Folha de S.Paulo,15/6/2012
Os dois países precisam de fontes de crescimento, que só podem vir de um setor privado capaz de competir
Economicamente, a Espanha; politicamente, a Itália. Mas, porque as asperezas da política prejudicam a economia e a economia em crise sempre envenena a política, é possível que a resposta se inverta.
De qualquer forma, o importante é que ambas as nações estão mal e que sua situação está se deteriorando. Agora a emergência é o resgate aos bancos espanhóis, mas pouco tempo atrás era a possibilidade real de que a Itália perdesse acesso à captação internacional, ameaça que alarmara a Espanha antes.
Anteriormente, ainda tivemos a crise política de Berlusconi, que paralisou a tomada de decisões. E assim vão saltando as emergências de um país para o outro, provocando sobressaltos que transformam estabilidade e previsibilidade em lembranças distantes.
É prudente supor que as emergências e surpresas continuarão enquanto não aparecer um padrão de política econômica que seja socialmente tolerável, financeiramente confiável e sustentável ao longo do tempo, para toda a Europa.
Mas o certo é que quem acaba de entrar na unidade de terapia intensiva do hospital financeiro é a Espanha. Os males de que sofre o paciente resultam de 15 anos de maus hábitos e de sua renúncia a mudar de estilo de vida econômico.
Como sabemos, nada melhor que sobreviver a um infarto para deixar de fumar e fazer mais exercício. Pena que o paciente não tenha começado anos mais cedo.
A Espanha agiu tarde, a contragosto e parcialmente, mas pelo menos começou a abandonar os maus hábitos, como por exemplo ocultar do público as más carteiras que os bancos acumularam por mais de uma década, sob o comando de políticos disfarçados em banqueiros.
Agora, a prioridade é sobreviver ao infarto e garantir que suas sequelas sejam mínimas. Também sabemos como é importante evitar que novas doenças sejam contraídas pelo paciente no hospital financeiro.
Como acontece nos hospitais reais, os prontos-socorros financeiros estão repletos de vírus e são comuns neles as práticas que, em lugar de curar, debilitam mais o paciente.
Mas nada disso bastará para curar o enfermo. Para devolver-lhe a estabilidade em longo prazo e colocá-lo no caminho da prosperidade, será necessário realizar mudanças profundas. A verdadeira crise europeia não é fiscal ou financeira. É a perda de competitividade. Uri Dadush, do Carnegie Endowment, calculou que entre 1997 e 2007 a taxa de câmbio real se valorizou em 11% na Espanha e em 9% na Itália.
Enquanto isso, na Alemanha, a taxa de câmbio passou por desvalorização de 14% (ou seja, as exportações do país se tornaram mais baratas nessa proporção). Com isso, as exportações espanholas caíram em 3,4% do Produto Interno Bruto (PIB) e as da Itália em 1% do PIB, enquanto as da Alemanha cresciam em extraordinários 20%.
Espanha e Itália precisam buscar novas fontes de crescimento. E estas só podem vir de um setor privado mais capaz de competir.
É isso, e não austeridade fiscal ou acrobacias financeiras, que impedirá o retorno periódico do paciente à unidade de terapia intensiva.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
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