de la tortura, del campo de concentración, muchos años de clandestinidad que lo hicieron vivir desafiando a diario largos años de cárcel o una muerte horrible. ¿Y todo ello para qué? Para descubrir, cuando entraba en la etapa final de su existencia, que el ideal comunista al que tanto había dado, estaba corrompido hasta los tuétanos y que, de triunfar, hubiera creado un mundo acaso todavía más discriminatorio e injusto que el que él quería destruir.

    Aunque evoque el más espantoso de los temas, uno termina el libro sin caer en la desesperanza
    Algunos ex comunistas se suicidaron y otros rumiaron su frustración en la neurosis o un desgarrado silencio. Pero, no Jorge Semprún. Siguió luchando, tratando de explicar aquello que había comprendido al final, en libros que son testimonios extraordinarios de lo huidiza que puede a ser a veces la verdad, y de cómo a menudo ella y la mentira se mezclan de tal manera que parece imposible identificarlas. Sin caer nunca en el pesimismo, encontrando razones suficientes para seguir militando en pos de un mundo mejor, o, por lo menos, más tolerable, con menos injusticias y menos violencias, y mostrando que siempre es posible resistir, enmendar, reiniciar esa guerra en la que sólo se pueden observar victorias momentáneas, porque, como dice Borges en el poema a su bisabuelo que luchó en Junín, “la batalla es eterna y puede prescindir de la pompa, de visibles ejércitos con clarines”.
    Aunque el último libro de Semprún evoque el más espantoso de los temas —la tortura—, uno termina de leerlo sin caer en la desesperanza, porque, además de brutalidad y maldad demoníacas, hay en sus páginas, contrarrestándolas, idealismo, generosidad, valentía, convicción moral y razones sólidas para sobrevivir.

    25 de junho de 2015

    população carcerária no Brasil

    Paradoxo do prisioneiro

    Quanto mais se prende, mais fica claro que, para funcionar, o sistema precisa encontrar outras formas de punição que não a cadeia
    Dados recém-divulgados pelo Ministério da Justiça mostram que a população carcerária brasileira cresce a um ritmo de 7% ao ano desde 2000 e já ultrapassou a marca de 600 mil prisioneiros.
    A média nacional é de 300 encarcerados por 100 mil habitantes, mas em alguns Estados, como São Paulo e Mato Grosso do Sul, ela fica em torno dos 500 por 100 mil, ou seja, 0,5% da população.
    Há várias formas de interpretar a tendência. Em uma leitura positiva, o aumento das prisões resulta de um incremento nas investigações e nas condenações, que são elementos fundamentais para o efeito dissuasório da repressão ao crime se materializar.
    As boas notícias, entretanto, terminam por aí. Os números do Ministério da Justiça também evidenciam que o Brasil amontoa seus presos. Apinha-se em média 1,6 indivíduo por vaga, chegando a dois em algumas unidades.
    A superlotação e as condições degradantes que ela acarreta facilitam o trabalho de recrutamento das organizações criminosas --que podem, por exemplo, oferecer proteção na ausência do Estado.
    Surge aí um paradoxo. Em tese, o encarceramento ocorre, entre outros motivos, para evitar que uma pessoa cometa crimes. Na prática, contudo, a prisão pode se revelar apenas uma maneira de aprimorar sua capacidade de cometer delitos.
    As projeções são outro ponto sombrio. Mantidas as atuais tendências, em 2022 o Brasil atingirá o patamar de 1 milhão de presos.
    Isso significa que, apenas para manter o sistema em condições tão ruins quanto as atuais, dentro de sete anos o país precisaria quase dobrar o total de presídios e cadeias. Sem verbas para obras públicas e com alguns dos principais empreiteiros enfrentando processos judiciais, a tarefa parece ainda mais difícil.
    Pior, se houver melhora na atuação das polícias, com um acréscimo de condenações --como seria desejável--, o número de cidadãos a trancafiar ficaria ainda maior.
    O superencarceramento não é um problema exclusivo do Brasil. Ainda que por razões diferentes, os Estados Unidos há muito enveredaram por essa rota. E, pragmáticos que são, já ensaiam medidas para sair dela, como mostrou reportagem da revista britânica "The Economist" na semana passada.
    Segundo o periódico, não há dúvida de que, em algum grau --embora não se saiba muito bem qual--, prender é importante para evitar o crime.
    É igualmente claro, no entanto, que sentenças de 50 anos de prisão não têm cinco vezes o efeito dissuasório de uma pena de dez --mas custam o quíntuplo.
    O grande paradoxo é que, quanto mais se prende, mais fica claro que, para funcionar, o sistema precisa encontrar outras formas de punição que não a cadeia.

    folha de sp, 25/6/2015