22 de outubro de 2017

Jorge Werthein: A violência que vai à escola todo dia




Quem vai a campo conhecer a realidade das escolas brasileiras ouve relatos tão assustadores quanto revoltantes. Crianças e adolescentes revelam experiências de assédio moral e sexual, agressão verbal e física, dramas psicológicos variados. Mas a frequência e a reincidência dessas práticas causam mais que assombro e indignação. Despertam uma pergunta básica: por quê?
Onde estão os responsáveis por alunos tão jovens, antes, durante e depois de eles passarem por vivências traumatizantes? O que fizeram para prevenir, enfrentar ou solucionar o problema? Elegem corretamente suas prioridades em termos de educação? Enxergam e conhecem, de fato, os alunos que passam no mínimo quatro horas por dia na escola? Enxergam e conhecem, realmente, quem está perto deles enquanto estudam, brincam, lancham, conversam?
É inegável a relevância de fatores como número de matrícula, taxa de permanência na escola, desempenho escolar, indicadores de qualidade. No entanto, esses dados estão diretamente relacionados com o ambiente físico e, sobretudo, psicológico em que meninas e meninos adquirem conhecimentos que farão diferença pelo resto de suas vidas.
Quando um vigia provoca um incêndio que leva à morte crianças e a si próprio dentro de uma escola, o episódio gera comoção nacional. Mas corre o risco de cair no esquecimento. Quem ainda ouve falar da morte de mais de uma dezena de crianças numa escola de Realengo, em 7 de abril de 2011? Um atirador disparou à queima-roupa contra professoras e estudantes, suicidando-se em seguida.
Esses são casos extremos que ganham as manchetes. Há, porém, os crimes silenciosos, que raramente têm visibilidade e, portanto, se perpetuam sem que se tente impedi-los.
Ninguém suspeita de nada? Ninguém lê nas escolas os sinais que normalmente antecedem e caracterizam as diferentes formas de violência de que são alvos tantos estudantes? Ademais, como se sabe, a educação de meninas, meninos, adolescentes e jovens extrapola o âmbito familiar e envolve uma rede que vai dos gabinetes do poder público às salas de aula, passando por pátios, cantinas, quadras esportivas, entorno escolar. Todos têm sua parcela de responsabilidade pela saúde física e mental dos milhões de estudantes que hoje frequentam as mais de 200 mil escolas de educação básica do Brasil.
Cabe lembrar que os diversos tipos de violência não se restringem às instituições públicas de ensino. Incluem as particulares. Naturalmente, a falta de recursos das famílias de baixa renda agrava o quadro, pois elas geralmente não têm como apelar para trocas de sala, de escola ou de professores ou mesmo, em casos extremos, para contratar psicólogos, advogados ou quaisquer profissionais necessários para garantir o bem-estar da criança em situação de agravo.
Tudo isso se torna ainda mais preocupante quando se observa uma espécie de complexo de avestruz, pelo qual não enxergar a gravidade da situação ou negá-la é a única resposta a um drama que afeta estudantes, professor e o próprio sistema escolar.
Chama a atenção que um país como o Brasil, com uma das taxas mais altas de violência do mundo, despreze a necessidade de se pesquisar por que esses níveis inaceitáveis de outras formas de violência atingem as escolas. É de pequenos cidadãos que estamos tratando. Merecem políticas públicas que tornem visível o problema para enfrentá-lo imediatamente.
Jorge Werthein é sociólogo e foi representante da Unesco no Brasil e nos Estados Unidos

