| |||||||||||||||||
17 de fevereiro de 2010
| |||||||||||||||||
16 de fevereiro de 2010
O Globo/RJ
Terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
JORGE WERTHEIN
Discursos e debates sobre a importância da educação não faltam. Parece haver consenso. Quem discorda de que a educação é imprescindível para o desenvolvimento de um país? Uma educação de qualidade para todos é bandeira que nenhum partido ou político despreza. O que falta, então, para que países como o Brasil despontem no cenário internacional, na condição de exemplo em ensino e aprendizagem, assim como já despontam em áreas tão diferentes como os esportes, a música, a agropecuária ou a fabricação de aviões?
Tudo o que se discute em educação, na América Latina, passa antes por melhorar significativamente. a qualidade do ensino mediante uma política de Estado especifica para educação, ciência e tecnologia. Sem ela, permanecerão no horizonte as habituais políticas de curto prazo, com duração de quatro ou, no máximo, oito anos, períodos equivalentes, respectivamente, a um e dois mandatos do Poder Executivo federal, estadual ou municipal. Essa questão ainda não mereceu suficiente debate. Assim, vão-se desperdiçando tempo e dinheiro em políticas que mal se implementam e já saem de cena para que outras entrem em seu lugar.
Quem ouve os professores sabe disso. Não faltam aqueles que adotam um método hoje e precisam substituí-lo amanhã em função da dança de cadeiras no Poder Executivo local.
Áreas cruciais como a educação, a ciência e a tecnologia - estratégicas e que, por isso mesmo, demandam visão de longo prazo - não podem nem devem ficar a mercê de interesses eleitorais imediatistas. A melhor educação possível é o resultado da cooperação, da união de esforços de diversos segmentos, com o único intuito de alavancar o nível educacional do maior número possível de estudantes, sobretudo dos primeiros anos escolares.
A falta de uma política de Estado para a educação prejudica também os professores, pois não há como implementar, por exemplo, uma formação rigorosa de docentes nas universidades. O que eles encontrarão fora dos muros da academia? Tampouco é possível atrair os melhores alunos para a carreira do magistério. Os salários são pouco convidativos, e a realidade cotidiana, desestimulante. Sem formação adequada para os docentes, países como o Brasil não conseguem aumentar sua competitividade no plano internacional. Afinal, como desenvolver outras áreas sem avançar justamente naquela responsável pela formação de todas as outras?
Tudo isso já se disse. Mas todos os que o vêm repetindo experimentam a triste sensação de que se avança, porém mais lentamente do que o desejado. Há esperanças, contudo. Recentemente, a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE) reuniu-se para ouvir experiências em formação científica para estudantes do ensino fundamental. A ideia é reunir insumos para um relatório de recomendação ao Ministério da Educação (MEC) sobre essa área. O CNE ensaia a proposta de uma política nacional nesse âmbito. Espera-se que a louvável iniciativa não cala no esquecimento com possíveis trocas de comando no MEC no futuro. O mesmo vale dizer, evidentemente, sobre estados e municípios, que nem sempre rezam pela mesma cartilha entre si e igualmente sucumbem à tentação de mudar a política educacional a cada mandato.
Portanto, um pacto apartidário pela educação, a ciência e a tecnologia, que dê origem a uma política de Estado para essas áreas, é imperativo. Por que não se faz? Não há consenso sobre serem essas áreas, sobretudo a educação, o eixo central do desenvolvimento neste século XXI? Por que esperar? Até quando?
____________________
JORGE WERTHEIN foi representante da Unesco no Brasil e é vice-presidente da Sangari Brasil.
Folha OnLine/SP
Terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
A Portela mostra neste Carnaval que a internet é uma ferramenta para inclusão social. Com o enredo "Derrubando Fronteiras, Conquistando Liberdade... Rio de Paz em Estado de Graça", a azul e branca da cantora que marcou a história da música brasileira, Clara Nunes, promete levar muita tecnologia e efeitos especiais para a Marquês de Sapucaí para alcançar sua 23ª vitória. O desfile começou por volta da 0h05.
