10 de novembro de 2016

A sociedade da informação e seus desafios, Jorge Werthein

Ci. Inf. v.29 n.2 Brasília maio/ago. 2000


Jorge Werthein
PhD em educação com master em comunicação, Universidade de Stanford. Representante da Unesco no Brasil e coordenador do Programa Unesco - Mercosul.
e-mail: werthein@unesco.org.br



Resumo
Partindo de um conceito que ressalta as características do novo paradigma técnico econômico e critica as concepções deterministas e evolucionistas da mudança social, apresentam-se as promessas da sociedade da informação que justificam o esforço da sociedade na sua construção. Descontados os exageros utópicos que constituem a "computopia", a justificativa desse esforço prende-se às perspectivas oferecidas pelo novo paradigma de avanços significativos para a vida individual e coletiva, elevando o patamar dos conhecimentos gerados e utilizados na sociedade, oferecendo o estímulo para constante aprendizagem e mudança, facilitando a salvaguarda da diversidade e propiciando dinamismo econômico mais condizente com o respeito ao meio ambiente. Suas promessas não podem impedir a constatação de inúmeros desafios e problemas. Alguns são técnicos, outros de natureza social, outros ainda são puramente econômicos e requerem um compromisso político para assegurar o acesso a comunidades menos privilegiadas. Finalmente, há significativos desafios a enfrentar para criar um arcabouço internacional apropriado que minimize as desigualdades globais no acesso à informação.
Palavras-chave
Sociedade da Informação; Acesso à informação; Democratização da informação; Tecnologia da informação; Mudança social; Disseminação da informação; Busca da informação.

Information society and its challenges
Abstract
The article begins with a discussion of the concept of "information society" that stresses the characteristics of the new techno-economic paradigm and criticises determinism and the evolucionist approach to social change. Discussing the great expectations from the information society, the author explores the reasons for a global effort to be put into its development. Utopian excesses of a "computopia" apart, reasons for building an information society stem from the possibilities it allows for significant advances in individual and social life, raising the level of knowledge produced and put into use in society, stimulating continuous change and learning, helping the recovery and maintenance of diversity and providing a kind of economic dynamism that is more in tune with sound environmental policies. Good promises, satisfactory as they might be, cannot, however, cover up the existence of various problems and challenges. Some of them are technical, while others are of a social nature. Economic challenges will require deep political commitment to guarantee access to the less privileged. Finally, it is a great challenge to build an international framework to minimise global inequalities in information access.
Keywords
Information Society; Access to informação; Democratization of informação; Information technology; Social change; Information dissemination; Information search.



