16 de novembro de 2017

Estudar também é coisa de preto

Pesquisas mostram que pretos e partos estão em desvantagem. Saiba como acabar com essa injustiça

Salvar
Por: Paula Peres
O racismo da sociedade também é refletido na escola, segundo William (Tomás Arthuzzi)
Aos 28 anos, William Victorino de Castro é dançarino e morador do Capão Redondo, bairro na periferia da Zona Sul de São Paulo. Como toda pessoa negra, ele tem na ponta da língua os efeitos do racismo: “Em uma entrevista de emprego, se os candidatos são um branco e um preto, do mesmo lugar, com a mesma formação, o branco tem mais chance”.
Na 4ª série, William não sabia ler nem escrever. Repetiu de ano quatro vezes e desinteressou-se pela escola até abandoná-la, na 8ª série, aos 18 anos. Ainda sem saber ler. “Me diziam que se era para ficar bagunçando na escola, que eu fosse embora e desse a oportunidade para outra pessoa que aproveitaria melhor”, conta. Já adulto, o bailarino de hip-hop percebeu que precisava voltar a estudar. Matriculou-se na EJA em 2015, quando finalmente aprendeu a ler e escrever.
O caso do jovem é um exemplo de como o racismo está presente na escola: falhamos em matricular crianças negras, em garantir que elas permaneçam e, quando elas não largam os estudos, falhamos em fazer com que elas aprendam. Dados levantados pelo movimento Todos pela Educação com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2015 mostram que, apesar de 54% da população se declarar preta ou parda (os dois grupos formam, para as estatísticas, o conjunto dos negros), a proporção de pessoas brancas matriculadas em todos os segmentos é sempre maior. Além disso, dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2015 também mostram diferença na aprendizagem: no 5º ano do Ensino Fundamental, enquanto 63,1% das crianças brancas tiveram aprendizado adequado em Língua Portuguesa, 56,3% dos pretos tiveram o mesmo desempenho e 41,5% dos pretos aprenderam o que tinham direito (veja mais informações no quadro da página 14).
A diferença pode ser explicada por diversos motivos, como o fato de que a população negra, em geral, é mais pobre. Mas não há como negar que há algo na rotina escolar que também contribui para a construção desses índices.
Um estudo conduzido por Paula Louzano, professora da Faculdade de Educação da USP, mostra que o fracasso escolar é maior entre alunos negros. Um exemplo é que 14% dos jovens negros apresentam mais de dois anos de atraso escolar, o dobro da proporção entre brancos (7%). “Podemos argumentar que o processo de escolarização de algumas crianças brasileiras é mais tortuoso que o de outras”, conclui a especialista.
A cor na escola
EDUCAÇÃO INFANTIL 91,6% das crianças brancas de 4 e 5 anos são atendidas, enquanto 89,8% das pardas e 87,3% das pretas frequentam a escola.
ENSINO MÉDIO 71% dos brancos frequentam, mas 57,8% dos pardos e 56,8% dos pretos são matriculados.
PORTUGUÊS 37,5% dos brancos e cerca de 22% dos negros têm aprendizado adequado no 3º do Ensino Médio.
MATEMÁTICA 12,2% dos brancos terminam a escola com aprendizagem adequada. Entre os negros, são 5% no máximo.
MATRÍCULAS NA EJA 36% são negros, somente 15% são brancos e 43% não declaram cor.
ESCOLARIDADE MÉDIA dos negros de 18 a 29 anos: 9,5 anos. Entre os brancos: 10,8 anos.
Faça um exercício e tente observar, na sua escola: nas turmas de reforço e recuperação, quantos alunos são negros? No conselho de classe, alunos brancos são avaliados da mesma maneira que os que possuem a pele mais escura?
Chegar à universidade, se formar, conquistar bons empregos, se tornar chefe ou simplesmente sobreviver: muito disso é um grande desafio para a maioria dos brasileiros, mas para os alunos negros é ainda maior. Os dados mostram que as barreiras enfrentadas por mulheres e homens se tornam cada vez mais difíceis conforme a cor da pele escurece. Essas informações têm se tornado mais conhecidas recentemente, mas o que ainda parece difícil de enxergar são os obstáculos que nós mesmos criamos para que as trajetórias desses estudantes sejam histórias de sucesso.
Racismo estrutural