Veja a cobertura completa do Carnaval Saiba os enredos das escolas de samba do Rio
"A gente faz o desfile da escola convidando as pessoas através da comissão de frente a conhecerem o mundo virtual desconhecido. Vamos ter várias surpresas com efeitos especiais, além de oito telões no decorrer do desfile", afirmou o carnavalesco da escola Alex de Oliveira, que trabalha em parceria com o artista Amauri Santos.
Danilo Verpa/Folha Imagem
Juliana Portela, rainha de bateria da Portela, apresenta os ritmistas no sambódromo do Rio; escola de samba fala da tecnologia
Em jejum de 30 anos sem vitória, a Portela foi a única escola do Rio a receber sete títulos seguidos. Em busca do novo título, os carnavalescos demostram estar antenados na atualidade em prol do meio ambiente e apresentam alternativas sustentáveis no desfile.
"No figurino a gente bate muito nessa questão de sustentabilidade. Quase não temos plumas na escola e a gente traz muito material alternativo como piaçava de vassoura, conduíte (tubo de metal ou plástico por onde passam os fios elétricos e de telefone) de obra, peças de microchip de processador de computador e PET, que é o plástico, polímero reciclado. A gente também justifica aos jurados que a tecnologia requer esse cuidado", afirma Alex de Oliveira.
A agremiação é a terceira do Grupo Especial a entrar na Sapucaí no segundo dia de desfiles. Ela se apresenta às 23h10 de segunda-feira (15).
Enredo
A tecnologia sem fronteiras será retratada em 35 alas, divididas em sete alegorias e um total de aproximadamente 4.200 componentes.
Depois de mais de uma década defendendo pavilhões como Mocidade e Unidos da Tijuca, Lucinha Nobre e Rogério Dornelles formam o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Portela, que representam a luz da ciência, à frente da escola.
"A roupa deles será toda de PET, tanto a dele quanto a dela. Estamos acompanhando as criações favoráveis ao meio ambiente", afirmou o carnavalesco.
Alex de Oliveira disse em detalhes como será a divisão dos setores na Sapucaí. Ensaiada pelo coreógrafo Henrique Talmah, a comissão de frente convida o público a conhecer o mundo virtual desconhecido.
"A gente vai utilizar de um tripé que é um browser. Vai ser bem tecnológico. No início do desfile, a gente faz o sinal via satélite, mostra conexão e insere as pessoas no mundo virtual", garante o artista.
De acordo com o carnavalesco, o carro abre-alas, que será acoplado, é o Rio de Janeiro, portal digital. Será apresentada uma cidade futurista com um design diferenciado e internet livre e gratuita para toda a população.
"É como se fosse 2020, um Rio de Janeiro tecnológico. Em termos de planta, a gente está fazendo a estrutura do carro em cima do mapa geográfico do Estado, em vista aérea, e a gente traz ainda a orla carioca. As pessoas ficam sintonizadas ao utilizar smartphones, iPods e toda tecnologia da informação", disse o artista.
Ainda no início do desfile, a agremiação traz a águia, símbolo da escola, como backbone (espinha dorsal / infraestrutura de rede) da apresentação. "A gente vai fazer isso com um recurso de iluminação. Esse sinal digital será a transmissão para os outros carros", disse Oliveira.
O carnavalesco acrescentou que a escola não terá uma águia virtual por conta da iluminação da avenida que é muito forte. "A gente até tentou colocar um programa no carro, mas tudo se apaga. Uma pena, mas aí a gente tem outro tipo de recurso que são os movimentos, coisas que vão ficar muito bacana e fazer a águia se transformar ao longo do desfile", disse.
No segundo setor, os excluídos são convidados a acessar esse universo tecnológico para que possam ser, então, transformados. Já o terceiro setor traz a educação à distância com os integrantes da velha guarda que representam os "mestres da sabedoria", além de todos os seguimentos tradicionais da escola.
