26 de junho de 2016

Armas estão em 71% dos assassinatos e NE lidera

MARCO ANTÔNIO CARVALHO - O ESTADO DE S. PAULO

Proporção é recorde em 34 anos; Estatuto evitou crescimento

Criminalidade. Número de mortes por armas de fogo em 2014 foi de 42,3 mil no Brasil
Criminalidade. Número de mortes por armas de fogo em 2014 foi de 42,3 mil no Brasil
Dados inéditos do Mapa da Violência de 2016 mostram que os assassinatos cometidos com armas de fogo já representam anualmente 71,7% do total desses crimes no País, com 42,3 mil mortes. A porcentagem é recorde em todo o período em que as estatísticas são registradas, desde 1980. O número representa uma evolução significativa em comparação com aquele período, quando a proporção era de 43,9%, mas está relativamente estável nos últimos dez anos.
A análise compõe o mais tradicional estudo de violência letal do Brasil, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), que deve ser divulgado em julho. O Estado teve acesso aos dados, que mostram também a consolidação do avanço da criminalidade na Região Nordeste, reforçando uma tendência identificada desde o início da década. 
A taxa de homicídios por armas de fogo por 100 mil habitantes na região é de 32,8, ante 21,2 da média nacional. Na outra ponta, a quantidade na Região Sudeste é de 14 dessas mortes por 100 mil habitantes, taxa que apresentou queda de 41,4% nos últimos dez anos. 
O estudo usa dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus), referentes a 2014, os registros mais recentes disponíveis. “Entre 1980 e 2003, o crescimento dos homicídios por armas de fogo foi sistemático e constante, com um ritmo enormemente acelerado: 8,1% ao ano”, descreveu a análise. 
“A partir do pico de 36,1 mil mortes, em 2003, os números, em um primeiro momento, caíram para aproximadamente 34 mil e, depois de 2008, ficam oscilando em torno das 36 mil mortes anuais, para acelerar novamente a partir de 2012”, acrescenta a pesquisa.
A maior taxa estadual desse tipo de crime continua pertencendo a Alagoas, com 56,1 assassinatos por 100 mil habitantes. No estudo do ano passado, a taxa estava em 55. Já a maior evolução dessa taxa entre 2004 a 2014 aconteceu no Rio Grande do Norte, onde o crescimento foi de 379,8%.
A análise ressaltou que “em curto espaço de tempo, (os Estados do Nordeste) tiveram de enfrentar uma pandemia de violência para a qual estavam pouco e mal preparados”. Já o número referente a São Paulo foi o segundo menor do País em 2014, com uma taxa de 8,2. Na variação dos últimos dez anos, o Estado também aparece como um destaque positivo: há redução de 57,7%. 
Armamento. Apesar de o número continuar elevado, o coordenador da pesquisa, professor Julio Jacobo Waiselfisz, ponderou um fator positivo na gestão da segurança pública no País nos últimos dez anos. “Efetivamente, a participação das armas de fogo no total de homicídios praticamente duplica, pula de 36,6% em 1983 para 70,7% em 2004, ano que entra em vigor o Estatuto do Desarmamento. A partir dessa data, estagna: até 2014 essa participação aumentou só 1% em toda a década”, disse ao Estado
Para Waiselfisz, o único fator que explica essa estagnação é o Estatuto, que, “ao retirar acima de 600 mil armas de circulação, possibilitou estagnar a espiral de violência que vinha imperando no País”. Tramitam no Congresso Nacional, porém, propostas que visam a afrouxar a legislação de controle de armas, revisando o Estatuto do Desarmamento e objetivando conceder a posse e o porte de armas de fogo a diferentes categorias profissionais, como advogados e agentes penitenciários fora de serviço.
O professor criticou o avanço dessa pauta. “Temos farta evidência de pesquisas, tanto nacionais quanto internacionais, que permitem sustentar com sólidas evidências que, quanto mais armas em circulação na população, mais mortes, seja por homicídio, seja por suicídio ou acidentes”, disse Waiselfisz.
A reportagem contatou o Ministério da Justiça e as Secretarias de Segurança do Rio Grande do Norte e Alagoas, que não se pronunciaram.

25 de junho de 2016

Statement from MIT on race

To the members of the MIT community:

Yesterday, the U.S. Supreme Court issued its latest decision in Fisher v. University of Texas, upholding the University's use of race as one of many factors in making admission decisions. This decision affirms many of the principles we outlined in our amicus brief last November, and it reinforces that MIT and other higher education institutions can continue to fulfill their educational missions by building richly diverse student bodies.

