15 de agosto de 2017

Apple Classroom of Tomorrow: A Glimpse into the Past by larrycuban

Apple Classroom of Tomorrow (ACOT) began in 1985 with three classrooms in which every student had access to a desktop computer at school and at home. This 1:1 ratio in a classroom at this time when most schools had 125 students per computer was not only innovative but rare.  As the head of the Apple-sponsored research said: "we set out to investigate how routine use of technology by teachers and students would affect teaching and learning."
While much has been written about the pluses and minuses of ACOT after it shut down a decade later (see herehere, and here), a glimpse inside one of those classrooms in its first year is like seeing a fossil preserved in amber.
Researcher Jane David described her visit in May 1986 to a fifth grade classroom in Blue Earth school (then a K-12 school housing all students in the rural Minnesota district). One of three initial classrooms chosen to participate in the experiment, David's description of  her two day visit to the classroom raises questions that in 2017 are just as relevant about routine use of devices in the nation's classroom. Here is, in part, what she had to say.*
The ACOT classroom is one of three fifth-grade classes in Blue Earth's only school, a K-12 school with roughly 1000 students and 250 computers.** The number of computers reflects the fact that Blue Earth has been in the forefront of computer use in schools even prior to ACOT....
The ACOT fifth grade class consists of advanced students who averaged in the 99th percentile on previous standardized tests and began the year with keyboarding skills ranging from 30-80 words per minute. These students were introduced to keyboarding in the third grade and participated in the Project Beacon classroom in the fourth grade [part of large, three-year state grant called the Beacon project]. Moreover, ACOT is enhanced by school leadership and hence a climate that encourages innovative uses of computers. From the classroom to the library, cafeteria, nurse's office andcentral office, computers are am integral part of the daily routine.
The ACOT [fifth grade] teacher began teaching in 1980 with no computer background. Seeing computers at the school, he purchased an Apple and taught himself Appleworks. With $100 from Apple, he took a course in Logo.
In the ACOT classroom, the computers are arranged in five rows going away from the teacher's desk; four of the five rows are adjacent (with monitors back-to-back). All computers are on three-shelf work stations, with storage beneath and monitors on top. A printer is located at the end of the double rows and a large monitor above a chalkboard in the front of the room and a second large monitor on one side wall.
The computers in the ACOT classroom are used roughly 50% of the time. Word processing is the main use, with applications ranging from daily journal writing to dictation in which students enter answers to oral questions and then reorganize the information into a story or poem. Students have also created a class newspaper using Newsroom and have personal dictionaries (databases which sit on the desktop)consisting of the words they have difficulty spelling (which they quiz each other on). The most advanced students use a math CAI program with a spiral of math skills....
David also looked at a classroom in Eugene (OR) and described that as well in her report to Apple. After summarizing the information she gathered from the two visits to these classrooms, she offered research questions that she felt needed to be answered when a full study of the half-dozen or more ACOT classrooms were done. The research questions covered the influence of computers on how teachers taught, how students reacted to computers, and how organizational and physical arrangements affect the use of computers.
These questions, I believe, are just as relevant for researchers to investigate as for practitioners to consider now as they were then. For example,
#Do computers change the way teachers teach?
#How are computers used instructionally?
#Do computers simplify or complicate teaching?
David also was sensitive to the organizational constraints teachers faced in using 1:1 devices within the confines of the age-graded school within a district and state that had its own requirements. For example, she says:
A number of ingrained characteristics of the existing system seem to run counter to a vision of students using computers as vehicles for exploration, independent learning, and individual pursuits.
-teacher-centered classrooms;
-curricular objectives required by the district or school;
-individual and school evaluations based on traditional standardized tests not sensitive to new kinds of learning;
-the need to 'stay with' the other classes in the school at the same grade level (pressure from teachers and parents);
-the need to prepare students in the way that the next grade's teachers expect (and ultimately graduation requirements.
All of the above questions--there are more in her report--and the imperatives of the Blue Earth age-graded elementary school nested in a district and state in 1986 are, in my opinion, not only a glimpse into the past but also a pointed reminder that efforts to integrate computers into daily lessons must reckon with these questions and imperatives in 2017.