"A gente mostra que mesmo com a inovação e a modernidade tem que preservar as nossas tradições e a nossa raiz. A velha guarda vem utilizando a internet na avenida para mostrar que é só perder o medo e saber usufruir o melhor da máquina. Teremos 20 pessoas da velha guarda no primeiro setor e outras cem no terceiro", disse o carnavalesco.
O artista promete apresentar uma tecnologia de comunicação em que o público poderá participar do desfile. "Isso é surpresa, mas as pessoas vão poder interagir com a escola", disse.
O quarto setor representa os benefícios das telecomunicações. Em seguida, a escola traz a bateria que vem de bits e bytes (código binário do computador) e as passistas vem de roteadores. "A gente tem um reforço de efeito especial pra ver se o negócio dá certo, mas é surpresa", disse.
A rainha da escola, Juliana Portela, vem de fibra-ótica. "É um figurino futurista", afirma o artista.
O quarto carro é a fibra ótica. "Em determinada parte do carro, a gente vai ter os tubos transparentes em acrílico por onde passam os fios. As pessoas vão estar inseridas dentro desse duto levando a luz para o público perceber como é a finalidade de uma fibra ótica", disse.
A agremiação mostra também uma ala com 80 "transformers". As pessoas vão representar robôs com a manipulação de movimentos.
No quinto setor, a azul e branca vais mostrar os avanços e recursos que chegam com a medicina tecnológica. O que abre esse setor é a nanotecnologia com fantasias de nanotubo.
"A gente traz exames que utilizam a internet para diagnósticos online. Também mostramos o implante de prótese, a tomografia computadorizada e a robótica", disse Alex de Oliveira.
Depois, a azul e branca apresenta a ala dos compositores que vem de médicos e enfermeiras. No quinto carro, será retratado um centro cirúrgico com a representação do robô-cirurgião Da Vinci. "É um robô que faz exames em 3D de grávidas e mostra toda essa questão com o médico à distância. Nos grandes hospitais de rede em São Paulo tem pelo menos três que já utilizam o Da Vinci. Ele é como se fosse um polvo, que utiliza equipamentos e um laser para a realização do exame. O médico fica à distância manipulando esse robô", disse o artista. Segundo ele, 12 grávidas desfilarão nesse carro.
No sexto setor, mostra-se, na prática, a inclusão social como condição para a transformação. Nesse trecho ligado à acessibilidade e aos direitos humanos, desfila um grupo de cadeirantes, pessoas com síndrome de Down, anões, pessoas de comunidade, do AfroReggae e da Cufa (Central Única das Favelas). "Aí, a gente traz as questões dos fóruns, dos chats, dos blogs, dos sites e todas as pessoas que utilizam isso diretamente", disse Oliveira.
O sétimo e último setor faz referencia ao mundo dos games e pede paz ao Rio como última etapa da transformação do ser humano. As fantasias desse setor representam teclas de atalho e as pessoas fazem um jogo virtual.
"A gente vai ter um combate na alegoria entre criminosos e policiais representando a questão da Polícia Pacificadora no Rio. Por isso, a gente traz em destaque a capitão Priscila de Oliveira (da Unidade de Polícia Pacificadora do morro Dona Marta em Botafogo) e outros 10 policiais militares. A gente fez a roupa deles toda estilizada em cima do uniforme oficial", afirmou o carnavalesco.
Arte Folha Online
Este e-mail foi enviado por Jorge Werthein (jwerthein@ritla.net)
no dia 16/02/2010 pelo sistema empauta.com
Se for respondê-la, verifique se o destinatário está correto. Não responda para o destinatário (empauta-mail@empauta.com)
Jornal Cruzeiro do Sul/SP
Terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Dona Maria Luiza, meus sentimentos.
O trágico assassinato do seu filho, Alcides do Nascimento Lins, de 22 anos, é de uma dramaticidade angustiante, devastadora, insuportável. Seu filho estava em casa, na comunidade Vila Santa Luiza, bairro da Torre, em Recife. Noite do dia 5 de fevereiro. Dois bandidos o mataram com dois tiros na cabeça, à queima-roupa, porque ele não sabia onde estava o homem que eles procuravam numa casa vizinha. Um crime a sangue frio.