Bullying e violência nas escolas ainda são temas sem diagnostico no país


Bullying e violência nas escolas ainda são temas sem diagnostico no país

O Brasil não tem um mapeamento claro sobre a dimensão da violência dentro das escolas. Não há estudos abrangentes sobre a temática, o que, segundo especialistas, dificulta não só um diagnóstico do problema, mas também uma intervenção mais adequada.
Miriam Abramovay, que pesquisa sobre violência nas escolas, afirma que não é possível saber quais são os fatores de risco, tampouco possíveis estratégias de proteção.
"Estados e municípios não querem ver expostos dados negativos, muito menos sobre a violência nas escolas", diz ela, ligada à Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). Para ela, escolas do sistema privado podem ser ainda mais resistentes.
Em parceria com o Ministério da Educação e a OEI (Organização dos Estados Ibero-Americanos), a Flacso realizou uma pesquisa em 2015 com 6.700 estudantes das sete capitais mais violentas do país. Divulgado no ano passado, é o último levantamento de maior fôlego feito no Brasil.
Quatro em cada dez estudantes (do 6º ano do ensino fundamental ao 3º do médio) afirmaram já terem sofrido violência física ou verbal dentro da escola no último ano.
Em 65% dos casos, o agressor foi um colega –15% assumem já ter cometido alguma violência. Um quarto das agressões relatadas ocorreram dentro da sala de aula.
A psicopedagoga Quézia Bombonatto afirma que a problemática envolve alunos, escolas e famílias. "As escolas precisam sempre conversar com o grupo, é um trabalho que precisa ser feito permanentemente, sem esperar que algo aconteça", diz ela, conselheira vitalícia da Associação Brasileira de Psicopedagogia.
Mudanças de comportamento, queda de rendimento e desinteresse em ir à escola, por exemplo, podem ser sinais de que algo pode estar errado. "Tanto a vítima de ataques quanto o algoz precisam de atendimento."
A falta do diagnóstico não significa que nada tem sido feito. Nas escolas públicas de ensino fundamental, 74% dos diretores dizem que têm projetos com a temática da violência e 83%, sobre bullying. Os dados são do questionário da Prova Brasil de 2015. 


21 de outubro de 2017

Combinação fatal entre ‘bullying’ e armas aumenta chances de novas tragédias




SÃO PAULO E RIO — A combinação do que especialistas chamam de “bullying crônico” com o acesso facilitado a armas por parte até de crianças e adolescentes aumenta a chance de possíveis novas tragédias como a que aconteceu na sexta-feira em Goiânia. Segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO, a eventual falha na segurança das escolas também pode reforçar esse risco.

Segundo a psicóloga Iolete Ribeiro da Silva, do Conselho Federal de Psicologia, os estudante costumam ter duas reações após episódios de bullying: o isolamento ou a reação. Iolete afirmou que os efeitos são diferentes de acordo com a idade: quanto mais novos, menos recursos emocionais a criança terá para lidar com a violência de colegas.
— Não é algo que se limita à fase da adolescência. Em todos os níveis de ensino esses episódios acontecem e, na maioria dos casos, a escola não se posiciona — disse.
Pesquisa do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), de abril deste ano, mostrou que 17,5% dos estudantes brasileiros na faixa dos 15 anos disseram ter sofrido algum tipo de bullying. Os dados mostram que as formas mais comuns são zombarias de colegas ou, em 3,2% dos casos, agressões físicas.
— Nessa situação, falharam os pais e falhou a escola. E quem vai pagar são as vítimas e o menino que fez os disparos, que também vai ter sua vida destruída. Alguém falhou com ele. Enquanto estivermos fazendo apenas campanhas de “diga não ao bullying” e as políticas públicas não estiverem voltadas de fato para projetos sistematizados a partir de investigações e não de senso comum, continuaremos vendo casos assim — criticou a pesquisadora da Unesp Luciene Tognetta, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem).
Os dados do Pisa detalham ainda os tipos de bullying sofridos. De acordo com a estatística, 9,3% do brasileiros relataram que já foram alvo de zombarias dos colegas algumas vezes por mês. Outros 3,2% afirmam que já sofreram alguma agressão física na mesma frequência.
CRISE NA SEGURANÇA PÚBLICA
Os especialistas orientam que os pais devem estar atentos ao comportamento dos filhos para identificar tanto se eles sofrem quanto se praticam o bullying, para solucionar o problema o quanto antes.
No caso do Brasil, os estudantes de escolas onde há alta prevalência de bullying tendem a registrar 20 pontos a menos na prova de ciências do Pisa, em comparação com unidades onde o nível de agressão é baixo.
Para Neide Noffs, psicopedagoga e titular da faculdade de Educação da PUC de São Paulo, a “crise social complexa”, acentuada pela violência das grandes cidades brasileiras, também colabora para que reações extremas ocorram.
— O Brasil tem morros ocupados pelo narcotráfico, por gente armada. Arma acessível, que muitos acreditam que pode ajudar a resolver seus problemas na base da agressão — argumentou Noffs.
Ela destacou ainda que os sinais nos casos de bullying são quase sempre evidentes. Segundo a especialista, além da dificuldade de crianças e adolescentes de lidarem com atos de violência, a escola é responsável por identificar quando algo errado ocorre.
— Quais eram os sinais? Um aluno deslocado na sala, por exemplo. Como nenhum adulto percebe? É uma falha, sempre há sinais, como um isolamento no recreio — afirmou.
Presidente da seção goiana da Associação de Psicopedagogia, Lucila Menezes Guedes Monferrari também lembrou que o bullying leva desde casos extremos, como o de ontem, até danos psicológicos leves em estudantes.
— No bullying, todos sofrem: a vítima, quem pratica, as testemunhas. É uma violência que leva à dificuldade de aprendizagem e principalmente dificuldade de criar vínculos sociais — disse.
A origem da agressão, muitas vezes, pode estar ligada a sofrimento de quem ataca colegas de sala, seja com xingamentos ou violência.
— Os meninos que fazem bullying são crianças que têm comportamento agressivo, podem até ser ex-vítimas e, geralmente, têm pais que reforçam esse comportamento, porque acham legal que o filho comande a turma — afirma o psiquiatra infantil Fabio Barbirato.

