25 de junho de 2018

Quanto custa um aluno no Brasil?

21 de Junho de 2019  
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Cálculo é difícil e leva em conta diferentes realidades e níveis de educação, mas alguns órgãos e institutos mostram e explicam seus números
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Por: Paula Calçade, Luiz Fernando Menezes
Alunos na saída da escola   Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil
O custo de um aluno brasileiro pode ser determinado pela quantia que o país investe em políticas educacionais. No entanto, o cálculo para determinar esse número não é simples: é preciso levar em conta os diversos níveis de educação e os valores nos núcleos urbanos e rurais, que podem ser diferentes. Alguns órgãos e instituições fazem uma estimativa geral; outros calculam qual seria o mínimo valor necessário para garantir educação de qualidade ou a equiparação da educação brasileira à dos países com os melhores índices educacionais, como a Suíça e a Noruega.

O Ministério da Educação (MEC) define que o valor anual mínimo nacional por aluno é de R$ 2.091,37 para 2018. Mas isso significa que esse é o custo de um aluno do Ensino Fundamental? E no Ensino Médio? E se é o valor mínimo, qual seria então o valor ideal? Para responder a essas perguntas, NOVA ESCOLA recorreu à checagem da agência Aos Fatos, parceiro do projeto Mentira na Educação, não! e,  conforme o índice avaliado, o Brasil gasta menos do que deveria com cada estudante.
Interpretando os númerosEm levantamento feito pelo Porvir e pelo Iede, que considera gastos dos países com Educação em relação ao PIB nacional, o Brasil aparece razoavelmente bem no quadro sul-americano. Com 5,95% do PIB investido em Educação em 2014, o país só perde para a Bolívia, que dedica 7,29%. A Argentina aparece logo depois com 5,36%, seguida do Equador com 5,26%. Mas esse investimento parece não se transferir para o êxito educacional de cada aluno brasileiro se comparado a outros estudantes latinos.
Quando se olha para os dados como percentual da população com 25 anos ou mais que chegou ao Ensino Médio e a taxa bruta de matrícula no Ensino Superior, o Chile é o destaque na América do Sul. Números do Relatório de Desenvolvimento Humano de 2015 apontam que o Chile aparece na primeira posição com 76,5% dos estudantes chegando ao Médio. A Venezuela aparece em segundo, com 68,9%, Argentina com 62,4% e o Peru, 61,5%. O Brasil está distante, aqui a média de anos de estudo é de 7,6 anos para essas pessoas.
“Na série histórica os indicadores educacionais estão melhorando, só que em ritmo abaixo do que determina o Plano Nacional de Educação”, explica José Marcelino Pinto, professor da Universidade de São Paulo e membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Para ele, isso ocorre porque ainda estamos longe das metas e em um cenário econômico desfavorável. “Foi feito um longo estudo sobre o tema e hoje está na lei que  7% do PIB deve ser destinado à educação em 2019 e 10% em 2024, para compensar os anos de sub-investimento, mas o PIB está caindo nos últimos anos”, pontua.
Os valores investidos por aluno mostram ainda a necessidade de maiores gastos e de se pensar as diversidades locais e de nível de ensino. O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) apresenta uma estimativa anual de valor aluno/ano do ensino público por Estado desde 2006. Segundo essa base de dados, por exemplo, no nível do Ensino Fundamental verifica-se que há maiores investimentos nas séries finais: enquanto a média é de R$ 3.725,44 anuais no ensino urbano e R$ 4.064,11 no rural, quando o assunto são as séries iniciais os números caem para R$ 3.387,54 e R$ 3.894,77, respectivamente. Já no Ensino Fundamental Integral o valor médio de custo por aluno é maior, de R$ 4.402,79.
Os três Estados com maiores custos em qualquer nível e localidade analisados são Roraima, Rio Grande do Sul e Amapá. Só para se ter um exemplo, no Ensino Médio urbano, esses estados investem, respectivamente, R$ 5.848,90, R$ 5.182,08 e R$ 4.808,84 anuais.
Para que se entenda que esses valores por aluno ainda estão baixos, José Marcelino compara às mensalidades de escolas privadas. “Uma escola de classe média custa R$ 1.500 por mês pelo menos, isso é R$ 18 mil por ano e em tempo parcial”, mostra. Para o professor é necessário diminuir gastos com juros e outros programas de ensino posterior, como o FIES, que desembolsou R$ 33 bilhões em 2016. “A Receita Tributária do Brasil é de 33% do PIB, destinar menos de um terço da receita tributária para a educação é mais do que justo”, afirma.
Arte: Aos Fatos