Desde o início do século 20 se difundiu a ideia de que o Brasil vivia em uma democracia racial. Diferentemente dos Estados Unidos e de outros lugares onde o conflito marcava as relações entre grupos de diferentes descendências, no Brasil o convívio supostamente harmônico entre portugueses, negros e índios era a prova de que não haveria racismo por aqui. Parte dessa comparação surgia do fato de que nos Estados Unidos haviam leis, por exemplo, que obrigavam negros a sentar só na parte de trás dos ônibus. Bastou dar ouvido aos negros brasileiros para notar que a nossa democracia racial nunca foi verdade.
Para Mirian, as pessoas se incomodam com negros em cargos de liderança (Tomás Arthuzzi)
De obras surgidas no pós-abolição, como as de Lima Barreto (1881-1922), a músicas de grupos de rap como Racionais Mc’s, é possível ver como a cor da pele é um central nas histórias pessoais. “O Brasil foi forjado na violência contra negros e indígenas. Há um estado organizado a partir do racismo”, explica Maria Lucia da Silva, psicóloga do Instituto AMMA Psiquê e Negritude.
Aqui, cabe diferenciar preconceito e racismo. O primeiro se refere a um julgamento feito com base em alguma informação superficial que se tem sobre alguém, como ao dizer que todo negro é preguiçoso ou malandro. Mas o racismo é mais profundo: as estruturas que compõem a sociedade passam a se organizar de maneira a colocar negros em desvantagem. Daí vem o termo racismo estrutural ou institucional.
A gestora invisível
A década é 1970. Na sala de aula da antiga primeira série de uma escola pública, uma criança percebe que nunca é chamada por sua professora para ir ao quadro ou receber algum auxílio para resolver um exercício. Ela era a única negra da turma. “Eu não sabia, mas estava passando pelas primeiras experiências de racismo da minha vida”, conta Mirian Bernardo, hoje supervisora pedagógica do Colégio Municipal Dr. José Vargas de Souza, em Poços de Caldas, Minas Gerais.
Esse é um exemplo de como a convivência dos professores com os alunos impacta os jovens negros. Um estudo conduzido pelo professor da USP Ricardo Madeira comprova: ao comparar estudantes brancos e negros em mesmas condições – da mesma turma, de mesmo nível socioeconômico, com histórico escolar semelhante –, havia uma diferença fundamental entre os dois grupos. Alunos negros eram muito pior avaliados pelos próprios professores do que brancos (assista a entrevista). A sensação de discriminação sentida por William, o dançarino do início da reportagem, não é apenas impressão.
Para Valter Silverio, professor do departamento de Sociologia da UFSCar, pelo menos parte desse resultado é influenciado pelos estereótipos que pairam sobre sobre alunos negros. “Tem-se a ideia de que todo japonês é bom aluno, e de que todo negro não é inteligente, e sim malandro”, afirma. Essas visões preconceituosas interferem nas expectativas que os docentes têm sobre os alunos de pele mais escura. Por consequência, eles são tratados de maneira diferente e acabam aprendendo menos. “Em ambientes de estudo e trabalho, há uma relação profunda entre racismo e práticas cotidianas”, diz Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco.
Mirian aprendeu a impor sua presença onde chega para evitar questionamentos. “Nós temos que mostrar que merecemos estar ali, não temos que dar explicações a ninguém.”
Ainda assim, Mirian sente o racismo das famílias e dos alunos. “Tenho duas professoras negras em uma escola com 52 turmas. Se eu não apresento a docente, percebo que a família discrimina”, lamenta. Mirian sofre algo parecido em sua função. “Já teve gente que não acreditou que eu era a gestora de uma escola mesmo quando eu afirmava mais de uma vez.
Vestibular como militância
Foi difícil encontrar um espaço na agenda da vestibulanda Lilith Passos, 17 anos, para fazermos a sessão de fotos para este texto. Pela manhã, ela frequenta as aulas do 3º ano do Ensino Médio de uma escola pública em São Paulo. À tarde, assiste aulas de cursinho pré-vestibular popular e, aos sábados, participa de um preparatório específico para alunos que, como ela, querem estudar teatro no Ensino Superior. Naquela terça-feira, suas aulas da manhã tinham sido canceladas. Mesmo assim, tivemos pouco tempo.