Palco de ataques, EUA debatem armar professores para defender estudantes


Newtown Bee - 14.dez.2012/Associated Press
Policiais levam crianças da Sandy Hook Elementary School em fila, em Newtown, em Connecticut (EUA). Escola que sofreu massacre pelo jovem Adam Lanza. *** FILE - In this Dec. 14, 2012 file photo provided by the Newtown Bee, Connecticut State Police lead a line of children from the Sandy Hook Elementary School in Newtown, Conn., where gunman Adam Lanza opened fire, killing 26 people, including 20 children. (AP Photo/Newtown Bee, Shannon Hicks, File) MANDATORY CREDIT: NEWTOWN BEE, SHANNON HICKS ORG XMIT: BX802
Polícia de Connecticut forma fila de crianças em escola em Newtown apóis massacre em 2012
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Nos Estados Unidos, país que registrou 242 ataques com armas em escolas e universidades nos últimos cinco anos, o debate sobre a forma mais efetiva de prevenir esse tipo de crime passa por opções tão distintas quanto um maior controle sobre a venda de armas, a permissão de que professores possuam armas para defesa dos estudantes e uma abordagem para identificar e tratar jovens que possam se tornar um futuro agressor.
A discussão é polarizada como tudo o que envolve o direito ao porte de armas nos EUA, garantido pela Segunda Emenda da Constituição.
Segundo levantamento recente do Centro de Pesquisas Pew, 66% que possuem ao menos uma arma apoiam a ideia de que professores e funcionários portem armas em escolas de ensino primário para defender alunos. Entre quem não tem armas, o percentual cai para 35%.
O debate se acentuou após o massacre da escola primária Sandy Hook, em Newtown, Connecticut, em dezembro de 2012, onde um atirador matou 20 crianças entre seis e sete anos e seis adultos.
Uma lei federal americana de 1994 proíbe a posse de armas dentro e num raio de até 300 metros de uma escola primária. Em oito Estados, no entanto, a proibição não se aplica a quem tiver autorização de possuir armas. Alguns distritos escolares, como Hanover, em Colorado Springs (Colorado), inclusive, decidiram recentemente, por votação, permitir que professores levem armas para a sala de aula.
Para a especialista da Universidade do Sul da Califórnia Marleen Wong, que foi assessora do Departamento de Educação no governo Obama para a prevenção de ataques com armas em escolas, a solução não é a ideal para o problema: "Não acho que devam haver armas nas escolas".
Wong é defensora de programas como o Projeto Aware (alerta, em inglês), do governo federal, que tem como foco treinar professores e funcionários de escolas para identificar adolescentes que sinalizem qualquer tipo de comportamento ou transtorno mental que possa levar a uma ação extrema.
"Os professores podem observar mudanças no histórico escolar, com notas caindo de repente, ou no comportamento do estudante que passa a brigar mais com outras pessoas, fazer desenhos perturbadores ou escrever textos sobre machucar outras pessoas."
Segundo Wong, há um padrão de isolamento entre os autores desse tipo de crime que muitas vezes não é percebido ou é até negligenciado por familiares e pela escola. "Em muitos casos, o jovem chega a verbalizar o que pretende fazer para outros estudantes, mas eles minimizam, acham que é uma piada e não contam a ninguém", diz.
No caso do adolescente de 14 anos que matou estudantes a tiros nesta sexta (20) em Goiânia (GO), o garoto disse à polícia ter matado os colegas porque sofria bullying.
O atirador também afirmou aos policiais ter se inspirado no massacre da Columbine High School, em 1999, nos EUA, crime ocorrido quatro anos antes de ele nascer. Na tragédia que chocou o país e o mundo, dois adolescentes armados mataram 13 estudantes e um professor na escola de Littleton, no Colorado.
"Muitas vezes esses jovens se identificam com outros que cometeram ataques e chegam à conclusão de que essa é a maneira possível de resolver os problemas", diz Wong.
Segundo um levantamento da Everytown for Gun Safety, uma das principais organizações de lobby contra as armas, dos 242 ataques registrados em escolas e universidades americanas desde 2013 (33 só em 2017), mais da metade (53%) ocorreu numa escola primária. Entram na conta apenas as ações em que uma arma é disparada dentro de uma escola ou de um campus.
Uma análise feita com os dados dos 160 ataques registrados até o fim de 2015 (e que deixaram 59 mortos e 124 feridos nos EUA), mostrou que mais da metade dos jovens que atiraram teve acesso à arma dentro de casa. No caso de Goiânia, a arma usada pelo garoto era da mãe, que é policial militar, assim como o pai.
De acordo com um levantamento recente do Centro de Pesquisas Pew, dos adultos americanos que possuem pelo menos uma arma, 38% dizem mantê-la carregada e "com fácil acesso" em casa e 17% dizem fazer isso "a maior parte do tempo". Um terço deles diz que nunca guarda a arma carregada. 