Médias mundiais e diferenças entre municípios
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) acredita que altos valores no custo por aluno traduzem a disposição do país em expandir o acesso e fornecer educação de qualidade.
Em seu estudo “Education at a Glance 2017”, com números de 2014, a média dos países membros da organização era de US$ 10.759 anuais (ou R$ 40.0977) por aluno, levando em conta todos os níveis de educação. Nesse contexto, o Brasil desembolsou apenas metade do valor: US$ 4.240 anuais (R$ 15.806). Essa comparação pode ser ainda pior já que, segundo José Marcelino, não se pode fazer a conversão simples pelo dólar comercial, o que mostra que a diferença é ainda muito maior.
Se separarmos os custos por setores, percebemos que o Brasil só fica próximo à média da OCDE quando o assunto é a educação superior (terciária): nosso país investia, na época, cerca de US$ 11.666 anuais (R$ 43.4967), enquanto a média dos países membros era de US$ 16.143 (R$ 60.2231). Já em relação aos outros níveis, apresentamos custos de US$ 3.837 anuais (R$ 14.3047) na educação secundária (a média da OECD era de R$ 37.6812) e R$ 14.1604 na educação primária a média da OECD era de R$ 32.5680. O professor da USP também explica que os números brasileiros podem ser ainda menores. “Boa parte da educação básica no país sobrevive na faixa de R$ 5.000 por aluno por ano, com exceções apenas para algumas capitais e municípios mais ricos”, afirma Marcelino. 
O IDados, em 2017, também calculou o Custo Aluno anual com o objetivo de mensurar o valor total da implementação do novo PNE  e identificar custos adicionais necessários para o cumprimento do programa até 2024. Segundo o levantamento, a quantia investida em cada aluno do ensino público varia enormemente — enquanto alguns municípios gastaram até R$ 15 mil por aluno no Ensino Fundamental, outros não chegaram a R$ 5,5 mil.
Assim, a pesquisa prefere utilizar como medida a mediana dos valores, uma vez que, por causa dos municípios com custos muito elevados, a média acaba ficando muito acima do que a maioria das cidades realmente gasta por aluno. A mediana, por outro lado, divide a distribuição de custos por aluno no meio: 50% dos municípios gastam menos do que ela e 50% gastam mais.
O estudo do IDados mostra então que o custo de um aluno do Ensino Fundamental nos municípios brasileiros em 2014 era de aproximadamente R$ 5,5 mil e do Ensino Médio de aproximadamente R$ 4,5 mil. A pesquisa também estimou o quanto os gastos precisam aumentar para cumprir as exigências do PNE: para o Ensino Fundamental, a estimativa é a de que seria necessário gastar R$ 12.346,78 por aluno; já para o Ensino Médio, a estimativa seria de R$ 11.867,13 por aluno.
Além do custo por alunoA Campanha Nacional pelo Direito à Educação em vez de calcular o custo do aluno por ano, estima qual deveria ser o valor anual investido no aluno para garantir uma educação pública de qualidade. O índice é chamado de Custo Aluno-Qualidade Inicial (CAQi) e tem o padra?o mi?nimo de qualidade estabelecido no PNE como meta a ser atingida. Os custos mais atualizados estão disponíveis no estudo “Quanto custa a educação pública de qualidade no Brasil?”.
Ao comparar os valores mínimos do Fundeb (o menor valor estimado nos Estados no ano) com os do CAQi — ou seja, o quanto o país aplica em comparação com o que ele deveria aplicar para garantir uma qualidade mínima de educação pública — é possível perceber o quanto o Brasil ainda precisa investir. Em 2018, o CAQi do Ensino Médio urbano é estimado em  R$ R$5.454,74, enquanto o Fundeb calculou um valor mínimo de R$ 3.770,00, totalizando uma diferença de R$ 1.684,74 e esse é o nível com a menor diferença entre o CAQi e o Fundeb.
Nas creches urbanas de tempo integral, etapa com maior diferença, a Campanha Nacional estimou um valor/aluno de R$ 12.307,11, mas o FNDE só estipulou um valor mínimo de R$3.016,67, uma diferença de R$ 9.290,44. Resumindo: de acordo com esses dados, o Brasil deveria investir até cinco vezes mais do que gasta hoje para garantir uma educação pública de qualidade. O professor da USP explica que esse valor estimado, apesar de discrepante à realidade, é coerente. “Uma creche privada em tempo integral custa em média R$ 1.000 por mês, diria que investir mais é mais do que razoável, é necessário”, defende.