Hoje, a senhora chora. Minha vida acabou , lamentou a sua voz diante das câmeras de televisão. O luto cobriu o seu rosto de tristeza e dor.
Há três anos, a senhora vibrou com a entrada de Alcides na Universidade Federal de Permambuco no curso de Biomedicina. Ele havia sido aprovado em primeiro lugar entre os alunos vindos da escola pública. Abrira portas para vencer a barreira da pobreza e ingressara no mundo da verdadeira revolução pessoal, que é a da educação. Estudante aplicado, conseguiu oportunidade de estágio que começou a transformar a vida da família. A senhora, dona Maria Luzia, deixou de ser catadora de lixo. Alcides ia se formar neste ano. Aqueles dois tiros colocaram um fim nessa história de sonho. esperança e força de vontade que serve.
Dona Maria Luiza, a morte de Alcides é daqueles acontecimentos que paralisam uma nação e calam os discursos dos políticos que exibem estatísticas de segurança com leituras que lhes são favoráveis. Enquanto que nos balanços oficiais cada morte é um número, para as vítimas e suas famílias e amigos todo corpo que cai representa uma tragédia. É uma história, um sonho, uma vocação para a vida, que de repente deixam de existir no instante em que bandidos apertam o gatilho de uma arma de fogo.
A indignação é tão devastadora que o jornalista Geneton Moraes Neto, ao comentar a morte de Alcides, escreveu: Neste momento, só há um sentimento possível: a enorme, a indescritível, a imensurável, a monstruosa vergonha de ser brasileiro. Palavras que constituem um protesto solitário, mas intenso. Ele recebeu apoio, mas também críticas.
Pela história, pelo caráter, pelo símbolo da possibilidade de superação por meio dos estudos, a morte de Alcides tem a dimensão de crimes como os que vitimaram a missionária Dorothy Stang, o seringueiro e ativista ambiental Chico Mendes, o brasileiro Jean Charles de Menezes. A repercussão desses crimes, aqui e fora do país, revela uma guerra civil silenciosa em andamento no Brasil camuflada pela propaganda dos governos e pela banalização da violência. Quem pode se protege em condomínios fechados e bem fortificados, utiliza carros blindados e câmeras de segurança: quem não pode fica sujeito aos ataques dos bandidos na rua, nos semáforos, em casa e nos locais de trabalho.
Há dois anos, pesquisa da Rede de Informação Tecnológica Latino Americana (Ritla) mostrou que em 10 anos (1996-2006), o número total de homicídios registrados em todo o Brasil passou de 38.888 para 46.660 um aumento de 20%, levemente superior ao crescimento da população, que foi de 16,3% no mesmo período.
O assassinato de Alcides e as notícias de violência diária em todo o país são indicadores de que não há mudanças nos balanços oficiais.
Se Alcides fosse norte-americano, organismos de defesa da pessoa estariam a esta hora cobrando providências urgentes das autoridades brasileiras. Até o momento em que este texto é escrito, um dos dois acusados de matar o rapaz foi preso. Alcides não era norte-americano, mas brasileiro. Por isso, é a sociedade brasileira que estará atenta para cobrar eficiência no trabalho das autoridades responsáveis pelo caso. Se a justiça não pode trazer Alcides de volta, pelo menos tem a obrigação de punir os responsáveis pela sua morte.
Veja, dona Maria Luiza, o quanto há de sofrimento na perda do seu filho. Sofrem a senhora, as suas três filhas, os companheiros de trabalho e de faculdade que aprenderam a admirar e se habituaram ao jeito de ser de Alcides - tão alegre, tão menino aos 22 anos, tão cheio de vida. Sofre a nação inteira.
Dona Maria Luiza, sabemos que, vivendo numa camada social em que as pessoas lutam para ter o que comer no dia seguinte, a senhora batalhou muito para o seu filho chegar à universidade. Sabemos da sua força e da generosidade do seu coração de mãe. Então, receba o nosso abraço, juntemos as nossas lágrimas. É tudo o que podemos fazer num esforço coletivo para lhe oferecer um pouco de consolo e paz.