É hora de entender que o bullying está levando ao óbito, diz psicólogo


Por trás do ato do estudante de 14 anos que, vítima de bullying, foi à escola e abriu fogo contra colegas em Goiânia, há uma teia de problemas que, com a escola no centro, envolve as famílias, as instituições, a espetacularização da violência e também a recorrência de visões radicais na sociedade.
Essa é avaliação do psicólogo Sergio Kodato, 63, coordenador do Observatório de Violência e Práticas Exemplares ligado à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto –onde leciona. "A discussão radical é de uma eliminação do opositor, para, na verdade, não lidar com o conflito", diz.
Para ele, os conflitos vão sempre aparecer na escola, mas precisam ser resolvidos.
Edson Silva - 7.dez.2012/Folhapress
RIBEIRAO PRETO, SP, BRASIL, 07-12-2012: Sergio Kodato psicólogo da USP, criador do Observatorio da Violencia, sobre a nova onda de criminalidade no Estado e na regiao. ( Foto: Edson Silva/Folhapress) ***REGIONAIS***ESPECIAL****
O psicólogo Sérgio Kodato, coordenador do Observatório de Violência e Práticas Exemplares, da USP de Ribeir]ao Preto
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Pelas informações de colegas, o adolescente que efetuou os disparos sofria bullying, um termo que recentemente ganhou presença no debate, sendo muitas vezes até banalizado. Como é possível relacionar essa discussão com um caso dessa gravidade?
Houve um período que foi quase moda falar em bullying. Depois, parece que foi se esquecendo, mas o bullying acabou se integrando à cultura dos jovens. Tornou-se uma forma dos adolescentes descarregarem sua agressividade elegendo um, dois ou um grupo de bodes expiatórios. Que são intensamente gozados e vitimizados. E isso vai calhar com características psicológicas dessas vítimas. É como se houvesse indivíduos que têm vocação para ser bode expiatório, geralmente aqueles chamados de nerds, mais calados, com alguma deficiência.
Mas como isso se caracteriza até que chegue a uma violência mais extrema como essa?
É uma coisa contínua, sistemática, e o jovem vai remoendo. Nesse caso especifico, chama a atenção que o modus operandi é muito parecido com o de serial killers americanos. E episódios como esse são espetacularizados pela mídia. Então, para esse indivíduo, serve como método. Desde o episódio de Columbine, serial killers são vítimas de bullying que sofrem calados e vão se transformando em uma bomba ambulante. Vão alimentando desejos de vingança. E, como ocorre em outros casos, a espetacularização tem um efeito mimético.
Mas por que a recorrência de casos dentro de escolas?
A escola é um lugar da negociação, é essencialmente onde os conflitos vão aparecer. Nossa luta é que professores e toda equipe se preocupem com medidas de resolução, de modo negociado. Isso não é feito. Isso passa pelos pais, que muitas vezes vão para brigar nas escolas.
Isso afeta todas as escolas de maneira igual?
Existem escolas mais abertas e escolas intolerantes, o que tem a ver com a gestão. Se uma gestão promove a diversidade, a negociação, não deixa acontecer. Se a direção é mais travada, os alunos não enxergam um canal de diálogo. Porque os conflitos precisam ser resolvidos de alguma forma. A escola tem que se preocupar com aqueles que parecem mal humorados, preocupados, porque são os que potencialmente geram situações de conflitos.