* Colaborou Judite Cipreste, do Aos Fatos

24 de junho de 2018

Só 2,4% dos jovens brasileiros querem ser professor


Há dez anos, porcentual era de 7,5%, segundo estudo da OCDE.

Baixo reconhecimento social e salário motivam recusa 



Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo
24 Junho 2018 | 03h00
SÃO PAULO - Enquanto a maioria dos colegas de classe do ensino médio estudava para ser médico ou advogado, Henrique de Pinho José se imaginava dentro de uma sala de aula, ensinando Biologia. A vontade era tamanha que surpreendia os amigos e até mesmo os professores. José é uma exceção, já que no Brasil cada vez menos jovens querem seguir a carreira docente. Hoje, apenas 2,4% dos alunos de 15 anos têm interesse na profissão. Há dez anos, o porcentual era de 7,5%.
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Maicon, de 19 anos: ‘Professores me aconselharam outra carreira' Foto: FELIPE RAU/ESTADãO
Os dados são do relatório Políticas Eficientes para Professores, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na média, os países avaliados também tiveram queda na proporção de alunos de 15 anos interessados pela carreira. O porcentual passou de 6% dos adolescentes para 4,2%. Segundo o estudo, a baixa atratividade da carreira se deve ao pouco reconhecimento social e aos salários.
Filho de pais que não tiveram a oportunidade de fazer faculdade, José conseguiu uma bolsa em uma escola particular no ensino médio e depois cursou Biologia e licenciatura. “Para famílias menos favorecidas, ser professor não é uma péssima ideia. Mas, na escola privada, os alunos são incentivados a irem para carreiras mais prestigiadas”, diz. Hoje, aos 25 anos, ele dá aula para crianças de 6 e 7 anos em uma escola municipal de Praia Grande, no litoral paulista. 
No Brasil, são alunos como José que querem ser professores. O relatório indica que quanto menor a escolaridade dos pais, maior é a proporção dos interessados na carreira. Os dados mostram que a profissão é a escolha de 3,4% dos jovens filhos de pais que só concluíram o ensino fundamental. Entre os filhos de pais que cursaram até o ensino superior, o porcentual cai para 1,8%. 

Desvalorização

Aluno do 3.º semestre de Letras do Instituto Singularidades, Maicon Ferreira, de 19 anos, lembra que foi desencorajado a seguir a carreira pelos professores da escola técnica onde fez o ensino médio integrado ao curso de Automação. "Muitos professores eram engenheiros e me aconselharam a escolher outra graduação. Eles diziam que quem dá aula ganha mal, é desvalorizado, passa por muito estresse. Mas eu sabia que era essa a carreira que queria seguir.” 
De família de baixa renda, Ferreira conta que em casa sempre conviveu com problemas financeiros. Foi um projeto de Literatura, desenvolvido por um professor de Português, que o ajudou a seguir estimulado na escola. “Tive uma infância difícil, minha família sempre viveu com uma renda mensal per capita de no máximo R$ 300. Esse professor e o projeto fizeram com que eu me encontrasse, ganhasse autoestima. Quero ser esse professor para oferecer a outros alunos o mesmo que recebi.”