INTRODUÇÃO
Dificilmente alguém discordaria de que a sociedade da informação é o principal traço característico do debate público sobre desenvolvimento, seja em nível local ou global, neste alvorecer do século XXI. Das propostas políticas oriundas dos países industrializados e das discussões acadêmicas, a expressão "sociedade de informação" transformou-se rapidamente em jargão nos meios de comunicação, alcançando, de forma conceitualmente imprecisa, o universo vocabular do cidadão. Uno-me a todos os que têm procurado desfazer a teia de imprecisões verbais em relação às mudanças do mundo contemporâneo e, desta forma, contribuído para destruir mitos que impedem uma consciente participação nesse processo de mudança. Uma reflexão crítica que permita compreender as presentes transformações sociais e avaliar suas implicações com base em critérios definidos deverá permitir a integração de critérios sócio-culturais e éticos aos econômicos e políticos usualmente associados à prescrição da "sociedade da informação" e, desta forma, colocar à disposição do cidadão caminhos para uma participação ativa na construção de seu futuro.
O ponto de partida nesse artigo é, portanto, definir essa expressão com o rigor possível no espaço que dispomos. Nas seção 3 serão discutidas algumas das promessas da sociedade da informação que justificam o esforço de todos em seu desenvolvimento. As preocupações com a direção que vem tomando o novo paradigma tecnológico da informação concluem o artigo que aponta os inúmeros desafios a enfrentar para que a nova sociedade supere velhas e novas desigualdades.
A "sociedade da informação"
A expressão "sociedade da informação" passou a ser utilizada, nos últimos anos desse século, como substituto para o conceito complexo de "sociedade pós-industrial" e como forma de transmitir o conteúdo específico do "novo paradigma técnico-econômico". A realidade que os conceitos das ciências sociais procuram expressar refere-se às transformações técnicas, organizacionais e administrativas que têm como "fator-chave" não mais os insumos baratos de energia – como na sociedade industrial – mas os insumos baratos de informação propiciados pelos avanços tecnológicos na microeletrônica e telecomunicações. Esta sociedade pós-industrial ou "informacional", como prefere Castells, está ligada à expansão e reestruturação do capitalismo desde a década de 80 do século que termina. As novas tecnologias e a ênfase na flexibilidade – idéia central das transformações organizacionais – têm permitido realizar com rapidez e eficiência os processos de desregulamentação, privatização e ruptura do modelo de contrato social entre capital e trabalho característicos do capitalismo industrial.
As transformações em direção à sociedade da informação, em estágio avançado nos países industrializados, constituem uma tendência dominante mesmo para economias menos industrializadas e definem um novo paradigma, o da tecnologia da informação, que expressa a essência da presente transformação tecnológica em suas relações com a economia e a sociedade. Esse novo paradigma tem, segundo Castells (2000) as seguintes características fundamentais:
  • A informação é sua matéria-prima: as tecnologias se desenvolvem para permitir o homem atuar sobre a informação propriamente dita, ao contrário do passado quando o objetivo dominante era utilizar informação para agir sobre as tecnologias, criando implementos novos ou adaptando-os a novos usos.
  • Os efeitos das novas tecnologias têm alta penetrabilidadeporque a informação é parte integrante de toda atividade humana, individual ou coletiva e, portanto todas essas atividades tendem a serem afetadas diretamente pela nova tecnologia.
  • Predomínio da lógica de redes. Esta lógica, característica de todo tipo de relação complexa, pode ser, graças às novas tecnologias, materialmente implementada em qualquer tipo de processo.
  • Flexibilidade: a tecnologia favorece processos reversíveis, permite modificação por reorganização de componentes e tem alta capacidade de reconfiguração.
  • Crescente convergência de tecnologias, principalmente a microeletrônica, telecomunicações, optoeletrônica, computadores, mas também e crescentemente, a biologia. O ponto central aqui é que trajetórias de desenvolvimento tecnológico em diversas áreas do saber tornam-se interligadas e transformam-se as categorias segundo as quais pensamos todos os processos. 
O foco sobre a tecnologia pode alimentar a visão ingênua de determinismo tecnológico segundo o qual as transformações em direção à sociedade da informação resultam da tecnologia, seguem uma lógica técnica e, portanto, neutra e estão fora da interferência de fatores sociais e políticos. Nada mais equivocado: processos sociais e transformação tecnológica resultam de uma interação complexa em que fatores sociais pré-existentes, a criatividade, o espírito empreendedor, as condições da pesquisa científica afetam o avanço tecnológico e suas aplicações sociais. Vale reproduzir um comentário de Castells:
É provável que o fato da constituição desse paradigma ter ocorrido nos EUA e, em certa medida, na Califórnia e nos anos 70, tenha tido grandes conseqüências para as formas e a evolução das novas tecnologias da informação. Por exemplo, apesar do papel decisivo do financiamento militar e dos mercados nos primeiros estágios da indústria eletrônica, da década de 40 à de 60, o grande progresso tecnológico que se deu no início dos anos 70 pode, de certa forma, ser relacionado à cultura da liberdade, inovação individual e iniciativa empreendedora oriunda da cultura dos campi norte-americanos da década de 60... Meio inconscientemente, a revolução da tecnologia da informação difundiu pela cultura mais significativa de nossas sociedades o espírito libertário dos movimentos dos anos 60. (Castells, 2000, pp.25)
Além do indevido determinismo, incorre-se muitas vezes também em despropositado evolucionismo na discussão do novo paradigma tecnológico quando a "sociedade da informação" é vista como etapa de desenvolvimento. Como muito bem alerta Agudo Guevara (2000), melhor seria referir-se a sociedades da informação, no plural, para identificar, numa dimensão local, aquelas nas quais as novas tecnologias e outros processos sociais provocaram mudanças paradigmáticas. A expressão "sociedade da informação", no singular, seria melhor utilizada, numa dimensão global (ou mundial), para identificar os setores sociais, independente de sua ubicação local, que participam "como atores de processos produtivos, de comunicação, políticos e culturais que têm como instrumento fundamental as TIC [tecnologias de informação e comunicação]  e se produzem – ou tendem a produzir-se – em âmbito mundial" (Agudo Guevara, 2000, pp.4).
O determinismo e o evolucionismo distorcem a análise do complexo processo de mudança social e alimentam uma atitude passiva, contemplativa, em relação a esse processo. Tais posturas impedem ou ignoram que a sociedade, especialmente por intermédio do Estado, tem desempenhado, no decorrer da história, um papel muito ativo tanto para promover quanto para sufocar o desenvolvimento tecnológico e suas aplicações sociais. Isso é particularmente claro no que se refere às novas tecnologias. O avanço tecnológico no novo paradigma foi em grande parte o resultado da ação do Estado e é o Estado que está à frente de iniciativas que visam ao desenvolvimento da "sociedade da informação" nas nações industrializadas e em muitas daquelas que ainda estão longe de ter esgotado as potencialidades do paradigma industrial.
Adotando a sugestão de Agudo Guevara, um olhar sobre a experiência concreta das sociedades de informação permite revelar como a reestruturação do capitalismo e a difusão das novas tecnologias da informação lideradas e/ou mediatizadas pelo Estado estão interagindo com as forças sociais locais e gerando um processo de transformação social. Em termos gerais, é consenso entre analistas que a realização do novo paradigma se dá em ritmo e atinge níveis díspares nas várias sociedades. Junto com o jargão da "sociedade da informação" já é lugar comum a distinção entre países e grupos sociais "ricos" e "pobres" em informação. As desigualdades de renda e desenvolvimento industrial entre os povos e grupos da sociedade reproduzem-se no novo paradigma. Enquanto, no mundo industrializado, a informatização de processos sociais ainda tem de incorporar alguns segmentos sociais e minorias excluídas, na grande maioria dos países em desenvolvimento, entre eles os latino-americanos, vastos setores da população, compreendendo os médios e pequenos produtores e comerciantes, docentes e estudantes da área rural e setores populares urbanos, adultos, jovens e crianças das classes populares no campo e na cidade, além daquelas populações marginalizadas como desempregados crônicos e os "sem-teto" engrossam a fatia dos que estão ainda longe de integrar-se no novo paradigma (Agudo Guevara 2000). Este fato fundamental constitui um dos desafios éticos para a constituição das sociedades da informação, desafio que somente a ação social consciente poderá superar, já que certamente não será resolvido pelo avanço tecnológico em si mesmo, nem por uma hipotética evolução natural.