E esse jovens acabam se sentindo sozinhos...
Quando você está sozinho, acuado, vai recorrer a essa saída violenta. Porque a representação que tem é que todo mundo está contra você. Acaba gerando uma situação que chamamos de "ideação suicida", e o jovem começa a pensar em matar. "Todo mundo está contra mim, meu pai não sabe o que fazer". E como a mídia já deu um modelo...
Existe uma faixa etária em que a preocupação com esse comportamento tem de ser maior?
Sim, é a adolescência, onde tem o desenvolvimento moral. Que é quando, segundo [o psicólogo Jean] Piaget, o julgamento moral ainda está se formando. Há um processo de desenvolvimento da anomia, depois passa pela heteronomia, onde se radicaliza. [Nesse momento], tenho que entender que o certo é certo, o errado é errado. Depois é que vem a autonomia, quando vai se discutir, fazer o meio termo. A escola não propicia essa passagem, a família não desenvolve isso. As instituições no Brasil ainda estão na heteronomia, por isso tem esse radicalismo, um fanatismo. Este é um momento em que a questão moral precisa ser balanceada na escola. Mas tem ainda a questão da impotência e rejeição, seja da família ou dos professores.
Em que medida a violência na sociedade, e o aprofundamento de visões radicais, tem relação com conflitos dentro do ambiente escolar?
Geralmente, a discussão radical é de uma eliminação do opositor, para, na verdade, não lidar com o conflito. Precisamos problematizar o preconceito, por exemplo, mas o que se vê é é o acirramento do conflito, do racismo, homofobia, na política.
Como essa escola pode superar um trauma como esse?
Sabe-se que diante de uma situação traumática, tende-se a esquecer e negar. O problema é que a situação traumática volta na sua consciência. Aquele cadáver está ali. A escola tem discutir a segurança do ponto de vista escolar e comunitário, as razões. A catástrofe e a tragédia, para ser superada, precisa ser expressada. Por isso os artistas representam as catástrofes, é uma forma de elaboração. Se essa escola quiser continuar, vai entrar num período de luto, chorar as perdas, mas tem de pensar nas lições.
E em outras escolas, é hora de falar sobre o assunto é melhor adiar uma abordagem?
É o momento de se preocupar e ver que o bullying está levando ao óbito. Todas as escolas deveriam se preocupar com mecanismos de mediação. Ter urnas, canal de denúncias, para que quem sofre ter a quem recorrer. Os conflitos devem ser resolvidos na sala, porque está se formando cidadania. E precisamos ensinar como encarar os conflitos de forma civilizada.
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RAIO-X

Formação Possui graduação em psicologia (1978), mestrado (1988) e doutorado (1996) em psicologia escolar e do desenvolvimento humano pela USP
Trajetória É coordenador do Observatório de Violência e Práticas Exemplares, da USP de Ribeirão Preto, onde leciona. É autor de "O Brasil fugiu da escola: motivação, criatividade e sentido para a vida escolar" (Ed. Butterfly, 2011) 