Creating New Schools: Regression To the Mean (Part 2) by larrycuban

In 2003, Microsoft Corporation went into a partnership with the Philadelphia public schools to build and staff a brand-new high school called "The School of the Future" in the middle of a West Philadelphia low-income, African American neighborhood. Microsoft would supply the technological expertise and the district would staff and operate the school. The mission: prepare youth to go to college and enter the high-tech information-saturated workplace prepared to get entry-level jobs and launch careers.
In 2006, this shining new eco-sensitive, high-tech school, adjacent to a large park and the city's zoo,  costing $62 million opened for 750 students. Students were chosen by lottery. The founders and district leaders were committed to educating students--called "learners"--to use software-laden laptops using a Microsoft developed portal rather than printed textbooks. A shining new media center, science labs galore, and especially equipped classrooms supported interdisciplinary projects and team-driven projects driven by students' interests. The facility sparkled. As did the hopes and dreams of the teachers, "learners", and parents.
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In 2012, School of the Future graduated its first class of 117 seniors--three years after it opened and every single one was admitted to college. But it was a rocky ride for these largely poor and African American graduates and subsequent classes.
Frequent changes in principals, unstable funding from district--the state had taken over the Philadelphia schools--mediocre academic achievement, and troubles with technologies--devices became obsolete within a few years--made the initial years most difficult in reaching the goals so admirably laid out in the prospectus for the school.
In 2018, the School of Future remains in operation but even with its surfeit of technology devices and software SOF has slowly become similar to traditional schools elsewhere in its district in its goals, policies, and practices (see herehere, and here).
As Richard Sherin, principal or "Chief Learner" since 2014 said:
At one point this school functioned very much through technology....Where our innovation is now is to get back to the fundamentals of what an educational academic program is supposed to be like, and how you get technology to mirror or augment that.
Part of those "fundamentals" is having a regular school day of seven 56-minute periods like most high schools with an 11-minute hiatus for what used to be called "home room." Textbooks have returned as have paper and pencil. While project-based learning occurs in different academic subjects, state standards, yearly testing, and accountability have pressed both administration and faculty to focus on getting better-than-average test scores and graduating most of their students--SOF exceeds other district high schools in the percentage they graduate.
This slippage from grand opening of a futuristic school to one resembling a traditional high school is common in public schooling as it is in other institutions.
Why is there this slow movement back from a school built for the future  to the traditional model of schooling as seen in New York's Downtown School (Part 1) and here in Philadelphia's School of Future?
I have one but surely not the only answer. Designers of future schools and innovations overestimate the potency of their vision and product and underestimate the power of the age-graded school's structure and culture (fully supported by societal beliefs) that sustain traditional models of schooling. That see-saw of underestimation vs. overestimation neatly summarizes the frequent cycles of designers' exhilaration with a reform slowly curdling into disappointment as years pass.
The overestimation of a design to alter the familiar traditional school has occurred time and again when reformers with full wallets, seeing how out of touch educators were as changes in society accelerated, created new schools chock-a-block across the country in the 1960s such as "free schools" and non-graded schools  (see here and here).
Within a decade, founders of these schools of the future had departed, either  burned out or because they had ignored politically the two constituencies of parents and teachers who had to be involved from the start but were not. These well intentioned reformers also ignored how the structures and culture of the age-graded school have been thoroughly accepted by most parents and teachers as "real schools."
Designers of reform seldom think about the inherent stability of the institution that they want to transform. They seldom think about the strong social beliefs of taxpayers, voters, teachers, and parents who have sat in age-graded schools and who sustain generation after generation the "grammar of schooling."
From daily schedules of 50-minute periods to the fact that teachers ask questions far more than students during lessons to the use of textbooks, homework, and frequent tests--these features of the "grammar of schooling" or what Seymour Sarason in The Culture of the School and the Problem of Change,  called the "regularities" of schooling--persist generation after generation. While they exaggerate the reform they champion, they neglect  the influences of organizational structures and cultures.
Some designers give up. They realize that their grand visions cannot be accommodated by public schools quickly so they create schools of the future in private venues such as "micro-schools" or  the Khan Lab School and the like.
The notion of mindful incremental change over a lengthy period of time in the direction of gradually building a "school of the future" is anathema to fired-up, amply funded designers who see their visions enacted in one fell swoop. Thus, disappointment arises when futuristic schools slip back into routines that designers scorned. Regression to the mean smells like failure to these reformers who underestimated the power of the "grammar of schooling."






larrycuban | June 24, 2018 

22 de junho de 2018

QS International Student Survey: What drives an international student today?