Para Lilith, 17 anos, estudar para entrar na universidade pública também é militância (Tomás Arthuzzi)
O compromisso da tarde pertencia a outra parte importante da vida da jovem: a militância no movimento negro. Dias antes, um colega havia sido agredido por seguranças de um restaurante e um grupo de jovens retornaria ao local para fazer um protesto em frente ao empreendimento.
No último ano, as atividades da militância têm ficado um pouco de lado na rotina de Lilith. É que a pressão do vestibular demanda mais dedicação. E, para ela, ser aprovada tem tudo a ver com o combate ao racismo. “Penso muito sobre quem tem acesso às universidades públicas”, diz ela, se referindo à baixa presença de pessoas pretas e pardas no ambiente. “Ocupar esse espaço também é a minha luta”, diz ela.
Acredite muito
NA EDUCAÇÃO INFANTIL, observe o nível de atenção que você oferece a seus alunos brancos e negros.
OUÇA seus estudantes e professores pretos e pardos para saber como a relação com a escola pode melhorar.
INCENTIVE seus alunos negros a compartilhar conhecimentos com a turma e liderar projetos e atividades em grupo.
CONVERSE sobre carreira, sonhos e planos com os alunos. O que querem fazer quando acabar a Educação Básica?
MUDE O CURRÍCULO para inserir contribuições da cultura afro-brasileira para a sociedade.
MOSTRE EXEMPLOS de pretos e pardos bem-sucedidos em suas áreas de conhecimento.
A motivação de Lilith para conquistar esse espaço é um grande diferencial para que ela de fato tenha chance de ser aprovada no vestibular. Mas isso só é possível por dois motivos: a crença que ela própria tem em sua capacidade – a tão falada autoestima, mas dessa vez não restrita a características físicas – e o apoio de adultos e colegas que também acreditam no potencial dela.
A situação, como vimos, não é a mesma para a maioria dos estudantes. Para superar esse problema, é preciso trazer o racismo para o centro do debate. Na Zona Norte do Rio de Janeiro, no bairro do Acari, uma escola com nome de rainha angolana desenvolveu um projeto para promover a cultura afro-brasileira e também ajudar os alunos a refletir sobre a própria identidade deles.
Isa (à esquerda) e Tânia (à direita) se mobilizaram para recuperar a autoestima dos alunos negros (Tomás Arthuzzi)
O CIEP 173 Rainha Nzinga de Angola tem 678 alunos, dos quais 360 são negros. “Eles não se reconheciam negros no censo que realizamos anualmente, diziam ser morenos”, conta Tânia de Lacerda Gabriel, diretora. Os alunos associavam a identificação negra com algo ruim. Piadas e apelidos sobre cor eram frequentes e quando questionados sobre o porquê de não realizarem o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), eles justificavam: “Essa prova é coisa de branco”.
Tânia e a coordenadora pedagógica Isa Mirian da Silva Santos elaboraram um projeto que mexeu com o currículo e com as relações na escola. Os professores receberam formação para abordar conteúdos afro-brasileiros e lidar com o racismo. “O objetivo era que todos entendessem que ser negro não é uma coisa ruim. Eles chegavam a achar que brancos e negros aprendiam de maneiras diferentes, e mostramos que, biologicamente, não há diferenças.” Debates francos como esse ofereceram uma nova visão aos estudantes.
Dois anos depois, os resultados. A autoestima dos alunos melhorou, muitos assumiram seus cabelos naturais, e o censo realizado anualmente já mostra que os alunos têm mais segurança para indicar sua cor. “Elevar a autoestima é a questão primordial. Hoje, percebemos que eles têm orgulho de ser negros e isso aumentou o interesse pela escola”, resume Tânia.
Em sala, o tratamento diário também tem efeito: incentivá-los a prestar o Enem ou na formulação de um projeto de vida, cobrar que se esforcem e garantir todo o apoio para que avancem nas suas aprendizagens faz toda a diferença. No fim das contas, o trabalho dos educadores é uma força poderosa contra o racismo. 