AS PROMESSAS DO NOVO PARADIGMA
Por que é desejável promover a sociedade da informação? 
Passadas as primeiras reações de temor diante dos efeitos da automação dos setores produtivos, os avanços da informática e da telemática provocaram uma fase de fascinação quase infantil – felizmente em grande parte já superada – particularmente nas três últimas décadas, quando a difusão da Internet nos países industrializados deu suporte ao sonho de integração mundial dos povos por meio de infovias globais. Embora o realismo de estudos e análises tenha, desde aquela época, contrabalançado o entusiasmo ingênuo, há que reconhecer como em grande parte justificadas as bases e evidências que fundamentam especulações positivas sobre a sociedade da informação.
Utilizando as características do novo paradigma técnico-econômico descrito na seção anterior, pode-se destacar justificadas expectativas positivas sobre a sociedade da informação. Em primeiro lugar, a substituição de insumos baratos de energia por informação como fator-chave do novo paradigma representa, para a sociedade, uma saída inesperada para a questão estrutural da degradação do meio ambiente.
Se a penetrabilidade das novas tecnologias pode, por um lado, elevar o temor com possíveis efeitos negativos – a serem analisados na próxima seção – e até reforçar a inevitabilidade das transformações que acarreta, por outro lado fundamenta a concepção da sinergia capaz de conferir dinamismo ao processo de mudança desde que deflagrado, reforça a idéia da impossibilidade de integração "parcial" ao novo paradigma e dá suporte às iniciativas que visam preparar a sociedade como um todo para enfrentar e tomar partido das tendências de transformações técnico-econômicas.
Porque permite implementar materialmente a lógica de redes, a tecnologia permite modelar resultados imprevisíveis da criatividade que emana da interação complexa, desafio quase intransponível no padrão tecnológico anterior. Se isso dá vazão aos sonhos mais delirantes no âmbito das ciências básicas, das aplicações tecnológicas avançadas e da estratégia, não deixa também de alimentar sonhos mais prosaicos – e não menos significantes – como o de finalmente permitir a integração ensino/aprendizagem de forma colaborativa, continuada, individualizada e amplamente difundida.
A flexibilidade que caracteriza a base do novo paradigma é, talvez, o elemento que mais fortemente fundamenta as especulações positivas da sociedade da informação. É ela que incorpora, na essência do paradigma, a idéia de "aprendizagem". A capacidade de reconfiguração do sistema refere-se a maior disponibilidade para a incorporação da mudança. A noção de "aprendizagem" passa a ser empregada em vários níveis, sendo o organizacional sua aplicação de maior significado na reestruturação capitalista no novo paradigma. Obviamente, a flexibilidade também dá fundamento às expectativas de contínua adaptação de trabalhadores e consumidores, produtores e usuários, o que coloca o contínuo aperfeiçoamento intelectual e técnico como requisito da sociedade da informação.
A convergência tecnológica reforça os efeitos da sinergia decorrente da penetrabilidade das tecnologias na sociedade da informação. Daí é fácil compreender a fascinação (e o temor) com uma utópica sociedade informatizada em que não apenas o desenvolvimento tecnológico parece não ter limites nem desacelerar e, dessa forma, alterar continuamente todos os processos que afetam a vida individual e coletiva. Se a corrida espacial frustrou a imaginação popular de viagens interplanetárias ao alcance de todos no século XXI, os avanços da telemática e da microeletrônica prometem colocar ao alcance da mão facilidades nunca antes imaginadas em termos de bem-estar individual, lazer e acesso rápido, ilimitado e eficiente, ao rico acervo do conhecimento humano. 
As características do novo paradigma justificam, para alguns analistas, a crença de que a sociedade da informação será completamente diferente da sociedade industrial e que podemos aguardar para breve a "computopia", bastando que compreendamos e direcionemos as forças sociais subjacentes.
Uma formulação dessa visão idealizada é a de Masuda (1985), autor do Plano Japonês para uma Sociedade da Informação publicado nos anos 70. Nessa utopia, a tecnologia dos computadores terá como função fundamental substituir e amplificar o trabalho mental dos homens; permitirá a produção em massa de conteúdo cognitivo, informação sistematizada, tecnologia e conhecimento. A infra-estrutura pública de computadores articulados em redes e bancos de dados substituirá os centros de produção de bens como símbolo societário. A elevação da capacidade educacional e técnica e de criação de novas oportunidades econômicas terão o papel desempenhado pela descoberta de novos continentes e aquisição de colônias na expansão do mercado da sociedade industrial. A liderança da economia será ocupada pela indústria intensiva em conhecimento. A produção de informação pelo próprio usuário ganhará grande espaço e importância na estrutura econômica. O mais relevante sujeito de ação social será a comunidade de voluntários, não a empresa ou grupos econômicos, e a sociedade não será hierárquica, mas multicentrada, complementar e de participação voluntária. A meta social será a concretização do valor do tempo e não mais a criação de uma sociedade de alto bem-estar. A democracia participativa substituirá o sistema parlamentar e a regra da maioria e os movimentos sociais serão a força por trás de mudanças sociais. Em seu estágio avançado, será uma sociedade de criação de conhecimento. O globalismo, a harmonia entre homem e natureza, a auto-disciplina e a contribuição social serão os princípios orientadores dessa sociedade (Masuda 1985: 620-625). 
Embora o desenvolvimento nas sociedades da informação tenha logo mostrado os exageros de uma tal utopia, traços semelhantes são ainda encontrados em formulações que procuram antecipar a direção das transformações sociais em curso. É curiosa, por exemplo, a especulação de Tiffin e Rajansingham sobre as perspectivas que as novas tecnologias oferecerão no campo da educação.
Os autores chamam a atenção para a sala de aula como um "sistema de comunicação que torna possível a um grupo de pessoas encontrar-se para falar sobre algo que desejam aprender, ver figuras e diagramas e ler textos que as ajudem a compreender. Numa sala de aula convencional isto é tornado possível pelas paredes que dão proteção contra o barulho e interferência externos de forma que, aqueles que estão dentro da sala, podem ouvir e ver uns aos outros e também, no quadro-negro, as palavras, diagramas e figuras sobre o assunto que está sendo aprendido. A questão é, pode a tecnologia da informação fornecer um sistema de comunicação alternativo que seja pelo menos tão eficiente quanto a sala de aula convencional?"(Tiffin e Rajansingham, 1995, p.6) A realidade de muitos países justifica uma resposta afirmativa: vários pontos remotros podem ser conectados graças à telemática em teleconferência nas "salas de aula virtuais" seja sob a forma audiográfica mais simples ou em videoconferências.
A emergência da tecnologia da realidade virtual (RV), na década de 90, levou a previsões quase ficcionais da revolução no processo de educação.
A RV oferece-nos a possibilidade de uma turma encontrar-se na Floresta Amazônica ou no topo do Monte Everest; poderá permitir-nos expandir nossa perspectiva de observação até ver o sistema solar operando como um jogo de bolas de vidro à nossa frente, ou encolhê-la de forma a poder caminhar em meio à estrutura atômica como se ela fosse uma escultura num parque; poderemos entrar na realidade virtual ficcional no papel de um personagem de uma peça, ou na realidade virtual não ficcional para acompanhar um cirurgião na exploração microscópica do corpo humano. Usaremos essa extraordinária tecnologia para fazer avançar o modo pelo qual aprendemos, ou a utilizaremos para criar versões virtuais de salas de aula convencionais? (Tiffin e Rajansingham, 1995, pp 7 e 8).
Em sua especulação, Tiffin e Rajansingham imaginam "Shirley", a "aprendiz autônoma" da futura sociedade da informação ,vestida em sua roupa digital e com seu capacete ajustado, assistindo Laurence Olivier interpretar Hamlet num velho filme preto e branco, uma atividade do curso "Encenação de Peças de Shakespeare".  Comparando as diferenças entre a encenação do filme com a teatral, ela se indaga sobre como teria sido a encenação original. Onde era Elsinore?
"Pare", ela diz, e o filme mantém a imagem da amurada na abertura da cena do fantasma. "Mapeie", ela pede, e depois, "Mostre a Dinamarca".  Em seguida,  ordena "Busque Elsinore" e... lá está, exatamente onde a Dinamarca e a Suécia se defrontam, separadas por uma faixa de água. "Deve ter sido uma posição muito estratégica", pensa e vê que o nome em dinamarquês era Helsingor. Com o dedo, circula Elsinore e, então diz, "Mostre", e lá está a vila com o terminal do barco de transporte e, numa península ao lado do porto, o castelo. Em seguida, ela circula o castelo e recebe uma planta baixa de todo o terreno e edificações. Neste ponto, entretanto, uma janela abre-se num dos lados do plano com os seguintes dizeres: "Castelo de Helsingor, Informação Proprietária do Governo Dinamarquês. Serviços de informação disponíveis. Todos os principais cartões de crédito são aceitos'... (Tiffin e Rajansingham, 1995, pp.145).
Apesar das limitações impostas pela apropriação da informação relevante, a especulação dos autores nos garante que Shirley consegue "entrar" no castelo e percorrer os lugares correspondentes às referências feitas em Hamlet, à medida que a peça é virtualmente encenada, escolhendo ora a posição de "platéia", ora de ator...
Sem precisar recorrer a formulações utópicas como as representadas pelas especulações de Masuda ou Tiffin e Rajansingham, a reflexão sobre as potencialidades do novo paradigma permite responder à pergunta que inicia esta seção. É desejável promover a sociedade da informação porque o novo paradigma oferece a perspectiva de avanços significativos para a vida individual e coletiva, elevando o patamar dos conhecimentos gerados e utilizados na sociedade, oferecendo o estímulo para constante aprendizagem e mudança, facilitando a salvaguarda da diversidade e deslocando o eixo da atividade econômica em direção mais condizente com o respeito ao meio ambiente.