Up-to-date technology is the top priority of international students choosing universities – even superseding the quality of the teaching staff – according to a new survey published by QS.
The 2018 International Student Survey, carried out by QS Enrolment Solutions (formerly Hobsons), is based on the responses of 67,000 students in 63 universities around the world. The published report focuses on the 28,000 who were considering a move to the UK.
Some 65 percent of respondents placed technology among their top five priorities, with 64 percent nominating the quality of teaching staff as their primary concern. The results contrast with those deriving from UK students in a similar survey, who focused more on the results that students achieve upon graduation and future employment rates.
Students were also asked which factors indicated to them that a member of staff would deliver good-quality teaching. By far the most popular answer was they that were passionate about the subject they taught. Real-world experience and positive reviews from students were the next most valuable indicators of teaching competence.
Most respondents made their choice of subject before choosing a country or university, before progressing to choose course, and, finally, a destination of study. Three-quarters were considering five universities or less, with three the most popular total.
A course leading to a particular career was among the top priorities for 74 per cent of respondents, with high-quality teaching again second in the list and affordable fee options third.
Friends or family who had studied abroad were an important influence, the survey found. More than half of all respondents had friends with overseas study experience and the same was true of family members for 21 per cent of the sample.
The cost of living and availability of scholarships were the most common concerns of prospective international students, followed by safety and finding accommodation. Asked what would make them less uneasy, the largest group of respondents chose the ability to ask questions of international students at an institution. This was followed closely by a desire to have friends or family in the country in which they intended to study.
More than 80 per cent of respondents were using social media were using social media as one of their search tools, but the platform varied widely by country. Facebook was by far the most popular, with 56 per cent using it overall, but only 43 per cent used it in the United States and 46 per cent in China, where Weibo was used by 56 per cent of respondents.
Asked how they thought universities would change in the next 10 years, students said they expected most lectures to be online, and that students would be able to get a qualification from any university, regardless of which country it was based in.

21 de junho de 2018

Brasil 'empata' em desigualdade e toma goleada da Rússia em educação


Boneca russa com nota de 500 rublosDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionAssim como o Brasil, a Rússia também passou por uma recessão em 2015 e 2016
Países com diferenças históricas, climáticas e culturais à primeira vista inconciliáveis, Brasil e Rússia há quase 20 anos fazem parte do mesmo grupo de emergentes, os Brics, graças às características que têm em comum na economia.
Assim como Índia, China e África do Sul, os demais países que compõem a sigla, ambos viveram um ciclo de prosperidade até 2010, impulsionado também pelo aumento nos preços internacionais de commodities – o petróleo no caso da sede da Copa e a soja e o minério de ferro, no do Brasil.
Quase dez anos depois, contudo, o cenário é outro: os dois países tentam se recuperar depois de dois anos de recessão e, tanto lá quanto aqui, a retomada é lenta.
A "ressaca" após período de boom econômico, avaliam especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, também é reflexo das similaridades entre as duas economias. Ambas dependem da exportação de produtos básicos, cujos preços recuaram, perdem com a baixa produtividade do trabalho e com a falta de inovação na indústria.
Comparação entre os PIBs de Brasil e Rússia
Ao contrário do Brasil, entretanto, a dívida pública russa praticamente não subiu durante a crise – avançou de 15,9% do PIB para 17,4% entre 2015 e 2017, contra um salto de 72,5% do PIB para 83,9% aqui – e a taxa de desemprego não foi além dos 5%, em parte por pressão do governo Putin para que as empresas não demitissem.
Mas isso não quer dizer a população não tenha sentido os efeitos da recessão. Os salários encolheram durante esse período, e os russos ainda não recuperaram seu poder de compra.
Em ambos os países, a renda é altamente concentrada. A Rússia tem 101 bilionários – mais que o dobro do Brasil –, e 20 milhões estão abaixo da linha de pobreza, levando em conta as estimativas do governo, consideradas conservadoras.
GazpromDireito de imagemREUTERS
Image captionEstatal do petróleo russa, a Gazprom é uma das maiores empresas do país
Apesar da desigualdade elevada, contudo, o país tem desempenho compatível com o de países europeus nos rankings internacionais de avaliações de alunos, como o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) – uma diferença marcante, já que o Brasil ocupa as últimas posições da lista e tem o pior resultado quando se leva em consideração os testes de matemática.
O analfabetismo foi erradicado ainda antes da Segunda Guerra e praticamente não existem crianças fora da escola, conta a professora Elena Vássina, natural de Moscou, que dá aulas de literatura e cultura russa na Universidade de São Paulo (USP).
"Com três ou quatro anos as crianças já começam a decorar poemas de (Alexander) Pushkin na escola", diz ela, que embarca neste sábado para o país da Copa para assistir aos jogos em casa.