10 de novembro de 2017

É possível melhorar a qualidade da educação no Brasil


claudia costin
É professora da FGV e professora-visitante de Harvard. Foi diretora de Educação do Bird, secretária de Educação do Rio e ministra da Administração. Escreve às sextas-feiras.

Eduardo Anizelli - 5.nov.2015/Folhapress
SOBRAL, CE, BRASIL, 05-11-2015: OBQDC - BRASIL QUE DA CERTO. Alunos na escola E.I.E.F. Elpidio Ribeiro da Silva, que tem noda 9 no IDEB. Os resultados da cidade de Sobral no interior do Ceara sao impressionantes. Entre todas as escolas do Brasil que atendem alunos pobres e possuem mais de 90 alunos, as 11 melhores estao na cidade (considerando as notas do Ideb 2013, no 5º ano do fundamental). Tambem ha destaques quando analisadas as notas dos alunos do fim do ensino fundamental (9º ano). (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress, ESPECIAL) ***EXCLUSIVO***
Escola pública em Sobral (CE)
Saio do Ceará animada, depois de rápida visita para fazer uma palestra em um simpósio de desenvolvimento infantil. Apesar de ter acompanhado ao longo dos anos os avanços da educação no Estado, uma conversa com o secretário de Educação fez-me entender ainda mais os desafios persistentes e o sucesso das escolas do Ceará.
Vivemos tempos difíceis no Brasil, com uma crise multifacetada e particularmente difícil de ser enfrentada. Trata-se de uma crise fiscal, econômica, política, institucional e de credibilidade, o que torna reduzida a possibilidade de sustentabilidade de boas políticas públicas.
E é aí que os resultados educacionais do Estado surpreendem. Não que sejam os melhores do país, mas consistentemente, a cada edição da Prova Brasil, a aprendizagem melhora, resultando numa nota padronizada de 6,0 para o 5º ano e 5,9 no 9º, tendo apresentado o melhor Ideb do Nordeste.
O resultado no ensino médio, no entanto, apresenta os mesmos desafios do resto do Brasil. Num patamar muito baixo, apresenta progressos lentos. Mas isso resulta de uma decisão de política pública de enfatizar o regime de colaboração e apoiar os municípios num esforço para garantir que toda a criança de 7 anos esteja alfabetizada, a partir do Paic, o Pacto pela Alfabetização na Idade Certa, que depois inspirou o Brasil no desenho de programa semelhante, ainda sem resultados expressivos.
Mas, no Estado, chama a atenção o impacto das medidas: 77 das 100 melhores escolas públicas do Brasil estão no Ceará. Todos os municípios atingiram as metas de melhoria estabelecidas pelo MEC para 2015 e a cidade de Sobral apresentou o melhor Ideb do país, com 8,8.
Desde então, o Estado vem atuando com mais força no ensino médio, ampliando o número de escolas em tempo integral, trabalhando com o desenvolvimento de competências socioemocionais e investindo em seus professores, inclusive com tempo para trabalho colaborativo dentro de cada escola. Além disso, ampliou o pacto com os municípios tanto para o ensino fundamental 2, com intensa formação de professores, quanto para a educação infantil, incluindo não apenas um currículo para educação na primeira infância como visitadores domiciliares para estimular melhores interações entre os pais e os bebês e apoio à leitura de livros para a faixa etária.
O secretário tem uma sala de situação onde monitora sistematicamente a aprendizagem em todas as escolas.
Ainda há muito o que fazer, mas o exemplo do Ceará mostra que, sim, mesmo em Estados de menor nível socioeconômico, com problemas como crime e vulnerabilidade, é possível avançar e garantir o direito de aprender de todos. O Brasil merece! 


9 de novembro de 2017

Base curricular pode ser revista e colocar em xeque plano de Temer



Raquel Cunha - 31.mar.2016/Folhapress
Alunos em escola estadual na região da Barra Funda zona oeste de São Paulo
Alunos em escola estadual na região da Barra Funda zona oeste de São Paulo
Reivindicações de amplas mudanças na Base Nacional Comum Curricular podem exigir uma extensa revisão no texto atual do documento. Essa possibilidade não estava no plano do MEC (Ministério da Educação).
O CNE (Conselho Nacional de Educação) divulgou na noite de terça-feira (7) uma lista de 234 documentos com críticas e propostas ao texto.
Uma terceira versão da base -que é considerada pelo governo federal como a definitiva- está desde abril em discussão no conselho, que realizou uma série de audiências públicas e esteve aberto a colaborações.
A maioria dos textos foi recebida durante as audiências. Também há o registro de 283 manifestações orais.
A base vai prever o que escolas públicas e privadas devem ensinar a cada ano da educação básica (da creche ao ensino médio). A norma vai orientar escolas na elaboração de currículos e a produção de livros didáticos.
Após o MEC apresentar uma primeira versão da base, em setembro de 2015, houve uma consulta pública na internet. O MEC sistematizou as indicações e recebeu críticas de especialistas para construir a segunda e terceira versões. Desta última, foi retirada e adiada a parte do ensino médio.
Sob o governo Michel Temer, o MEC tem mantido um discurso de que a análise no âmbito do CNE deve ser limitada, e que cabe ao órgão emitir um parecer e uma resolução para implementação.
Mas os textos recebidos pelo CNE e a análise de alguns conselheiros apontam falhas e lacunas a serem resolvidas. Nas áreas de língua portuguesa, de tecnologia e ciências, por exemplo, residem críticas consideráveis. "O que se vê é que o documento precisa de modificações. Mas na área de alfabetização as críticas são maiores", diz Antonio Augusto Batista, coordenador de pesquisas do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária).
A organização é uma das que encaminharam propostas. O teor de todos os documentos mostra que mais da metade traz críticas. Cerca de 20% dos arquivos têm como mote a volta de conteúdo de ensino religioso, que foi suprimido na terceira versão.
Já é consenso no CNE a reintegração do ensino religioso, considerando a previsão de uma abordagem sociológica e plural do assunto.
GÊNERO
Outros 8% dos documentos falam da questão de gênero. O MEC retirou da terceira versão, de última hora, menções às expressões "identidade de gênero" e "orientação sexual". O termo aparecia, por exemplo, em capítulo que fala sobre a importância da base para que o país tenha "equidade" no ensino.
Entre os documentos recebidos sobre o tema, há, por exemplo, moções de Câmaras municipais que se limitam a "repudiar" o que chamam de "ideologia de gênero". Entidades educacionais, por sua vez, criticam a ausência.
No documento encaminhado pela Anec (Associação Nacional de Educação Católica do Brasil), a supressão do tema é criticada. "Não entendemos que a base tenha um cunho de 'ideologia de gênero'. Queremos garantir uma educação inclusiva, que prevê também a discussão do gênero", diz Roberta Guedes, gerente da Câmara de Educação Básica da Anec, e que defende alterações consideráveis no documento.
O MEC não respondeu sobre seu posicionamento acerca da discussão de gênero. Argumentou que o objetivo é ter um documento que reflita "necessidades, interesses, diferenças e pluralidade do panorama educacional brasileiro". "O MEC mantém interlocução permanente e produtiva com o CNE", diz em nota, ressaltando que confia na conclusão neste ano.
O presidente da comissão que analisa a base no CNE, Cesar Callegari, diz esperar a incorporação das contribuições. "Não estamos conduzindo um documento interno, mas para a sociedade".
*