Links relacionados: Assassino de estudante é preso
Este e-mail foi enviado por Jorge Werthein (jwerthein@ritla.net)
no dia 16/02/2010 pelo sistema empauta.com
Se for respondê-la, verifique se o destinatário está correto. Não responda para o destinatário (empauta-mail@empauta.com)
Observatório da Imprensa/BR
Terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Os textos e discursos sobre a educação brasileira, não é de hoje, deveriam nos levar a uma situação de impasse. E a consciência desse impasse poderia ser o começo de novo comportamento mental, a desembocar em ações práticas mais eficazes.
Citemos, por exemplo, os títulos de dois livros do educador Arnaldo Niskier: S.O.S. educação (1991) e Apocalipse pedagógico e outras crônicas (2007). A educação precisava ser salva há duas décadas... e não foi. Chegamos, portanto, ao fim? Não seria mau... para recomeçar.
A julgar pelo clima verbal da mídia a respeito da educação, a ideia de que a educação brasileira é calamitosa deixou de ser ideia. Tornou-se palpável como uma pedra no meio do nosso caminho, à força de repetidas declarações nos últimos 50 anos:
"A presente situação da educação no país é nada menos que calamitosa." (Darcy Ribeiro, quando ministro da Educação, em 1962, conforme )
"A educação, no Brasil, é um problema social de inacreditável gravidade." (Florestan Fernandes, sociólogo e político, em 1989)
"A situação da educação é dramática no Brasil." (Dom Raymundo Damasceno de Assis, quando secretário-geral da CNBB, em 1998)
"A educação no Brasil é um fracasso." (Gastão Vieira, quando deputado, político do PMDB, em 2006)
"A educação brasileira é uma calamidade." (Ana Maria Machado, escritora, em 2008)
"Na média, a educação do país está em estado trágico e vergonhoso." (senador Cristovam Buarque, em 2008)
"A educação brasileira é um lixo." (deputado Ciro Gomes, do PSB, em 2009)
"A educação brasileira é uma das piores do mundo. [...] O ensino público brasileiro é um perfeito desastre." (Marcos Bagno, professor, em 2009)
Dois problemas complicados e implicados
Ou, em tom menor, como nesta declaração eufemística: "A situação educacional brasileira é muito complicada" (César Callegari, sociólogo). Na qual, o adjetivo "complicada" é menos forte do que "trágica" ou "calamitosa", mas explicaria por que a tragédia não teve um desfecho, por que o lixo ainda não foi recolhido, ou por que a calamidade se arrasta há tanto tempo.
O problema quantitativo, o do acesso, chaga do nosso sistema de ensino que se tornou evidência incômoda em meados do século 20, denunciada, por exemplo, no livro Educação não é privilégio, de Anísio Teixeira (1957), foi e é visto como prioridade nacional, ainda que tenham surgido vozes discordantes, como a do ministro da Educação Jarbas Passarinho, em plena ditadura, numa entrevista à revista Veja (12/11/1969):
"Muita gente dá grande importância ao problema quantitativo e eu acho extremamente secundário. O grande problema para mim é o qualitativo da educação brasileira. Eis aí uma linha de ação geral muito importante. Antes ter um analfabeto do que um alfabetizado vítima de um sistema farsante de Educação. Não estou dizendo que o nosso atual é. Respondo em tese, mas por isso eu admito que a qualidade do ensino deve se sobrepor à quantidade. Primeiro devemos ter qualidade, para depois então ganhar a batalha do número, a batalha dos bolos, como diz muito bem o Mário Simonsen."
Na verdade, os dois problemas são importantes e estão relacionados. O acesso deve ser universal e de qualidade, respeitando-se as inclinações e escolhas dos estudantes. Ou teremos então de aceitar o raciocínio oposto ao de Jarbas Passarinho, como o do economista Gustavo Ioschpe, na mesma Veja, quatro décadas depois (13/02/2008), ao afirmar que "é preferível para o país ter um balconista com diploma superior a outro analfabeto".