Recessão com inflação alta

O colapso nos preços do petróleo é apontado como principal responsável pela crise econômica que fez o PIB da Rússia encolher 2,5% em 2015 e 0,2% em 2016 – tombo menor que o do Brasil, de 3,5% em cada um dos dois anos.
Cotado a mais de US$ 100 até o início de 2014, o barril chegou a valer menos de US$ 30 em 2016. A commodity é o principal produto de exportação dos russos, representando cerca de 50% de tudo o que país vende ao exterior, entre petróleo cru, refinado e gás.
Comparação entre as inflações de Brasil e Rússia
Além da queda nos preços, as sanções econômicas impostas à Rússia pelos Estados Unidos e União Europeia em 2014, logo após a anexação da Crimeia – região que estava sob o controle da Ucrânia – também tiveram papel importante na crise, acrescenta Nafez Zouk, da consultoria Oxford Economics.
Com menos exportações, o volume de dólares no país diminuiu. Para evitar que a Rússia "vendesse todas as suas reservas" na tentativa de segurar a cotação da moeda americana, o Banco Central passou a adotar o regime de câmbio flutuante, explica o economista, e deixou o rublo desvalorizar.
A moeda chegou a perder 50% do valor nesse período e provocou um salto na inflação, que chegou a ficar ainda mais alta que no Brasil. Em 2015, atingiu 12,9%, contra 10,67% por aqui.

Desemprego baixo e 'contratação três por um'

A trajetória do desemprego mostrada pelos dados oficiais, entretanto, praticamente não se alterou. Enquanto no Brasil a taxa atingiu 12,8%, na Rússia ela não passou de 5,6%.
Isso se explica, em parte, pelo chamado "desemprego oculto", que cresceu nesse período, diz o economista russo Victor Krasilshchikov.
Incentivadas pelo governo, as empresas reduziram as remunerações e mantiveram o volume de contratações de novos empregados.
"Elas contratam três pessoas com o salário de uma", diz o especialista, que é chefe do grupo de pesquisa do Centro de Estudos do Desenvolvimento do Instituto Nacional de Pesquisa de Economia e Relações Internacionais (Imemo).
"Existe uma pressão política para não demitir", concorda William Jackson, da Capital Economics, acrescentando que, além do corte nos salários, as empresas também reduzem as horas de trabalho e dão férias coletivas para evitar cortes de pessoal.
Linha do tempo do desemprego no Brasil e na Rússia
Com o aumento da inflação e a redução dos salários, contudo, a renda do trabalho vem encolhendo de forma contínua desde a crise, diminuindo o poder de compra dos russos.
"O consumo foi o que mais sentiu (os efeitos da recessão). O fardo da crise recaiu majoritariamente sobre os trabalhadores", avalia Zouk, da Oxford Economics.
Apesar da recuperação dos preços do petróleo, que favorece a retomada da economia do país, o economista pondera a Rússia enfrenta entraves similares aos do Brasil – problemas estruturais que diminuem seu potencial de crescimento, como a baixa produtividade do trabalho, a falta de inovação e a economia relativamente fechada e pouco competitiva.