DESAFIOS NA CONSTRUÇÃO DE SOCIEDADES DA INFORMAÇÃO
Exageros especulativos à parte, é preciso reconhecer que muitas das promessas do novo paradigma tecnológico foram e estão sendo realizadas, particularmente no campo das aplicações das novas tecnologias à educação. Educação à distância, bibliotecas digitais, videoconferência, correio eletrônico, grupos de "bate-papo", e também voto eletrônico, banco on-line, video-on-demand, comércio eletrônico, trabalho à distância, são hoje parte integrante da vida diária na maioria dos grandes centros urbanos no mundo. 
A satisfação com tais avanços, no entanto, não deve impedir-nos de identificar áreas de preocupação com a direção e o ritmo da mudança. A sociedade vem observando com atenção a evolução histórica do novo paradigma da informação e externando, em cada etapa desse desenvolvimento, suas preocupações reais ou infundadas com as implicações sociais das novas tecnologias. Independentemente de aceitarmos ou não a concepção da "neutralidade" ou "ambivalência" da tecnologia, não se pode ignorar as questões éticas relacionadas a ela.
Os desafios da sociedade da informação são inúmeros e incluem desde os de caráter técnico e econômico, cultural, social e legal, até os de natureza psicológica e filosófica. Alguns autores, como Leal (1996) chegam a formular os desafios éticos da sociedade da informação em termos de uma múltipla perda: perda de qualificação, associada à automação, e desemprego; de comunicação interpessoal e grupal, transformada pelas novas tecnologias ou mesmo destruída por elas; de privacidade, pela invasão de nosso espaço individual e efeitos da violência visual e poluição acústica; de controle sobre a vida pessoal e o mundo circundante; e do sentido da identidade, associado à profunda intimidação pela crescente complexidade tecnológica. Já outros, como Brook e Boal (1995) dedicam-se a examinar estratégias de resistência para, como um novo "luddismo", lutar contra os aspectos perniciosos da tecnologia virtual acusada de disseminar na sociedade a utilização de um simulacro de relacionamento como substituto de interações face a face e contra a alegada usurpação pelo capital do direito de definir a espécie de automação que desqualifica trabalhadores, amplia o controle gerencial sobre o trabalho, intensifica as atividades e corrói a solidariedade.
Algumas das preocupações acima têm sido transformadas com o avanço do novo paradigma, incluindo as ações dos movimentos sociais em reação às implicações consideradas socialmente inaceitáveis. O desemprego tecnológico e a desqualificação do trabalho, por exemplo, tendem a ser contrabalançados pelo próprio aprofundamento das transformações do paradigma o que inclui uma reestruturação sistêmica do emprego e a requalificação dos trabalhadores. Em alguns outros casos, como a perda da privacidade, a sociedade tem-se mobilizado para promover o que Leal identifica como o "comportamento normal responsável" inclusive por meio de legislação adequada para proteger os direitos do cidadão na era digital. A perda do sentimento de controle sobre a própria vida e a perda da identidade são temas que continuam preocupantes e que estão ainda por merecer estratégias eficientes de intervenção.
Uma questão ética do novo paradigma não discutida por analistas como Leal, Brook e Boal diz respeito ao aprofundamento de desigualdades sociais, desta vez, sobre o eixo do acesso à informação. O ritmo do avanço tecnológico no alvorecer do novo paradigma tem sido, sob qualquer ótica, extraordinário. O ritmo de expansão da Internet no mundo levou apenas um terço do tempo que precisou o rádio para atingir uma audiência de 50 milhões de pessoas (Quéau, 1999). A redução dos preços dos computadores por volume de capacidade de processamento facilitou grandemente essa difusão, mas não permitiu ainda superar a relação entre nível de renda e acesso às novas tecnologias. Os dados a seguir ilustram o contraste em relação ao acesso à informação pelas populações de países industrializados e em desenvolvimento.
Dispondo de uma população algumas vezes maior, os baixos níveis de renda per capita nos países em desenvolvimento refletem-se em alta taxa de analfabetismo adulto, baixo acesso à educação formal avançada e à tecnologia da informação tanto convencional quanto moderna.
O nível de agregação dos dados anteriores esconde diferenças importantes dentro do mundo em desenvolvimento, mas mesmo para o terço mais avançado dentre eles, aplica-se a advertência de Mansell e Wehn (1998, capítulo 13) para os quais o papel das tecnologias de informação na construção de uma "sociedade do conhecimento" inovadora poderá ser muito relevante e contribuir para o desenvolvimento sustentado, mas será acompanhado de muitos riscos. Nesses países, em especial os de nível médio de renda – grupo em que se enquadram muitos dos países da América Latina e Caribe – as novas tecnologias e seu uso requerem investimentos na elevação das capacidades tecnológicas locais e no desenvolvimento das instituições políticas, culturais, econômicas e sociais. O avanço do novo paradigma dependerá de como serão resolvidas as tensões entre as culturas e modos de organização social existentes e aquelas que começam a se tornar dominantes. As sociedades desses países terão de adaptar suas estruturas institucionais para tratar questões importantes como a proteção da propriedade intelectual. Terão também de examinar a conveniência de estabelecer um equilíbrio entre suas metas de exportação de produtos e serviços de maior conteúdo tecnológico com a criação de oportunidades para ampliar a adoção local  das novas tecnologias. Para Mansell e Wehn, "não se pode esperar de estratégias visando acelerar a difusão do novo paradigma que erradiquem a pobreza, em curto prazo, e há riscos de que as novas políticas e investimentos nas aplicações das tecnologias de informação introduzam novas forças de exclusão" (pp.258).