At MIT, we have long held that our students' success both on campus and in the world depends on their exposure to a variety of viewpoints, backgrounds, and experiences. Students are best served when they are surrounded by people who think differently, who challenge their assumptions, and who approach problem solving in unexpected ways. A diverse campus community raises new generations of global citizens – the kind of open-minded and well-rounded thinkers and innovators the world urgently needs.

We are pleased the Court understands that universities are "laboratories for experimentation." MIT is constantly exploring new and creative ways to identify talented students from different backgrounds with different experiences. By doing so, we are committed to assembling a broadly diverse body of students who can, individually and as a community, make the world a better place.

Sincerely,
Cynthia Barnhart
Chancellor
Dennis Freeman
Dean for Undergraduate Education 
 
 

23 de junho de 2016

A educação alem das probas

Avaliações são importantes para analisar qualidade do ensino, mas impacto da educação é mais amplo do que o medido em testes

Gustavo Morita / Revista Educação
tenha em mente
- Ao avaliarem políticas públicas, jornalistas precisam estar atentos a outras variáveis não medidas por testes
- Alguns resultados do investimento no ensino aparecem apenas no longo prazo, e bem longe da sala de aula
- Mais escolaridade está associada a melhores salários, mais saúde, e menos crimes

Na cobertura da educação, é natural que um repórter dê especial atenção aos indicadores relacionados ao que acontece na escola. Desde 1995, quando o MEC começou a divulgar resultados de avaliação de aprendizagem, o desempenho de alunos em testes de português e matemática passou a ser um dos principais focos (talvez o principal) da cobertura da imprensa no setor.

A análise desses indicadores é importante, pois eles vêm mostrando o quanto ainda precisamos avançar para garantir o direito a uma educação de qualidade para todas as crianças. Apenas para ficar num número (o pior deles): somente 9% dos jovens brasileiros que concluem o ensino médio têm aprendizado considerado adequado em matemática. Isso sem falar que muitos outros ficam pelo caminho e sequer chegam a essa etapa final da educação básica.

Entender o que significam esses números (e também tudo o que eles deixam de captar) é essencial para um repórter de educação. Mas o risco é reduzir o efeito da educação apenas a isso: resultados medidos em testes de aprendizagem em português e matemática. Além de haver dimensões que não são mensuráveis por nenhum instrumento, no Brasil e no mundo, não faltam evidências do impacto da educação em inúmeras variáveis cujos efeitos são verificados no longo prazo e já bem longe da sala de aula.

Mais renda

O efeito mais fácil de ser verificado é o impacto da escolaridade na renda. A baixa qualidade de nossa educação é uma das causas de um problema sério de baixa produtividade do trabalhador, indicador em que estamos estagnados desde a década de 80. É ruim, portanto, para a economia como um todo. Mas essa mesma educação de qualidade insatisfatória continua gerando muitos ganhos individuais para aqueles que conseguem ir mais longe no sistema educacional.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, mostra que em 2014 a média salarial de trabalhadores com mestrado ou doutorado era mais do que o dobro da verificada entre aqueles que tinham somente o ensino superior completo. Estes que concluíram apenas um curso de graduação, por sua vez, também recebiam, em média, mais que o dobro em comparação com os que tinham só diploma de ensino médio. E quem completou o antigo segundo grau também apresentava médias maiores em relação aos que pararam no ensino fundamental.

Fonte: Tabulações a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, de 2014.


Apesar da baixa qualidade de nossa educação, o Brasil ainda é um dos países onde o diploma universitário faz mais diferença no mercado de trabalho, conforme revela o relatório Education at a Glance, publicado anualmente pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Isso não significa que nosso ensino superior seja de alta qualidade. O dado revela na verdade como ainda é alta nossa desigualdade. Como poucos conseguem acessar o ensino superior em comparação com o verificado em nações ricas, conseguir um diploma num desses níveis diferencia o trabalhador dos demais, dando a ele ganhos expressivos.

Menos filhos e mais saúde

Dinheiro não é tudo. Por causa da correlação tão forte entre renda e escolaridade, é difícil isolar o efeito de cada uma dessas variáveis. Mas um indicativo de que ter mais escolaridade tem impacto na vida de uma pessoa mesmo em situação de pobreza aparece num estudo dos demógrafos José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. Eles compararam no censo demográfico de 2000 o número médio de filhos por mulher em favelas do Rio e nas demais áreas da cidade.