14 de agosto de 2017

Ciência à míngua

14/08/2017  Folha de S.Paulo


Num Estado às voltas com profunda crise fiscal e orçamentária, não há setor público que escape à desorganização imposta por draconianos cortes de recursos. Cabe ao governante, entretanto, dosá-los com alguma inteligência, para não aleijar áreas estratégicas.
A pesquisa científica figura –ou deveria figurar– entre elas.
A produtividade alcançada, com o Brasil saltando da 1,39% para 2,57% da produção científica mundial entre 2003 e 2015 (de 19 mil para 63 mil artigos anuais), resulta de investimento de longo prazo na capacitação de cientistas e em equipamentos de laboratórios.
Um torniquete mal aplicado nas verbas, mais que atrasar alguns anos projetos de investigação, pode desencadear um processo de gangrena. Ou seja, a decadência irreversível de grupos de pesquisa, começando pela fuga de cérebros.
Foi o caso de Suzana Herculano-Houzel, destacada neurocientista e colunista desta Folha. Se não tivesse deixado o país há pouco mais de um ano, por não suportar a mediocridade e o corporativismo acadêmicos, teria mais razões para fazê-lo agora que a penúria asfixia as universidades públicas.
Não por acaso o exemplo mais catastrófico está no Rio de Janeiro, Estado falido sob a irresponsabilidade fiscal de governos do PMDB. Os 41 mil estudantes da universidade estadual (Uerj) viram adiado neste agosto o início das aulas que deveriam ter começado em fevereiro; falta dinheiro até para faxina.
A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), órgão federal de fomento à inovação, mal consegue honrar desembolsos dos projetos em andamento, devido ao contingenciamento de recursos.
Já o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) chegou ao limiar da inadimplência. O ministro da Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab (PSD), assegura recursos apenas para pagar as bolsas de pesquisa e pós-graduação no próximo mês.
Até o final do ano, o CNPq deveria receber R$ 570 milhões para honrar seus compromissos.
Não se trata de advogar que a ciência seja liberada da contenção fiscal, mas de registrar que o Planalto pode buscar alguma margem de manobra –a meta de ajuste orçamentário, afinal, está em processo de reavaliação– para não ferir de morte a pesquisa.
Das universidades e instituições de fomento deve ser exigido um esforço de austeridade e adaptação.
Maior eficiência na administração de recursos, solução para o crescente peso da folha de inativos, busca de receitas próprias em parcerias com o setor privado e quebra do tabu contra pagamento de anuidades por alunos com poder aquisitivo –eis aí um bom começo. 

11 de agosto de 2017

Educação desfocada


Apu Gomes - 19.ago.2011/Folhapress
SÃO PAULO, SP, BRASIL, 19-08-2011, 07h00: Alunos durante aula de Português, na Escola Estadual Washington Alves Natel, no Parque Residencial Cocáia, em São Paulo (SP). Escolas Estaduais de São Paulo possuem mais alunos em sala de aula que o recomendado MEC. (Foto: Apu Gomes/Folhapress, Cotidiano)
Sala de aula em escola pública de São Paulo
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Já se criticou aqui o Plano Nacional de Educação (PNE) por esparramar-se em 254 estratégias —poucas delas quantitativas, a permitir um acompanhamento objetivo. Mesmo estas, contudo, traçam um panorama desnorteado.
Os exemplos começam pela primeira meta, que era universalizar até o ano passado o acesso à educação infantil para crianças de 4 e 5 anos. O último dado disponível é de 2015: 90,5% de cobertura.
Parece pouco provável que 9,5% —meio milhão de crianças— tenham conseguido vagas em 2016. Meta descumprida, portanto.
Também se previa universalizar em 2016 a presença de jovens de 15 a 17 anos no sistema escolar, mesmo que em série inadequada para a faixa etária. Em 2015, a proporção estava em 84%. Vale dizer, ainda havia 1,5 milhão fora da escola.
Apenas seis de 30 itens do plano que deveriam ser cumpridos até 2017 foram efetivados, e alguns deles só parcialmente, avalia o Observatório do PNE (grupo de 24 organizações coordenadas pelo Movimento Todos pela Educação).
Além de destacar a falta de priorização e integração entres objetivos, o Observatório aponta como preocupante o escasso avanço no quesito da desigualdade.
Tome-se, por exemplo, o objetivo de chegar a 2024 com 50% das crianças até 3 anos matriculadas em creches. Quando se consideram só os 25% mais ricos da população, ele já foi alcançado: 52% dos meninos e meninas dessa idade têm vagas. No quartil dos domicílios mais pobres, entretanto, esse índice é de meros 22%.
A mesma disparidade se vê no outro extremo da educação básica, o ensino médio. Em 2015, menos de 63% dos jovens de 15 a 17 anos se encontravam nesse nível, mas a diferença na taxa de atendimento entre os mais ricos e os mais pobres era de 14 pontos percentuais.
O PNE pouco orienta sobre como focalizar o esforço pedagógico nos estratos desfavorecidos —que frequentam as piores escolas, em meio a uma qualidade média de ensino já indigente no país.
Ao contrário, o plano privilegia metas corporativistas e inexequíveis, como alcançar o investimento de 10% do PIB em educação.
Para enveredar num rumo virtuoso, a educação nacional precisa de providências mais básicas, como garantir ênfase a português e matemática na base curricular nacional, dar autonomia a professores e diretores e facilitar a demissão dos piores, além de fechar as escolas ruins ou entregá-las para a gestão de organizações sociais.