Um dos países com maior concentração de riqueza

Com 101 bilionários – contra 43 no Brasil –, a Rússia está entre os países que mais concentra riqueza no mundo, conforme o Global Wealth Report do banco Credit Suisse.
Os 10% mais ricos detêm 77,4% de toda a riqueza do país, contra 72,3% no Brasil. O economista Tony Schorrocks, um dos autores do levantamento, que há dez anos trabalha na base de dados, explica que a estimativa leva em consideração todo o patrimônio pessoal, de propriedade a ativos financeiros, descontadas as dívidas.
Presidente da Rússia, Vladimir PutinDireito de imagemAFP/GETTY IMAGES
Image captionA quase ausência de uma oposição e o autoritarismo de Putin são apontados como razões para o controle dos gastos do governo e no nível da dívida russa mesmo durante a crise
É diferente, por exemplo, do indicador da desigualdade de renda usado pelo Banco Mundial. Tomando essa medida, os 10% mais ricos na Rússia acumulam quase 30% dos rendimentos, enquanto no Brasil o percentual sobe para pouco mais de 40%.
"Essa é uma medida (a concentração de riqueza) importante quando se analisa, por exemplo, a mobilidade social entre as gerações e a persistência da desigualdade. Os filhos não herdam a renda do trabalho dos pais, mas o patrimônio", ele pondera.
"Além disso, os ricos não gastam seu dinheiro só em produtos de luxo. Eles, em muitos casos, têm influência sobre a mídia e fazem grandes doações a partidos políticos", acrescenta.
No caso da Rússia, diz o economista, a concentração seria em parte reflexo da transição do regime comunista da União Soviética, em que praticamente não havia propriedade privada, para o capitalismo.
Nas últimas décadas, um grupo pequeno de pessoas influentes explora os principais recursos do país – não por acaso, os bilionários russos no topo da lista atuam no setor de óleo e gás e na indústria do aço.
Na base da pirâmide, as estatísticas oficiais apontam que pouco mais de 13% da população do país, 20 milhões, está abaixo da linha de pobreza, estabelecida em pouco mais de 10 mil rublos (cerca de US$ 155) pelo governo.
Selo com Liev Tolstói, escritor russoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionApesar do nível elevado de desigualdade, acesso a educação pública de qualidade na Rússia é quase universal; clássicos como Guerra e Paz, de Tolstói, são leituras obrigatórias
Krasilshchikov, economista do Imemo, pondera que, se levada em conta a métrica usada pelas Nações Unidas para definir pobreza – se a família gasta mais da metade da renda para comprar alimento –, 30% dos russos seriam considerados pobres.
A pobreza é maior nas pequenas cidades rurais – onde vive um quarto da população, contra 14% no Brasil –, diz o economista, do que nos grandes centros, como Moscou e São Petersburgo.

Dostoiévski no 'ensino médio'

Apesar da desigualdade elevada, o acesso à educação pública de qualidade na Rússia é quase universal, diz a professora Elena Vássina, que se divide entre São Paulo e Moscou.
O desempenho de Brasil e Rússia no Pisa
Herança do período comunista, o programa de ensino é igual em todo o território e há boas escolas mesmo nas cidades menores. "O ensino era muito ideologizado, mas o comunismo investiu muito em educação. É uma tradição russa que vem desde o século 18", ela ressalta.
Clássicos como Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, e Guerra e Paz, de Liev Tolstói, ela conta, são leituras obrigatórias para os jovens de 15 e 16 anos. Nos cursos de literatura nas universidades, a carga horária é três vezes maior do que na USP, por exemplo, onde Vássina leciona.
Não por acaso, o desempenho do país em avaliações como o Pisa é muito superior ao do Brasil. Tanto nos testes de leitura quanto nos de matemática, a Rússia está acima da média da OCDE, que reúne as economias mais desenvolvidas do mundo.
O Brasil segue na lanterna. É o pior em matemática e tem o terceiro pior desempenho em leitura, atrás do Peru e da Indonésia.

A austeridade fiscal de Putin

Das diferenças entre os dois países, a trajetória das contas públicas também chama atenção.
Evolução da dívida pública de Brasil e Rússia
Desde meados dos anos 2000 a dívida bruta do governo está relativamente estável, e assim se manteve também durante a recessão. No Brasil, os reiterados deficits nos resultados do governo – que hoje gasta mais do que arrecada – e a trajetória de crescimento da dívida são considerados um dos maiores riscos de médio prazo para a economia.
"A austeridade fiscal na Rússia talvez venha da memória do que aconteceu nos anos 90", afirma Jackson, da Capital Economics, referindo-se à crise da dívida russa, quando o país decretou moratória e teve de renegociar a dívida externa.
Putin manteve as torneiras fechadas durante a crise e conseguiu se reeleger neste ano mesmo com a política fiscal contracionista – ou seja, com redução do gasto público –, geralmente impopular.
"No momento atual da política na Rússia, em que Putin governa quase em um sistema autocrático, praticamente não existe oposição e inquietação social. Muitas vezes você tem que engolir e aceitar (as medidas do governo)", diz Zouk, da Oxford Economics.