Calendário da base curricular

Mudanças propostas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) podem adiar versão final do documento
26.jun.2014
Plano Nacional de Educação é sancionado e prevê que o governo crie a base
Set. a dez.2015
MEC apresenta 1ª versão e abre consulta pública
3.mai.2016
MEC divulga 2ª versão e a envia ao CNE e a Estados e municípios
Ago.2016 a mar.2017
Texto é devolvido ao MEC, que realiza debates
23.set.2016
Temer publica medida provisória que reforma o ensino médio, adiando a conclusão da base para esta etapa de ensino
6.abr.2017
MEC entrega 3ª versão (dos ensinos infantil e fundamental) para o CNE
Jul. a set.2017
CNE realiza audiências públicas em todo o país; cabe ao conselho deliberar sobre versão final e a encaminhar para homologação do MEC
Nov.2017
CNE divulga 234 documentos com propostas de alterações; MEC pretende finalizar processo ainda neste ano, mas mudanças mais profundas podem ser necessárias
-
234 documentos
foram recebidos pelo CNE de instituições ligadas à educação, organizações sociais e religiosas e pessoas físicas
20%
deles falam sobre ensino religioso
8%
deles falam sobre questões de gênero e sexualidade 


8 de novembro de 2017

Educação no Brasil é farta em desrespeito a direitos humanos, Ërica Fraga

Educação no Brasil é farta em desrespeito a direitos humanos

A intenção do governo de anular redações do Enem que afrontassem os direitos humanos - frágil por ser sujeita a contestações sobre a subjetividade da correção e o cerceamento da liberdade de expressão - gerou acalorado debate nas redes sociais e foi parar na corte suprema, que acabou por barra-la.
Já a inquestionável exclusão educacional no país, que limita o exercício pleno da cidadania de milhões de brasileiros, segue amplamente ignorada.
Talvez isso ajude a explicar a surpresa causada pelo tema proposto neste ano para a redação do próprio Enem, que deveria versar sobre os desafios para a formação educacional de surdos.
O país tem como meta universalizar o acesso de portadores de deficiência, transtornos de desenvolvimento e superdotação de 4 a 17 anos ao ensino básico até 2024.
Mas, segundo o movimento Todos pela Educação, nem sequer há dados oficiais que permitam o monitoramento do nosso avanço nessa direção.
Outros aspectos do nosso atraso educacional são bem documentados por estatísticas, embora também pouco presentes no debate público.
Aproximadamente metade da população de 18 anos do país - aquela que deveria estar prestando o Enem - não está matriculada no ensino médio, em curso de formação profissional ou em faculdades.
O percentual brasileiro é o do dobro dos 25% registrados, em média, nos países da OCDE, organização que reúne nações ricas e algumas emergentes e divulga esses dados em um relatório anual.
Se estão fora de cursos compatíveis com sua idade, o que fazem mais da metade dos brasileiros de 18 anos?
Uma parte deles certamente ainda tenta terminar o ensino fundamental (que deveria ser concluído por volta dos 14 anos), outra simplesmente abandonou a escola.
O percentual de adolescentes com atraso educacional no Brasil é uma barreira a qualquer ideal de ampla cidadania. Apenas 62,7% dos jovens de 15 a 17 anos estão matriculados no ensino médio. Entre os brasileiros de 19 anos, somente 58,5% já concluíram a última etapa do ciclo básico.
Os números são calculados pelo Todos pela Educação com base em dados da PNAD, pesquisa domiciliar nacional, de 2015.
No ensino fundamental, o quadro é menos sombrio, mas permanece longe do ideal. Embora 97,7% das crianças de 6 a 14 anos estejam matriculadas nesse ciclo, 24% dos adolescentes de 16 anos ainda não conseguiram concluí-lo.
Esses dados eram muito piores no início dos anos 2000. Mas o ritmo de avanço, diz o Todos pela Educação, é insuficiente para atingir as metas educacionais que deveríamos cumprir nos próximos sete anos.
Há ainda outra discussão sobre o pleno significado de acesso à escola, que não envolve apenas garantir a frequência às aulas.
Educar para conferir cidadania implica oferecer formação de qualidade, quesito no qual o Brasil vive na era das trevas.