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Na sociedade globalizada em que avança o novo paradigma, a emergência de novas forças de exclusão se dá tanto em nível local quanto global e requer esforços em ambos os níveis no sentido de superá-las. Ações fundamentais nessa direção são as que promovem o acesso universal tanto à infra-estrutura quanto aos serviços de informação a preços accessíveis. A conexão internacional dos países em desenvolvimento e até da Europa está extremamente concentrada em poucos pontos de acesso. Como não há a exigência de que os operadores desses pontos de acesso partilhem os custos do circuito completo (até o ponto de acesso internacional e retorno ao ponto de origem), os provedores de serviços de Internet nos países em desenvolvimento devem, na maioria das vezes, pagar pelos custos totais das ligações nos dois sentidos, o que encarece o serviço e restringe suas possibilidades de expansão (Quéau, 1999). Novas parcerias e políticas de cooperação internacional deverão ser elaboradas para estimular o desenvolvimento e fortalecimento de redes intra-regionais. A instalação de backbones regionais de alta capacidade, por exemplo, permitiria ligar cada país a uma rede global de múltipla conexão onde ninguém dominaria a conectividade.
O acesso universal ao conteúdo e a fontes de conhecimento aponta para a necessidade de resolver vários outros desafios. Um dos mais relevantes, como apontam Mansell e Wehn, é o reconhecimento dos direitos de propriedade intelectual. Do ponto de vista dos países em desenvolvimento, uma delicada negociação com os editores deveria permitir a extensão da legislação relativa ao "uso justo" aos recursos disponíveis na Internet. A essa negociação dever-se-ia acrescentar ações visando difundir de forma eficiente princípios "info-éticos" em relação aos direitos de propriedade intelectual, inclusive na Internet. Uma outra questão é elevar o volume de informação de qualidade e de domínio público disponível na Internet no(s) idioma(s) de expressão da população de cada sociedade. Isso envolverá convencer o governo e centros produtores de conhecimento financiados por recursos públicos a tornarem disponíveis ao público as informações produzidas.
No campo educacional dos países em desenvolvimento, decisões sobre investimentos para a incorporação da informática e da telemática, implicam também riscos e desafios. Será essencial identificar o papel que essas novas tecnologias podem desempenhar no processo de desenvolvimento educacional e, isso posto, resolver como utilizá-las de forma a facilitar uma efetiva aceleração do processo em direção a educação para todos, ao longo da vida, com qualidade e garantia de diversidade.  As novas tecnologias de informação e comunicação tornam-se, hoje, parte de um vasto instrumental historicamente mobilizado para a educação e aprendizagem. Cabe a cada sociedade decidir que composição do conjunto de tecnologias educacionais mobilizar para atingir suas metas de desenvolvimento.
O fluxo de informação e da transformação dessa informação em conhecimento está no âmago do mandato da Unesco de contribuir para a paz e segurança por meio da promoção da colaboração entre as nações. Os benefícios da participação na sociedade global da informação requer um consenso internacional dentro deste amplo mandato. O progresso da educação, ciência e cultura é fundamentalmente o de compartilhar informação e de criar novos meios de aprendizagem e conhecimento.
Em decorrência de seu mandato, a Unesco tem atuado de forma sistemática no sentido de apoiar as iniciativas dos Estados Membros na definição de políticas de integração das novas tecnologias aos seus objetivos de desenvolvimento. Na Unesco, o Programa Geral de Informação (PGI) e o Programa Intergovernamental de Informática (IIP), hoje fundidos no Programa Informação para Todos, enfeixavam as ações desse organismo internacional em duas áreas principais, conteúdo para a sociedade da informação e "infoestrutura" para esta sociedade em evolução, por meio da cooperação para treinamento, apoio ao estabelecimento de políticas de informação e promoção de conexões em rede.
No espírito da Declaração Universal dos Direitos do Homem que constitui a base dos direitos à informação na sociedade da informação, e levando em consideração os valores e a visão delineados anteriormente, o novo Programa Informação para Todos deverá prover uma plataforma para a discussão global sobre acesso à informação, participação de todos na sociedade da informação global e as conseqüências éticas, legais e societárias do uso das tecnologias de informação e comunicação. Deverá prover também a estrutura para colaboração internacional e parcerias nessas áreas e apoiar o desenvolvimento de ferramentas comuns, métodos e estratégias para a construção de uma sociedade de informação global e justa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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3. CASTELLS, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. In: A Sociedade em rede. São Paulo : Paz e Terra, 2000. v. 1.        [ Links ]
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Para além de escola com ou sem partido


PAULO GHIRALDELLI


Karl Marx ficaria tentado a olhar com bons olhos para o projeto de lei Escola Sem Partido.
O projeto é inconstitucional e fere a liberdade de expressão. Também é pedagogicamente inviável, pois transformaria a escola em um cemitério. Aula não é discurso, mas reflexão e investigação conjunta, o que implica liberdade. Quem teve boas aulas, sabe disso.
Marx teve boas aulas. Então, por que ele desejou que a escola só ensinasse aquilo que pudesse ser ensinado sem que preferências doutrinárias e políticas aparecessem?
Marx bebeu do positivismo do século 19, que acreditava que havia objetividade e neutralidade em determinados saberes, e que então estes deveriam estar na base curricular da escola.
Essa aspiração está no senso comum de nossa época. Há algo disso entre os que acham correto o projeto Escola Sem Partido, daí seu êxito em conseguir adeptos.
Acreditam que ao menos pela forma que são apresentados, os conteúdos do ensino podem estar longe de algo que soe como doutrinação. Querem liberdade para os filhos, mas, paradoxalmente, pedem que uma polícia política a institua!
Os que se opõem ao projeto Escola Sem Partido, por sua vez, contra a aspiração por neutralidade do saber e da escola, bradam que "todo saber é político" e que "toda escola é ideológica".
Ora, se fosse assim, poucos poriam seus filhos na escola. Não são muitos os que querem ver seus filhos, ao menos na escola, sob a batuta de vomitadores de ideologia.
Os adultos querem que seus filhos, na escola, aprendam "o que se deve saber".
Em uma linguagem mais técnica da filosofia e da pedagogia chamamos isso de "os clássicos".
O clássico capta uma experiência particular, geograficamente localizada e historicamente datada, e a faz universal, mantendo sua singularidade.
Assim põe, ao seu modo e sob sua forma, algo equivalente ao que seria a força da objetividade e neutralidade do saber. Não é que ele escapa do mundo, mas, ao contrário, abarca o mundo, enche de admiração os melhores corações e os intelectos mais argutos e, por determinação própria, cria sobre si mesmo uma barreira contra a distorção política e ideológica.
As distorções são sempre menores que a força interna dos clássicos.
Machado de Assis é um clássico da literatura mundial. Você pode posicioná-lo como politicamente liberal, mas isso pouco importa, pois a força de sua escrita está no manejo da língua, na capacidade de ser um Schopenhauer irônico, de chocar e embevecer.
Um japonês inteligente e sensível em Tóquio, ao ler Machado hoje, sabe o que foi estar no Rio de Janeiro escravocrata do século 19 e ser sensível e inteligente, mas também sabe que o recado de Machado serve para ele.
A força do gênio se impõe e funciona como se a aspiração por objetividade e neutralidade, que todo bom saber quer alcançar, se realize de uma maneira peculiar.
Então, na grade curricular da escola do menino japonês, quando ele for estudar matérias que falem da cultura ocidental, pode ser que Machado de Assis tenha de ser incluído junto de Nabokov ou Henry James.
Quando entendemos que a aspiração por neutralidade e objetividade que todo saber quer realizar se faz quando ele se transforma em um clássico, começamos a compreender a origem da grade curricular da escola moderna.
Isso é reflexão. Mas gurus não querem reflexão, apenas mandam gritar "é golpe" ou "não é golpe". Não é comigo!
PAULO GHIRALDELLI, 58, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015)