O cinema vai à escola, Sergio Conti


Bruna Barros/Editoria de Arte/Folhapress
Os anos na escola não cicatrizam. Há quem nem passe perto de onde estudou, para não reviver a solidão e o tédio nas salas de aula. Já outros não se livram da escola. Chamam-se professores. O aprendizado jaz na memória. Mas basta ver na tela um recreio para que as lembranças voltem.
Há três filmes sobre a formação escolar em cartaz, vindos de países diferentes. Como se situam no presente, a nostalgia que despertam é marginal. O que eles sugerem é a comparação de como se vive –e se filma– a escola na França, nos Estados Unidos e no Brasil.
"O Melhor Professor da Minha Vida" integra uma rica estirpe: o filme escolar é todo um gênero na França. Ele começa com a obra-prima "Zero de Conduta", de Vigo, passa por "Ser e Ter", de Philibert, e ganha a Palma de Ouro com "Entre os Muros da Escola", de Cantet.
A existência precede a essência: os filmes são excelentes porque a escola pública e laica, construída ao longo de séculos, virou viga-mestra da República. "O Melhor Professor" trata justamente das rachaduras nesse pilar do igualitarismo à francesa.
Seu protagonista é um nariz empinado de um afamado liceu parisiense que, sem querer, vai dar aula numa perifa brava. Ali, só há pobres e negros. Ao contrário de seus alunos da elite, eles o enfrentam. Não têm os bons modos de "Les Misérables", de revolucionários de musical da Broadway.
Os estudantes são filhos do povo das ex-colônias, explorada até o talo sob o lema "liberdade-igualdade-fraternidade". O professor republicano deve lhes revelar "Os Miseráveis" de fato, os do romance de Victor Hugo. Deve levá-los a Versalhes, quando querem conhecer o parque Asterix.
Se "O Melhor Professor" coloca questões pertinentes da escola francesa, elas logo são diluídas por uma lenga-lenga que edulcora conflitos e apregoa: só o amor constrói.
O professor acaba aprendendo lições acerca do sentido da vida. O Virgílio que o guia pelo inferno da periferia é um pirralho rude, que por sua vez vê um amigo no representante da República. O desenlace fica a meio caminho entre a fantasia libertadora e o melodrama barato.
"A Morte te dá Parabéns" é uma dessas comédias vespertinas da televisão. Seu pressuposto confesso é "Feitiço do Tempo", com Bill Murray: uma aluna de faculdade acorda todas as manhãs no mesmo dia, que se repete indefinidamente.
À diferença do meteorologista de Murray, a heroína de "Parabéns", além de ser pérfida, é assassinada ao final do dia de seu aniversário. O filme elucida quem mata a estudante, ao mesmo tempo em que registra como a moça má fica boazinha. Moral da história: só a morte constrói.
Apesar de ambientado num campus, a escola está ausente do filme. Aparecem auditórios, dormitórios e refeitórios. Mas não se sabe nem que curso a moça faz. A escola é apenas cenário para sustos. A vida real se passa alhures.
Não se acuse desse mal "Como se Tornar o Pior Aluno da Escola", o filme nacional mais depressivo dos últimos anos. À sua maneira torpe, ele mostra um pedaço cada vez maior do Brasil: ressentido, vulgar, bruto e burro.
"Pior Aluno" fala de um menino que, para passar de ano, arruma um mentor (Danilo Gentili). O guru vive num hotel de luxo, não trabalha, fica na banheira com duas beldades mudas, chantageia e rouba. Ele ensina o pupilo como vencer na vida: trapaceando, agredindo e destruindo a escola.
É possível ser grosso e ter graça, como Sacha Baron Cohen fez em "Borat". O que é penoso de ver são cenas infindáveis, em close, com fezes e urina, vômito e ranho. Na apoteose do filme, as privadas da escola entram em erupção e os excrementos são despejados num professor.
Mais nojento que isso só o empenho do filme em provar que a educação é para os fracos. Perto de "Pior Aluno", "Escolinha do Professor Raimundo" é iluminista. 