Dados divulgados pelo MEC (Ministério da Educação) há duas semanas revelaram que mais da metade das crianças brasileiras de 8 anos tem conhecimento insuficiente em matemática e português.
Nessa idade, começa a se pavimentar o caminho rumo ao analfabetismo funcional que atinge nada menos do que 25% dos jovens brasileiros de 15 a 24 anos, segundo pesquisa do Instituto Paulo Montenegro e da ONG Ação Educativa.
Não faltam evidências de que a educação no Brasil ainda é farta em desrespeito a direitos humanos. O que falta é indignação em relação a isso. 

7 de novembro de 2017

Seu filho e as questões de gênero, uma aula a céu aberto, Vera Iaconelli




Quando movimentos obscurantistas de ultradireita, liderados (não dá para usar encabeçados, pois é justamente a cabeça que falta) por uma figura cuja misoginia e homofobia são notórias, reivindicam que exposições de arte, aulas de história, palestras de filósofos e outras expressões culturais e políticas sejam barradas, a mensagem é clara e horripilante: todos os espaços para o exercício do pensamento seguem sendo ameaçados.
Esses movimentos têm como alvo impedir o diálogo e a reflexão com o intuito de manter privilégios sobre os que são considerados por eles, claro, diferentes. Diferentes de quem? Quem define a norma e o modelo? Em nome do bem de quem? Das nossas criancinhas? Da família brasileira? Pois é dentro da família brasileira que crianças e mulheres têm sido agredidas –e a falta de reflexão é uma das grandes razões para isso. Não pensar não é direito do humano que se dispõe a viver em sociedade.
Em 1963, ao relatar o julgamento de Eichmann em Jerusalém (Cia das Letras, 1999), Hannah Arendt denunciou a banalidade do mal. Trata-se do agir sem reflexão, obedecendo à burocracia mortífera do Estado, que faz com que um sujeito insípido e sem brilho como Eichmann seja capaz de enviar milhões de pessoas inocentes para a câmara de gás, o que o deixa orgulhoso por cumprir sua função, sem questioná-la.
Isso poderia ser interpretado como ato de um monstro nazista, mas Arendt defendia que se tratava de algo muito mais próximo do homem comum que obedece sem crítica. Dessa constatação vem o alerta: sem reflexão a barbárie se instala.
O que diferencia o nu artístico da pedofilia? A arte provoca o pensamento, a reflexão, dialoga com a cultura, educa e transforma. O artista se faz veículo do novo e paga o preço por ocupar este lugar vulnerável, sujeito à exposição e à crítica. A pedofilia, pelo contrário, submete e bloqueia o pensamento, congela a reflexão e impede a crítica.
Moacyr Lopes Junior/Folhapress
Judith Butler, principal nome no estudo das teorias de gênero, durante seminário Queer, em São Paulo
Judith Butler, principal nome no estudo das teorias de gênero, durante seminário Queer, em São Paulo
Da criança na situação de abuso é exigido nada falar, nada questionar– suas reivindicações são silenciadas pela desqualificação de qualquer dúvida e hesitação ou pela simples força. Por sinal, adultos que foram abusados na infância se revelam indignados com a comparação com o nu artístico, porque essa comparação demonstra que continuamos cegos para o problema que eles sofreram e que as crianças ainda sofrem.
Para não terminar este texto com o gosto de bílis na boca, cabe aproveitar o ridículo que nos é ofertado por esses mesmos grupos. Na inacreditável manifestação contra a palestra de Judith Butler, uma das filósofas mais importantes da atualidade que vem falar sobre democracia hoje no Sesc Pompéia, a sugestão dos grupos contra a "ideologia de gênero" (santa ignorância!) exortava os homens a se vestirem de azul e as mulheres de rosa.
Antídoto para essa cretinice? Leve seu filho de qualquer idade à avenida Paulista no domingo. Em menos de 1.000 metros ele terá visto homens, mulheres, travestis, gays, trans, jovens, velhos, crianças, pobres, ricos, muçulmanos, espíritas, evangélicos, judeus, artistas, operários, bancários, negros, brancos, asiáticos...
Enfim, uma manifestação permanente em prol da alteridade. É disso que trata a questão de gênero: democracia. E é sobre isso que Butler vem falar. 