9 de novembro de 2016

Como formar os melhores professores do mundo, érica fraga


Apu Gomes/Folhapress
Alunos em sala de aula de colégio estadual na zona leste de São Paulo
Alunos em sala de aula de colégio estadual na zona leste de São Paulo
"Um professor finlandês recebeu o mais alto nível de educação do mundo".
Essa frase abria um anúncio do sindicato dos docentes da Finlândia no fim da década de 1980.
Nessa época, o país europeu, uma superpotência educacional, havia passado por uma reforma dura no regime de formação de seus professores, que envolveu o fechamento de instituições de ensino de má qualidade e a concentração dos cursos em universidades de primeiro nível.
Essas histórias são contadas pela jornalista americana Amanda Ripley no ótimo livro "As crianças mais inteligentes do mundo" sobre as trajetórias dos sistemas educacionais finlandês, sul coreano e polonês.
A Finlândia estabeleceu como meta ter professores com excelente qualificação. Segundo Ripley, todos os docentes finlandeses se formam entre os 30% com maior desempenho em suas turmas de ensino médio. Isso explica as propagandas alardeando a qualidade dos docentes do país.
E as consequências são enorme respeito pela profissão, remuneração próxima à de outras carreiras de ensino superior e excelente aprendizagem dos alunos.
Há muitas lições dessa história para o Brasil.
Ao contrário do que ocorre na Finlândia, nossos professores não são alvo de grande prestígio nem tem remuneração que possa ser considerada boa, embora os salários tenham melhorado nos últimos anos.
Isso faz com que a carreira seja pouco atrativa para os estudantes de melhor desempenho na escola e cria uma espécie de círculo vicioso que afeta, negativamente, a aprendizagem.
Uma análise feita pelo economista Geraldo Andrade da Silva Filho para o Inep (instituto ligado ao Ministério da Educação) mostra que, em 2013, 45% dos ingressantes em cursos de Pedagogia no Brasil vinham do grupo de alunos com as notas 25% mais baixas no Enem. E apenas ínfimos 0,5% eram oriundos dos 10% com melhor desempenho no exame.
Uma tendência interessante apontada pelo especialista é que, nos municípios afetados pela lei de 2008 que estabeleceu um piso salarial nacional para professores em início de carreira, há indícios de que a qualidade dos alunos novatos em Pedagogia melhorou, entre 2010 e 2013.
A fatia de ingressantes com as piores notas caiu, embora a minúscula parcela dos estudantes com excelente desempenho no Enem não tenha se alterado.
É importante persistir no caminho da valorização dos professores para que a busca pela profissão por alunos mais qualificados dê saltos significativos.
Mas, para atrair bons estudantes, também é necessário tornar os cursos de Pedagogia e Licenciatura mais interessantes e práticos.
Na Finlândia, a formação dos aspirantes a professores inclui um ano (de um total de seis) de treinamento em sala de aula.
No Brasil, sabe-se que os cursos destinados aos futuros docentes são excessivamente teóricos. Segundo levantamento da pesquisadora Bernadete Gatti, somente 7,5% das disciplinas dos cursos presenciais de Pedagogia são destinadas ao conteúdo do que será ensinado em sala de aula.
Além da valorização da carreira e da reformulação de currículos, é preciso ainda monitorar com atenção redobrada a qualidade dos cursos destinados à formação de professores, principalmente com a forte expansão das matriculas em modalidades de ensino à distância nessa área nos últimos anos.
São tarefas árduas –mais ainda em tempos de recessão e cortes de gastos públicos–, porém urgentes. 

7 de novembro de 2016


Antonio Gois: O xadrez das ocupações

POR ANTÔNIO GOIS
Ao enviar sua proposta de reforma do ensino médio via medida provisória, o MEC assumiu um alto risco. Num ambiente tão polarizado, era previsível que a reação por parte dos grupos que discordam da MP e fazem oposição ao governo levaria a reações como a ocupação de escolas. O ministério e os governadores aliados de Temer apostam no desgaste do movimento, ainda mais depois que o próprio MEC adiou a realização do Enem em colégios ocupados. Mas o gesto pode também ter efeito oposto, caso as ocupações aumentem após o exame.
Como sempre, qualquer movimento mais agressivo de um lado ou de outro pode inflamar ou matar a mobilização. Reagir às ocupações com truculência policial ou mesmo autorizar, como fez um juiz de Brasília, uso de técnicas que se assemelham à tortura para forçar a desocupação são atos que repetem o script de junho de 2013, quando a polícia paulista fez um favor à causa dos manifestantes e incentivou uma multidão a ir às ruas em todo o país. Mas também de junho de 2013 há a lembrança do quanto pode ser autodestrutiva para qualquer movimento social a ação de Blackblocs e afins.
Ocupar reitorias é uma tática já bastante conhecida do movimento estudantil universitário. No caso dos secundaristas, porém, o movimento, inspirado no Chile, surpreendeu por sua escala e organização quando o governo de São Paulo tentou impor no ano passado, de forma desastrosa, uma política de reorganização de escolas, prevendo inclusive o fechamento de algumas delas. Achar que era possível fazer uma mudança tão estrutural no sistema sem ouvir os estudantes foi uma atitude típica de quem ainda guarda na memória um modelo de ensino em que aos alunos cabe apenas o papel de ouvintes. O governo paulista teve que recuar, o secretário de educação caiu, e os estudantes saíram vitoriosos pouco mais de um mês após terem iniciado o movimento.   
No caso das ocupações atuais, porém, por enquanto nada indica que os estudantes secundaristas vão conseguir derrubar seus dois alvos principais: a MP do ensino médio e a PEC que limita gastos públicos. O movimento terá que dar mostras de que consegue evitar o desgaste de uma mobilização mais longa. Não é uma tarefa fácil. Basta lembrar dos resultados de greves de professores que se arrastaram por muito tempo recentemente, caso, por exemplo, da paralisação na rede estadual do Rio.
Um sinal de trégua poderia ter aparecido na semana passada, se prosperassem as negociações no Congresso para que o MEC retirasse de tramitação sua MP, e voltasse a debater a reforma do ensino médio vai projeto de lei, um instrumento mais lento, mas sem dúvida muito mais democrático e compatível com uma mudança tão estrutural na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Mas nada avançou.
O MEC, ao criticar as ocupações, argumenta que está defendendo o direito dos alunos que estão perdendo aulas ou provas. Os jovens secundaristas que ocupam as escolas também argumentam lutar por uma educação pública de qualidade, em favor de milhões de estudantes de escolas públicas. Certo apenas é que esses últimos serão, como sempre, os maiores prejudicados se não houver mais diálogo e o impasse persistir por muito tempo.