O número de filhos, não é novidade, está muito relacionado à escolaridade da mulher. Quanto mais instrução, menos filhos. O que Alves e Cavenaghi conseguiram identificar, no entanto, foi que mesmo entre mulheres residentes em áreas mais pobres, aquelas com mais anos de estudo apresentavam um padrão de fecundidade diferente. A conclusão dos autores foi que, quando a mulher havia ao menos iniciado o ensino médio, a taxa de fecundidade era de apenas 1,6 filho por mulher, não importando se ela morava em favela ou não. Ou seja, mesmo em favelas, mulheres com mais instrução tinham padrão de fecundidade igual ao das que viviam fora dessas áreas mais pobres.

Além do impacto no número médio de filhos por mulher, é sabido também que mais estudo está altamente correlacionado a maiores taxas de realização de consultas pré-natais, menores taxas de mortalidade infantil e materna, e também a uma menor probabilidade de gravidez na adolescência.

Ter avançado mais nos estudos também está correlacionado com melhores indicadores de saúde. Um estudo do Hospital do Câncer de São Paulo feito com 2.741 pacientes mostrou, em 2004, que a baixa escolaridade diminuía a probabilidade de uma pessoa se curar do câncer. Um dos motivos que explicam isso é que pacientes com menos anos de estudo tendem a detectar a doença quando ela está em fase mais avançada. A baixa escolaridade, portanto, está associada a uma maior dificuldade de acesso aos serviços de saúde e à menor probabilidade de informação sobre fatores de risco e prevenção. Na mesma linha, outros estudos mostram que há uma relação clara em mais educação e hábitos mais saudáveis que levam a uma maior expectativa de vida.

Menos homicídios

Outra evidência no Brasil dos efeitos da educação para além dos verificados em sala de aula veio de uma pesquisa divulgada em 2016 pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). O estudo mostrou que um aumento percentual de 1% no número de jovens entre 15 a 17 anos na escola representa uma diminuição de 2% na taxa de assassinatos de um município.

Para o autor da pesquisa, Daniel Cerqueira, os dados mostram que a educação é uma das melhores políticas públicas sociais para reduzir assassinatos, pois manter os jovens na escola reduz significativamente a probabilidade de envolvimento com crime.

Esse é um dado a ser sempre considerado na análise, por exemplo, de uma política de expansão do horário da escola, uma estratégia que consta do Plano Nacional de Educação. É justo que a sociedade espere que essa ação resulte em melhoria no desempenho dos estudantes, pois trata-se de um investimento alto do poder público. Mas passar mais tempo na escola pode reduzir, por exemplo, a