20 de outubro de 2017

'Até agora o bullying não foi levado a sério', dizem especialistas

'1 OGlobo by Paula Ferreira  /  

— A suspeita de que o autor dos disparos que deixaram pelo menos dois mortos em uma escola em Goiânia seja alvo de bullying pelos colegas reascendeu a discussão sobre o tema. No Brasil, segundo dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) divulgados em abril deste ano, 17,5% dos alunos brasileiros, na faixa dos 15 anos, que participaram da última edição do exame são alvo de algum tipo de bullying pelo menos algumas vezes no mês. Mas, embora o número seja alto, especialistas destacam a questão ainda é relegada a segundo plano tanto pelas escolas, quanto pelo poder público.
As médias de bullying nas escolas brasileiras são ligeiramente inferiores à registrada nos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que realiza o Pisa, onde 18,7% dos estudantes relataram sofrer com as agressões.
— Nessa situação falharam os pais e falhou a escola e quem vai pagar são as vítimas, e menino que fez os disparos, que também vai peder a vida. Alguém falhou com ele. Enquanto estivermos fazendo apenas campanhas de "diga não ao bullying", e as políticas públicas não pensarem de fato em projetos sistematizados a partir de investigações e não de senso comum, continuaremos vendo casos assim- criticou a pesquisadora da Unesp Luciene Tognetta, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem). — Não temos incentivos a políticas públicas sobre o tema, porque também não temos incentivo a pesquisas na área de ciências humanas no Brasil. É necessário deixar claro que, infelizmente, nesse país temos um atraso terrível em pensar questões de convivência na escola.
Luciene é uma das coordenadoras de um programa de combate ao bullying presente em 11 escolas públicas e particulares no estado de São Paulo. No projeto, desenvolvido pelo Gepem, pesquisadores da Unesp e da Unicamp treinam alunos dessas instituições para atuarem ativamente contra esse tipo de comportamento, formando as chamadas "Equipes de ajuda". Os estudantes aprendem como identificar vítimas e agressores, e são instruídos a mediar os conflitos entre eles. A experiência na área, de acordo com Luciene, evidencia outro problema recorrente: a falta de formação dos professores para lidar com os casos.
— Qual o plano mais eficaz para que o bullying não aconteça? O jeito é que os alunos possam ser protagonistas e intervir, mas para isso preciso de professores formados que entendam essa necessidade e informem seus alunos. O bullying é um problema de convivência entre pares que não só muitos professores ignoram, porque estão preocupados com o conteúdo que vai cair no vestibular, como desconhecem, porque nunca tiveram formação sobre isso.
A educadora Andrea Ramal defende que o tema seja colocado no centro do debate educacional e não seja apenas visto como um tópico secundário.
— Até agora o bullying não foi levado a sério. Ele é trabalhado de uma maneira muito isolada nas escolas. Às vezes há um projeto que promove empatia, mas na maior parte das vezes, as escolas ainda fazem vista grossa, não chamam as famílias para conversar. Quando há um caso desse, as pessoas acordam para o problema, os pais falam com os filhos, as escolas fazem projetos, mas depois de um tempo tudo acaba esquecido.
Os dados do Pisa detalham ainda os tipos de bullying sofridos. De acordo com a estatística, 9,3% do brasileiros relataram que já foram alvo de zombarias dos colegas algumas vezes por mês. Entre os países da OCDE a taxa é de 10,9%. Outros 3,2% afirmam que já sofreram alguma agressão física na mesma frequência. A média da OCDE foi 4,3%. Os especialistas orienta que os país devem estar atentos ao comportamento dos filhos para identificar tanto se ele sofre, ou se pratica o bullying com colegas e solucionar o problema o quanto antes.
— Os meninos que fazem bullying são crianças que têm comportamento agressivo, podem até ser ex-vitimas, e, geralmente, têm pais que reforçam esse comportamento, porque acham legal que o filho comande a turma. Se o filho tem um temperamento forte, se quer fazer que a brincadeiras somente do jeito dele pode ser um indício. Quem é a vítima? um jovem pouco assertivo, que tem comportamento passivo, que não reage quando é incomodado. Pode não querer ir à escola e apresentar queda no rendimento escolar— afirma o psiquiatra infantil Fábio Barbirato, que atendeu algumas vítimas do massacre de Realengo, quando um jovem invandiu uma escola na Zona Oeste do Rio e matou 12 crianças.
CONSEQUÊNCIAS PRECISAM SER TRATADAS
A avaliação internacional também mostrou o impacto das agressões sobre as notas. No caso do Brasil, os estudantes de escolas onde há alta prevalência de bullying tendem a registrar 20 pontos a menos na prova de ciências do Pisa em comparação com unidades onde o nível de agressão é baixo.
Após o trauma, o psiquiatra alerta que a partir de agora é importante cuidar das sequelas tanto das vítimas do atentado em Goiânia, quanto do menino que efetuou os disparos.
— A reação ao bullying depende de cada indivíduo, alguns desenvolvem um quadro depressivo, outros um quadro de irritabilidade que culmina em um tiro. O que aconteceu hoje não é diferente do que aconteceu em Columbine. Não é uma perversidade, maldade, porque quando é perverso, você faz para não ser pego. Foi uma conduta inadequada, impusliva, de alguém que, de alguma forma, estava sob uma panela de pressão que explodiu e não teve apoio e suporte de todos os meios envolvidos. São sequelas que precisam ser trabalhadas nas vítimas e no autor.