6 de novembro de 2016

Truque sujo no Enem


RICARDO SEMLER

Há pais cegos, mas por quererem. Passei horas estudando o ranking do Enem. Descobri o que não está na superfície: para uma escola ir bem, basta participar de uma farsa.
A número 1 no ranking, uma pequena filial do Objetivo, com sufixo qualquer, participou com 41 alunos! Ora, se pegarmos a escola real deles, que fica no mesmo famoso endereço da av. Paulista, com 280 alunos participantes, a classificação cai para o 547º lugar.
Não é diferente com a plataforma Eleva, que se gaba de ter nas suas unidades do Rio, Pensi, 4 das 15 escolas mais bem avaliadas. Lá a estratégia é mais discreta: fazer turmas mínimas com alto grau de filtragem.
Depois, é só usar essa elite para fazer de conta que o resto é tão bom quanto. O investidor da plataforma, Jorge Paulo Lemann, um cidadão honesto e vencedor, não se deu conta do que estão fazendo em seu nome.
Não é irregular, nem fora das regras do Enem, mas é um engodo perante os pais. Há que se perguntar: a quem interessa? Por que o Inep não força a fusão das notas dessas escolas, que já seguem o modelo "cursinho asiático trucidante"?
Causa espanto que as escolas públicas se deem mal nesse sistema de decoreba? Ora, o famoso Objetivo, em 547º lugar, não é muito diferente da maioria das escolas públicas -isso sim é fascinante.
Qualquer escola é capaz de filtrar alunos vencedores de olimpíadas matemáticas, sob o comando de professores sargentos de prova.
Interessante observar que os empresários estão mandando cada vez mais na educação. Os do ramo e, nos últimos dez anos, também os de fora do ramo. Uma coleção de entidades empresariais, cada qual com sua vaidade pessoal, tem "ensinado" que a boa educação depende de boa gestão.
Isso, contudo, é uma balela. Depende de mudanças conceituais na metodologia obsoleta.
Aliás, depois de uma década investindo pesado no teste Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), o Brasil passou de 56º para 58º no ranking mundial, entre 65 países.
Não que o Pisa seja isento da mesma fraude. É só olhar a progressão: no começo, tinha Finlândia lá em cima, como também Suécia, Suíça e Holanda. No último ranking, só dá ditadura.
Dois terços dos primeiros dez lugares são tomados por países em que não há liberdade para o aluno, seja para escolher ou ser feliz. As nações asiáticas dominam o ranking, e o massacre dos jovens é imperioso.
Muitos alunos da Coreia do Sul, por exemplo, têm um turno triplo: oito horas de escola seguidas de cursinho por quatro horas. E depois, lição de casa. O canal britânico BBC mostrou que muitos dormem às 2h e acordam às 6h30, para recomeçar tudo.
É com esses países que o Brasil oficial, fomentado por empresários, quer concorrer no ranking.
A escola, não só no Brasil, está presa numa pantomima que parece interessar a todos. O conteúdo que cai nas provas é reduzido, não chega a 1% do que o Google possui sobre aquele assunto. Dessa amostragem mínima, eivada de bobagens (fórmulas matemáticas de segundo grau e decorebas de química ou biologia), submetem-se os alunos a enfadonhas sessões de releitura de apostilas obsoletas.
Professores fazem de conta que ensinaram. Alunos fazem cara de que aprenderam. Pais e sociedade babam em rankings do Enem.
Até no Enade, que avalia as universidades, existem ardis -alunos são mantidos em recuperação e outros avançam antes da hora para melhorar a pontuação geral.
Quantos alunos já não foram incentivados a não fazerem as provas? Quantos testes de recuperação não foram marcados para a mesma hora dos exames oficiais?
A reforma do ensino médio segue a mesma toada. Reconhecendo-se o fracasso, faz-se apenas uma redução de disciplinas. Pensando bem, elas nem deveriam existir num mundo em que só interessa saber questionar -e procurar no Google.
Afinal, queremos formar cidadãos livres e pensantes ou seguir o Enem e o Pisa no embate dos conteúdos e rankings embrutecedores?
Olho vivo, meus caros pais. Vocês também participam dessa tramoia.
RICARDO SEMLER, empresário, é sócio da Semco Partners e fundador do Instituto Lumiar, que administra as escolas Lumiar. Foi professor visitante da Harvard Law School

Bernardete Gatti: "Nossas faculdades não sabem formar professores"


A professora Bernardete Gatti, de 74 anos, interessou-se por formação de professores na década de 1960, quando ninguém no país falava no assunto. Saiu pelo mundo em busca do conhecimento que ainda não existia aqui. Fez seu doutorado na Universidade de Paris, seguiu para o Canadá, para um pós-doutorado na Universidade de Montreal, e para os Estados Unidos, para outro pós-doutorado na área, desta vez na Universidade da Pensilvânia. Deu aulas de psicologia da educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Hoje, coordena as pesquisas da Fundação Carlos Chagas. Defende, sobretudo, que nenhuma formação de professores pode ser eficaz sem ênfase nas práticas de como ensinar – algo que não ocorre nas faculdades. Bernardete é a favor da criação de um exame nacional para professores, do aumento de salário, como peça-chave para mudar o perfil dos candidatos à profissão, e de avaliações constantes de professores, atreladas à remuneração.