Talvez o desafio da qualidade tenha sido postergado, ou mal trabalhado, no momento em que, também inadiável, era o enfrentamento do desafio da quantidade.
Ainda é preciso muito arroz com feijão
Seja como for, o senador Demóstenes Torres (DEM), referindo-se a "mais uma década perdida" na educação, faz em artigo recente (O Globo, 04/02/2010) afirmações que vale a pena ressaltar:
"Por conta das inúmeras oportunidades perdidas de implementar um sistema educacional decente, continuamos a apresentar índices de atraso que superam até mesmo os países mais pobres da América Latina, que temos a honra de liderar no plano geopolítico."
"Enquanto o Brasil não se definir pela universalização da Escola em Tempo Integral, o sistema educacional vai continuar a formar analfabetos funcionais de alto custo financeiro."
"Estamos a desperdiçar tempo e dinheiro, além de pôr em dúvida a real capacidade de nos convertermos em um protagonista global confiável, já que não se pode levar a sério uma nação com indicadores educacionais piores do que a Bolívia."
O senador está se referindo ao da Unesco, em que o Brasil, embora sejam ali reconhecidos os esforços do MEC, continua com índices altíssimos de repetência no ensino fundamental, um analfabetismo indecente, renitente e com novos contornos, e outros problemas crônicos que se traduzem num IDE (Índice de Desenvolvimento da Educação para Todos) de 0,883 (a escala vai de zero a 1) [ver, neste OI, ""). Algumas outras informações oferecem mais lenha para a fogueira das manchetes: dos 195 mil estabelecimentos de ensino do país, quase 10% (mas já foi pior!) não têm energia elétrica, 37% carecem de biblioteca e em 10% não há banheiros.
Isto significa que, não obstante o destaque econômico do país na América Latina, não obstante o trabalho incansável e meritório do atual ministro da Educação, Fernando Haddad, ainda precisamos comer muito feijão com arroz para demonstrar excelência no campo da educação, ou ao menos sair do grupo dos medíocres, e chegar ao nível de Argentina, Cuba, Uruguai, Chile, México e Venezuela, conforme quadro abaixo:
Calamidade ou inquietação exagerada?
Teremos razão em corroborar o consenso de que a educação no Brasil é um lixo, uma calamidade, um desastre, aceitando o que a mídia capta e faz repercutir e, com ela, divulgando como fato inconteste, em conversas, em textos, em palestras, o nosso vergonhoso colapso educacional? O fato de ainda haver 14 milhões de analfabetos no Brasil significa que somos realmente um caso perdido? E que a situação dos que frequentam as nossas escolas não é muito melhor, haja vista que milhares, milhões de estudantes têm baixo nível de conhecimento de leitura e escrita, dificuldades insanáveis para aprender matemática, aversão às ciências, em comparação com o padrão de ensino europeu?
É preciso refletir com calma, sem cair numa inquietação exagerada... e paralisante. Nem é mentira que estamos numa situação educacional difícil, comprometedora, mazelenta, nem é totalmente verdade que a educação brasileira é um lixo, que não presta para nada, nem para reciclar...
Primeiramente, temos de admitir que existe educação de qualidade no Brasil, tanto no ensino público como no particular. São exceções que as avaliações apontam, o que é de se lamentar, certamente. Mas é um dado que, modesto, não vamos ignorar. Deve ser mencionado e divulgado. É possível identificar escolas, professores, alunos, famílias, municípios que se encontram no círculo, pequeno mas real, da qualidade satisfatória. É estratégico reconhecer esse fato para vislumbrarmos saídas concretas do impasse a que estamos chegando.
Sabemos que há muita alfabetização fictícia, insuficiente, mas também temos de reconhecer que, embora exíguo, há um contingente de estudantes que leem e escrevem bem, que há no Brasil consumidores/apreciadores de leitura e produtores/criadores de texto.