4 de novembro de 2017

Claudia Costín: O novo analfabetismo ou deformando cidadão

claudia costin
É professora da FGV e professora-visitante de Harvard. Foi diretora de Educação do Bird, secretária de Educação do Rio e ministra da Administração. Escreve às sextas-feiras.


Diego Padgurschi - 27.mar.2017/Folhapress
SÃO PAULO, SP, 27.03.2017: ALFABETIZAÇÃO-EDUCAÇÃO - Aluna do 1º Ano do ensino fundamental do colégio Santa Amália usa caderno de português. Escolas começam a alfabetizar as crianças em letra de forma. (Foto: Diego Padgurschi/Folhapress)
Estudante do ensino fundamental faz exercício de alfabetização em escola de São Paulo
O Instituto de Estatísticas da Unesco alerta, em informe recente, que grande parte dos jovens da América Latina não alcança níveis apropriados de proficiência em leitura. São 19 milhões de adolescentes que concluem o ensino fundamental sem conseguir ler parágrafos simples e deles extrair informações, num fenômeno que Silvia Montoya, dirigente do instituto, chama de "nova definição do analfabetismo".
A preocupação da diretora procede, pois a falta de competência leitora fragiliza a cidadania. Afinal, quem não consegue ler jornais ou livros depende do que a televisão lhe recomenda como condutas corretas e não consegue formular seus próprios juízos.
Além disso, em tempos em que o mundo do trabalho extermina postos baseados em tarefas rotineiras, que não demandam capacidade de concepção, as chances de sucesso profissional e de realização pessoal de quem tem letramento insuficiente se tornam muito limitadas.
Estive na semana passada na reunião da Comissão Internacional sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e falou-se muito dos riscos e desafios resultantes da automação, robotização e novas tecnologias e de como a educação deve se preparar para esse cenário. Uma pessoa que não consegue ler um texto curto terá grandes dificuldades de prosseguir seus estudos, encontrar emprego ou empreender.
Li o relatório no voo de volta e vim pensando no Brasil. Aqui, só 30% dos alunos saem do 9º ano com aprendizado adequado em leitura e interpretação, de acordo com dados do Inep. É menos que a média da América Latina, que tanto chocara Silvia Montoya.
Ora, num país de elites não leitoras, o fato de tantos jovens não estarem aptos a ler livros talvez não choque. E, no entanto, a leitura de boas obras pode ser fonte de tanto prazer —cada novo autor que descubro vive comigo uma história de amor.
Ando às voltas com o Leonardo Padura, escritor que sempre me surpreende, mas não lhe sou totalmente fiel. Divido-o com Balzac, que me trouxe, em "Ilusões Perdidas", uma visão, a partir do relato da degradação de Lucien, ambicioso poeta de província, de como a alma humana pode se corromper aos poucos. Essa possibilidade de viver outras vidas e refletir sobre o que nos faz humanos é roubada desses jovens.
Não é mais suficiente ter um nível mínimo de alfabetização. Não ter competência leitora traz uma incapacidade de viver em sociedade, poder votar e entender propostas dos candidatos e seus próprios direitos e deveres como cidadãos, ainda mais num mundo em turbulência como o que vivemos, em que populismos se constroem a partir do manuseio de corações e mentes dos que não aprenderam (ou não puderam aprender) a pensar. 

2 de novembro de 2017

Do social media threaten democracy?