ÉPOCA – O que falta na formação para professor?
Bernardete Gatti – 
O problema da formação de professores começa na faculdade. Os docentes de pedagogia e das licenciaturas – de matemática, língua portuguesa, biologia etc. – não sabem ensinar para quem dará aula. Isso porque eles mesmos não aprenderam como fazer isso. Para não dizer que a formação didática não existe, podemos dizer que ela é precária. A maioria dos futuros professores não aprende como lecionar. Não recebem na faculdade as ferramentas que possibilitarão que eles planejem da melhor forma possível como ensinar ciências, matemática, física, química e mesmo como alfabetizar. Muitos de nossos professores saem da faculdade sem saber alfabetizar crianças. É um problema grave.
ÉPOCA – Muito já se discutiu sobre como melhorar essa formação. Por que esses cursos não mudam?
Bernardete – 
A gente constata em entrevistas e em pesquisas com docentes das faculdades que eles não têm a noção de que estão formando um profissional da Educação, que vai para a sala de aula lidar com crianças e adolescentes. Eles trabalham para formar intelectuais e pesquisadores. Até certo ponto isso é importante. Mas essa é apenas parte da formação. É preciso focar também na prática social nas escolas. Dizer para os acadêmicos que eles têm de formar professores para a sala de aula chega a escandalizá-los. Muitos encaram essa questão como algo menor. Essa mentalidade vem de longe, lá dos séculos XVI, XVII. E até hoje prevalece. 
ÉPOCA – Quais são os exemplos que podem nos inspirar?
Bernardete –
 Há iniciativas bastante interessantes na Austrália, em alguns locais nos Estados Unidos, na França, na Bélgica e na Itália. Essas iniciativas têm em comum o fato de preservar a vivência em sala de aula do professor universitário. Aquele docente que formará o professor trabalha em pesquisa, dá aula na universidade, mas não perde o vínculo com o que ocorre na educação básica. Isso é importante porque, à medida que as coisas mudam – e tudo muda sempre –, o conhecimento muda e as relações educacionais também. As novas gerações trazem culturas diversificadas. Quem formará os professores tem de frequentar a educação básica para acompanhar esse movimento e manter-se em sintonia com as vivências escolares.
ÉPOCA – Os cursos de pedagogia e de licenciatura proliferam nas instituições de ensino superior. Os problemas mudam de acordo com o tipo de faculdade?
Bernardete –
 A maioria dos professores hoje é formada por instituições de natureza privada (80% deles). Em muitas delas, os cursos são encurtados  e, de certa maneira, aligeirados. Esse encurtamento não é permitido por lei. Ele ocorre porque as aulas podem ser substituídas por seminários culturais e atividades programadas. O problema é que esses eventos não são desenvolvidos a contento. Grande parte da formação é feita à distância. O aluno que passa por esse tipo de faculdade sai com precárias condições de entrar numa sala de aula. É despreparado, especialmente, para trabalhar com alfabetização. Por isso, vemos esses resultados de alfabetização problemáticos no país (13 milhões de pessoas não sabem ler e escrever. Uma em cada cinco crianças de 8 anos não lê).
ÉPOCA – Um professor precisa passar por um estágio obrigatório de 400 horas. Esse período é suficiente para dar a experiência de sala de que os professores precisam?
Bernardete –
 A questão principal é que essas 400 horas não são cumpridas como deveriam. A pesquisa de campo mostra continuamente que esses estágios são feitos a toque de caixa. Não há controle algum se as horas foram cumpridas, se o estudante estagiou mesmo ou se simplesmente a declaração de que ele estagiou foi assinada por alguma instituição que nunca o teve em sala de aula. As faculdades não providenciam convênios com escolas ou redes para fazer um projeto de trabalho dos estagiários junto aos professores da rede. Um complicador é que  60% dos cursos de pedagogia são feitos à distância. Nesse modelo, o estudante perde muito da relação com as crianças. Sem um programa de estágio estruturado, esse déficit na formação só aumenta.
ÉPOCA – Em carreiras como Direito e medicina, o aluno que conclui a faculdade tem de fazer um teste rigoroso que mostre que ele aprendeu o que precisa. Isso poderia ser aplicado também aos candidatos a professor?
Bernardete –
 Seria factível tanto para a pedagogia quanto para as licenciaturas ter um exame nacional para professores. Isso foi ensaiado na fase em que Fernando Haddad foi ministro da Educação (2005 a 2012), tanto que os pressupostos de um exame dessa natureza estão prontos lá no Inep (órgão do governo responsável pelas avaliações de Educação do país). Mas não foi adiante porque há muita resistência e interferência política em relação a isso. Não sei se essa seria uma solução. Mas um exame nacional como o da OAB seria  um indicador do nível de formação de nossos professores.
"Um exame nacional para professores como o da OAB seria um indicador do nível de formação de nossos profissionais
ÉPOCA – É possível sanar o déficit de formação que os milhares de professores em serviço carregam?
Bernardete –
 Com esforço muito grande. Os alunos saem da faculdade para a sala de aula com uma formação tão precária que os esforços de especialização são punidos. O problema é que temos uma distorção. Como as faculdades são muito ruins, o que deveria ser uma especialização vira uma formação básica dada quando o professor já tem alunos em sala. A formação continuada deveria ser um aprimoramento, uma forma de enriquecer as aulas que ele já deveria saber conduzir. Isso não acontece. Então, bancamos cursos para formar alfabetizadores, cursos para dar iniciação em matemática, cursos para professores de ciências. Estados e municípios não têm condições de programar e de controlar o que é feito nessas formações continuadas, e os resultados educacionais continuam sendo bastante precários apesar de todo o dinheiro investido – que não é pouco.
ÉPOCA – O que tornaria essa carreira mais atraente?
Bernardete – 
Olha, muita gente já disse que maior remuneração não faz tanta diferença, mas eu sou contra. Para mim, remuneração é chave. Aumentar os salários é fundamental para valorizar a profissão, para trazer gente mais bem preparada para a sala de aula e para fazer os que já estão nela correr atrás de melhorar. Ninguém escolhe uma carreira só por ideologia. Você olha o que será seu futuro profissional. E a carreira do professor, em geral, não delineia um futuro muito bom. Ela cria uma armadilha. Para o professor avançar em termos de salário, ele é obrigado a deixar de ser professor para ser coordenador ou ser diretor. Tem de abandonar a sala. Isso ocorre justamente quando ele já tem experiência em dar aula. Acho que a carreira tem de dar incentivos para que ele se mantenha na sala. 
ÉPOCA – Qual sua opinião sobre a estabilidade? Ela compromete a qualidade?
Bernardete –
 Essa é uma discussão complexa. A vantagem da estabilidade é que se pode investir bastante no professor porque ele ficará na rede. Ela prejudica o desenvolvimento do profissional porque pode gerar muita acomodação. Agora, repito, num país como o nosso, a estabilidade é uma questão complexa, que tem de ser discutida em profundidade. Não dá para dizer: “Sou contra ou sou a favor e pronto”. Uma ação eficaz para garantir a estabilidade sem comprometer a qualidade é acompanhar com rigor o estágio probatório de três anos (até então o professor não tem estabilidade) e estabelecer pontos de passagem na carreira atrelados a aperfeiçoamento, aumento de qualidade da aula e remuneração.