10 de agosto de 2017

Governo veta prioridade para metas de educação no orçamento de 2018

ANGELA PINHO

No mesmo dia em que culpou o governo Dilma Rousseff (PT) por metas não cumpridas do PNE (Plano Nacional de Educação), a gestão Michel Temer (PMDB) vetou artigo que dava prioridade ao plano no Orçamento de 2018.
O artigo vetado havia sido incluído na Lei de Diretrizes Orçamentárias pelo Congresso. O texto dizia que a alocação de recursos em educação teria como objetivo "o cumprimento das metas previstas no Plano Nacional de Educação". Afirmava ainda que era preciso implantar o CAQi (Custo Aluno Qualidade inicial).
O valor do CAQi é um considerado como patamar mínimo para garantir ensino de qualidade. Parâmetros já foram definidos pelo Conselho Nacional de Educação, mas precisariam de aval do MEC (Ministério da Educação) para entrar em vigor, o que não ocorreu ainda.
Ao justificar o veto, o governo Temer afirmou que priorizar o PNE "restringiria a discricionariedade" da União na implementação de políticas públicas e reduziria a flexibilidade em caso de ajustes necessários para o cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal.
A medida foi tomada no mesmo dia em que o governo culpou a gestão anterior por metas do Plano Nacional de Educação não cumpridas.
Em nota, o MEC afirma que o texto do veto "reflete uma posição técnica" dos ministérios do Planejamento e da Fazenda. "No entanto, não afeta em nada o orçamento do Ministério da Educação para 2018 e a prioridade do MEC com relação ao atingimento das metas do PNE."
ATRASO
Nas piores posições nas avaliações internacionais de alunos, o Brasil patina na execução de metas do PNE (Plano Nacional de Educação), que tem o objetivo de elevar a qualidade do ensino.
Discutidos por anos no Congresso, os objetivos que constam do documento tratam de temas como financiamento, organização dos sistemas de ensino e inclusão de crianças na escola.
No total, são 20 metas, com 254 estratégias associadas e 14 artigos que dizem o que país deveria fazer na área.
Os compromissos têm prazo escalonado até 2024. Trinta deles tinham como data-limite os anos de 2015, 2016 e 2017, mas, desses, apenas seis foram cumpridos, de acordo com estudo do Observatório do PNE, que reúne organizações da área.
Entre os itens não cumpridos, está o que prevê a inclusão de todas as crianças de 4 a 17 anos na escola (veja outros ao final). Segundo dados de 2015, ainda havia 2,5 milhões nessa faixa etária não matriculados.
Press Association
Aula de educação infantil
Sala de aula de educação infantil
Para financiar a inclusão das crianças e elevar os índices de qualidade de ensino, o plano previa a definição de um valor mínimo por aluno, o CAQi. O Conselho Nacional de Educação chegou a definir um valor, mas a decisão final está parada no MEC, que diz estar ainda atualizando os estudos sobre o tema.
Outra meta atrasada é a da instituição, até 2015, de uma Lei de Responsabilidade Educacional, que puniria gestores que não cumprissem os compromissos legais estabelecidos para a área. Há propostas nesse sentido em tramitação no Congresso, mas nenhuma obteve aprovação final.
Também não foi adiante a instituição de um Sistema Nacional de Educação, que distribuiria responsabilidades entre as esferas municipal, estadual e federal.
EXPLICAÇÕES
Entre as razões elencadas para as metas do PNE não terem sido alcançadas, está a crise econômica. "Quando o plano foi aprovado, havia a expectativa de usar uma parte da receita e royalties do petróleo", diz a secretária-executiva do MEC, Maria Helena Guimarães de Castro.
Em nota, o governo Michel Temer (PMDB) culpou a gestão Dilma Rousseff (PT), de quem ele era vice-presidente.
"A atual gestão —que assumiu em 13 de maio de 2016— recebeu o MEC com o descumprimento de todas as metas do PNE para 23 de junho de 2016 e praticamente todas as estratégias contidas no plano mal encaminhadas. Entre as ações da gestão anterior, foi possível encontrar programas sem planejamento, sem controle e com resultados insatisfatórios", disse o Ministério da Educação em nota.
Organizações não governamentais defendem um planejamento estratégico para definir um caminho para alcançar as metas.
O ex-ministro da Educação Aloísio Mercadante afirmou em nota que o PNE representou uma conquista histórica da educação brasileira e que, em sua gestão, o MEC criou um escritório de processos, responsável pelo detalhamento de metas e estratégia, estipulando os prazos e responsáveis pelos resultados.
Ele destaca ainda que a criação do PAR (Plano de Ações Articuladas), que permitiu o alinhamento das metas e que já tinha a adesão de mais de 5.000 municípios, 23 Estados e o DF ao término do governo Dilma, em maio de 2016. Outras instâncias fundamentais de pactuação também foram criadas e tiveram funcionamento regular durante o governo Dilma.
A jornalista viajou a convite da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação)
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ALGUMAS METAS QUE NÃO FORAM CUMPRIDAS NO PRAZO
1. Incluir todos os adolescentes de 15 a 17 anos na escola até 2016
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2. Elevar a alfabetização da população com 15 anos ou mais para 93,5% até 2015
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3. Garantir condições para a efetivação da gestão democrática da educação até 2016