Facebook, Google and Twitter were supposed to save politics as good information drove out prejudice and falsehood. Something has gone very wrong
IN 1962 a British political scientist, Bernard Crick, published “In Defence of Politics”. He argued that the art of political horse-trading, far from being shabby, lets people of different beliefs live together in a peaceful, thriving society. In a liberal democracy, nobody gets exactly what he wants, but everyone broadly has the freedom to lead the life he chooses. However, without decent information, civility and conciliation, societies resolve their differences by resorting to coercion.
How Crick would have been dismayed by the falsehood and partisanship on display in this week’s Senate committee hearings in Washington. Not long ago social media held out the promise of a more enlightened politics, as accurate information and effortless communication helped good people drive out corruption, bigotry and lies. Yet Facebook acknowledged that before and after last year’s American election, between January 2015 and August this year, 146m users may have seen Russian misinformation on its platform. Google’s YouTube admitted to 1,108 Russian-linked videos and Twitter to 36,746 accounts. Far from bringing enlightenment, social media have been spreading poison.

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Russia’s trouble-making is only the start. From South Africa to Spain, politics is getting uglier. Part of the reason is that, by spreading untruth and outrage, corroding voters’ judgment and aggravating partisanship, social media erode the conditions for the horse-trading that Crick thought fosters liberty.
A shorter attention spa...oh, look at that!
The use of social media does not cause division so much as amplify it. The financial crisis of 2007-08 stoked popular anger at a wealthy elite that had left everyone else behind. The culture wars have split voters by identity rather than class. Nor are social media alone in their power to polarise—just look at cable TV and talk radio. But, whereas Fox News is familiar, social-media platforms are new and still poorly understood. And, because of how they work, they wield extraordinary influence.
They make their money by putting photos, personal posts, news stories and ads in front of you. Because they can measure how you react, they know just how to get under your skin (see article). They collect data about you in order to have algorithms to determine what will catch your eye, in an “attention economy” that keeps users scrolling, clicking and sharing—again and again and again. Anyone setting out to shape opinion can produce dozens of ads, analyse them and see which is hardest to resist. The result is compelling: one study found that users in rich countries touch their phones 2,600 times a day.
It would be wonderful if such a system helped wisdom and truth rise to the surface. But, whatever Keats said, truth is not beauty so much as it is hard work—especially when you disagree with it. Everyone who has scrolled through Facebook knows how, instead of imparting wisdom, the system dishes out compulsive stuff that tends to reinforce people’s biases.
This aggravates the politics of contempt that took hold, in the United States at least, in the 1990s. Because different sides see different facts, they share no empirical basis for reaching a compromise. Because each side hears time and again that the other lot are good for nothing but lying, bad faith and slander, the system has even less room for empathy. Because people are sucked into a maelstrom of pettiness, scandal and outrage, they lose sight of what matters for the society they share.
This tends to discredit the compromises and subtleties of liberal democracy, and to boost the politicians who feed off conspiracy and nativism. Consider the probes into Russia’s election hack by Congress and the special prosecutor, Robert Mueller, who has just issued his first indictments. After Russia attacked America, Americans ended up attacking each other (see article). Because the framers of the constitution wanted to hold back tyrants and mobs, social media aggravate Washington gridlock. In Hungary and Poland, without such constraints, they help sustain an illiberal, winner-takes-all style of democracy. In Myanmar, where Facebook is the main source of news for many, it has deepened the hatred of the Rohingya, victims of ethnic cleansing.
Social media, social responsibility
What is to be done? People will adapt, as they always do. A survey this week found that only 37% of Americans trust what they get from social media, half the share that trust printed newspapers and magazines. Yet in the time it takes to adapt, bad governments with bad politics could do a lot of harm.
Society has created devices, such as libel, and ownership laws, to rein in old media. Some are calling for social-media companies, like publishers, to be similarly accountable for what appears on their platforms; to be more transparent; and to be treated as monopolies that need breaking up. All these ideas have merit, but they come with trade-offs. When Facebook farms out items to independent outfits for fact-checking, the evidence that it moderates behaviour is mixed. Moreover, politics is not like other kinds of speech; it is dangerous to ask a handful of big firms to deem what is healthy for society. Congress wants transparency about who pays for political ads, but a lot of malign influence comes through people carelessly sharing barely credible news posts. Breaking up social-media giants might make sense in antitrust terms, but it would not help with political speech—indeed, by multiplying the number of platforms, it could make the industry harder to manage.
There are other remedies. The social-media companies should adjust their sites to make clearer if a post comes from a friend or a trusted source. They could accompany the sharing of posts with reminders of the harm from misinformation. Bots are often used to amplify political messages. Twitter could disallow the worst—or mark them as such. Most powerfully, they could adapt their algorithms to put clickbait lower down the feed. Because these changes cut against a business-model designed to monopolise attention, they may well have to be imposed by law or by a regulator.
Social media are being abused. But, with a will, society can harness them and revive that early dream of enlightenment. The stakes for liberal democracy could hardly be higher.