Em suma, generalizações indevidas, por piores que sejam os indicadores a autorizar essas generalizações sobre a falência da educação no Brasil, ajudam muito pouco. E não se trata de ocultar o mal e partir para o mundo dourado, mostrando as exceções de qualidade, os heroísmos eventuais, como exemplos de que a culpa está na classe docente despreparada. O problema educacional tem várias dimensões a serem analisadas em conjunto. E é com uma visão ampla, aberta às contradições e às boas possibilidades, que nós, e a mídia, devemos discutir educação. O fascínio pelas hecatombes nos impede de ver oportunidades, por menores que sejam. Uma certa obsessão pelo pior tende a nos tornar céticos, e a encerrar a história cedo demais.
Indicações para novas abordagens
Proponho algumas correções de rumo em nossos textos e declarações (e em nossas práticas) sobre a educação nacional, com a finalidade de evitar que a sensação de catástrofe total inviabilize as possibilidades, existentes, reais, de reação e melhoria, mesmo que a longo prazo:
** Não nivelar todas as escolas por baixo, mas enfatizar a qualidade, onde quer que ela esteja.
** Qualidade não é uniformidade: sempre haverá disparidades, logo, o ideal não é que todos sejam ótimos, mas que todos melhorem sempre, respeitando-se características e idiossincrasias regionais (bairros, cidades, estados...).
** Identificar as características que fazem uma escola (pública ou privada) ser bem-sucedida, sem encarar tais circunstâncias como algo excepcional. Qualidade serve como inspiração.
** Quem critica a falta de qualidade da educação deve propor saídas com ações de qualidade.
** Qualidade educacional implica vida profissional de qualidade: as condições de trabalho dos professores devem melhorar, incluindo salários que, como contrapartida, tragam-lhes exigências de atuação da melhor qualidade.
** Avaliações não falam sozinhas, é preciso interpretá-las pedagogicamente. O fracasso escolar em língua portuguesa e matemática não impede a eclosão da qualidade em diferentes caminhos existenciais: técnicos de grande habilidade, artistas criativos, excelentes esportistas e outros tipos de profissionais.
** As avaliações, por mais desagradáveis que sejam seus resultados, não devem nos impressionar além da conta. São motivo (termômetro) para olharmos a realidade (doente, febril), com qualidade de visão, e não só para produzir lamentações desqualificadoras... até que sobrevenha a morte.
** As avaliações são menos importantes do que os problemas, e os problemas, se encarados com honestidade e qualidade, tornam-se uma chance para que os críticos se transformem em líderes sociais.
** Ensino de qualidade implica quantidade de horas: é necessário que o período escolar seja de no mínimo seis horas diárias, do ensino fundamental ao médio.
** A educação é uma questão que interessa aos políticos, aos profissionais da mídia, aos economistas, aos empresários, mas é, sobretudo, uma questão que cabe aos educadores, filósofos e poetas analisarem e nela atuarem livremente, com o apoio dos políticos, profissionais da mídia etc.
Este e-mail foi enviado por Jorge Werthein (jwerthein@ritla.net)
no dia 16/02/2010 pelo sistema empauta.com
Se for respondê-la, verifique se o destinatário está correto. Não responda para o destinatário (empauta-mail@empauta.com)
BBC E-mail: Poor parenting 'blamed for all'
should see it.
** Poor parenting 'blamed for all' **
A high-profile academic warns that the politicisation of parenting is damaging families and education.
< http://news.bbc.co.uk/go/em/fr/-/1/hi/education/8517905.stm >
** BBC Daily E-mail **
Choose the news and sport headlines you want - when you want them, all
in one daily e-mail
< http://www.bbc.co.uk/email >
** Disclaimer **
The BBC is not responsible for the content of this e-mail, and anything written in this e-mail does not necessarily reflect the BBC's views or opinions. Please note that neither the e-mail address nor name of the sender have been verified.
If you do not wish to receive such e-mails in the future or want to know more about the BBC's Email a Friend service, please read our frequently asked questions. http://news.bbc.co.uk/1/hi/help/4162471.stm