Como são avaliados os professores nos países com a melhor educação do mundo




  • 22 junho 2016
Milhares de professores se opõem à reforma de educação proposta pelo governo mexicanoImage copyrightREUTERS
Image captionMilhares de professores se opõem à reforma de educação proposta pelo governo mexicano
No último domingo, seis pessoas morreram durante confrontos entre professores e a polícia no Estado mexicano de Oaxaca. Pelo menos 100 pessoas ficaram feridas, incluindo muitos policiais.
Este protesto, organizado pela combativa facção de Oaxaca da Confederação Nacional dos Trabalhadores de Ensino (CNTE), o principal sindicato da categoria do México, foi apenas o capítulo mais recente na resistência de um amplo setor da categoria em aceitar reformas educacionais introduzidas pelo governo em 2013.
Entre as medidas, a mais polêmica é a introdução de um sistema de avaliação do desempenho dos professores.
Os professores do México não são os únicos a resistir a esse tipo de iniciativa. No Chile também houve protestos quando , em 2006, foi introduzida uma medida parecida.
Pelo menos seis pessoas morreram e outras 50 ficaram feridas nos confrontos de Oaxaca, no sul do MéxicoImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionPelo menos seis pessoas morreram e outras 50 ficaram feridas nos confrontos de Oaxaca, no sul do México
Entretanto, "a maioria dos países com bons resultados educativos avalia seus professores", diz Cristián Cox Donoso, especialista em estratégia docente do Escritório Regional de Educação da Unesco para a América Latina e o Caribe.
É o caso de Xangai, Cingapura, Hong Kong e Japão, que aparecem nas primeiras posições do Programa Internacional para Avaliação de Estudantes (Pisa), utilizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para comparar o desempenho e matemática, ciência e leitura de meio milhão de adolescentes de 15 anos em 65 países, incluindo o Brasil.
A China tem um sistema complexo de avaliação de professoresImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionA China tem um sistema complexo de avaliação de professores
Em Xangai, por exemplo, assim como no resto da China, existe um complexo sistema destinado a medir a qualidade dos professores. Os critérios gerais se estabelecem a nível nacional, detalham-se ao nível local, e cada escola é encarregada de levar a cabo as avaliações.
E as avaliações têm ainda critérios como integridade profissional e valores do professor, não apenas habilidades.
O processo tem autoavaliações, questionários dirigidos a colegas, alunos e pais, mas também leva em conta os resultados acadêmicos de seus alunos.
Os dados são enviados ao governo central.
"A China quer redefinir o sistema para fazê-lo mais científico", diz Vivian Stewart, autora do livro A World-Class Education: Learning from International Models of Excellence and Innovation, que analisa iniciativas internacionais bem-sucedidas no campo da educação.
Países asiáticos estão nas primeiras posições do ranking PisaImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionPaíses asiáticos estão nas primeiras posições do ranking Pisa
Stewart também elogia o sistema de avalição de professores em Cingapura. No país asiático, a avaliação anual é obrigatória desde 2005 para todos os professores. Ela leva em conta não apenas os resultados acadêmicos, mas também as iniciativas pedagógicas do professor, as contribuições para seus colegas e sua relação com os pais de alunos e organizações comunitárias.
E, durante três momentos do ano, o plano de aulas de cada professor é vistoriado pelo diretor ou sub-diretor da escola.
No Japão, cada professor estabelece objetivos junto à direção da escola no início do ano, e no final do ano tem seu desempenho avaliado.
Resultados acadêmicos devem ser apenas uma parte da avaliação docenteImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionResultados acadêmicos devem ser apenas uma parte da avaliação docente
Durante o ano, aulas são supervisionadas por grupos de professores - e em alguns casos por inspetores e mesmo autoridades via vídeo. Em Hong Kong, as escolas realizam avaliações anuais, que o governo revê a cada três anos.

Informalidade

Mas nem todos os sistemas são tão formais. Na Finlândia, país que segue sendo um importante referencial educacional a nível internacional, embora tenha perdido posições nas últimas edições do PISA, a maneira de medir o desempenho dos professores é diferente.
No início da década de 90, o paíes europeu aboliu o sistema de inspeção escolar e hoje as avaliações têm lugar na própria escola, com base em conversas entre o professor e o diretor.
A Finlândia tem sistema de avaliação mais informal e baseado na confiançaImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionA Finlândia tem sistema de avaliação mais informal e baseado na confiança
"É um modelo baseado na confiança", diz Paulo Santiago, analista de educação da OCDE.
Mas Santiago afirma não haver um sistema que sirva para todos.
"Ele precisa ser adaptado ao contexto".

Panorama latinoamericano

Especialistas recomendam ainda que um modelo de avaliação precisa cumprir com as seguintes características: os padrões de medição devem estar bem estabelecidos, os professores devem conhecê-los e quem avalia os professores deve ter boa formação.
O Chile há 10 anos avalia seus professoresImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionO Chile há 10 anos avalia seus professores
Na América Latina, o país que há mais tempo avalia seus professores é o Chile.
O governo criou um sistema nacional em 2006, depois de uma longa negociação com os sindicatos. "E a partir de agora, com a promulgação da Lei da Carreira Docente, os professores da rede particular também serão avaliados", explica a BBC Mundo Cristián Cox Donoso, o especialista em estratégia docente da Unesco.
O processo inclui uma revisão do portfólio do professor, gravação de uma aula, entrevistas com examinadores e uma autoavaliação.
Os dados são alimentados a um computador, que calcula uma nota para o desempenho docente. E os resultados podem determinar se um professor vai receber aumento ou mesmo enviado para plano de reaprendizado para trabalhar em suas deficiências.
Países que avaliam professores apresentam melhores resultados educacionaisImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionPaíses que avaliam professores apresentam melhores resultados educacionais
Se não há melhora nas avaliações seguintes, o professor poder ser forçado a deixar de exercer a profissão.
Cox informa que, além de Chile e México, Colômbia e Peru também estão estudando ou introduzindo projetos do tipo.