9 de agosto de 2017

Pesquisas apontam educação como 'escudo' contra criminalidade

Estudos elaborados pelo TCE e por professor do Ipea apontam uma relação inversa entre o crime e o ensino. Quanto maiores são as taxas de escolarização, menores são os registros de violência.



Por Cristine Gallisa, RBS TV


Estudos elaborados pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul (TCE-RS) e pelo professor Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), do Rio de Janeiro, apontam uma relação inversa entre o crime e a educação. Quanto maiores são as taxas de escolarização, menores são os registros de violência.
Cerqueira analisou a escolaridade das vítimas de homicídios no Brasil entre 1980 e 2010, e descobriu que quem estuda mais tem menos chances de morrer de forma violenta. Segundo o professor, a cada 1% a mais de jovens entre 15 e 17 anos fora da escola, a taxa de homicídio numa determinada localidade aumenta 2%.
"Percebemos que a chance de alguém que não tem o Ensino Médio sofrer homicídio no Brasil é 15,9 vezes maior do que alguém que tenha nível superior, o que mostra que a educação é um verdadeiro escudo contra os homicídios no Brasil", diz o pesquisador.
Desde esta segunda-feira (7), o RBS Notícias exibe uma série de reportagens sobre a relação da educação com a violência. Confira nesta terça-feira (8) como o governo pode investir no ensino diante da crise.
Na pesquisa do TCE-RS, realizada em municípios com mais de 100 mil habitantes, foram comparadas as taxas de escolarização e os registros de casos de violência. "Em municípios onde tinha maior taxa de abandono do [ensino] fundamental, a taxa de homicídio doloso é maior, e naqueles em que a expectativa de anos de estudo é menor, também havia maior numero de homicídios", explica a auditora pública externa do TCE, Débora Brondani da Rocha.
Números de apenados no estado corroboram a relação. Mais 60% sequer concluíram o ensino fundamental, pois trocaram as salas de aula pelas ruas por volta do quinto ou sexto ano. É justamente nessa fase da vida, aos 12, 13 anos de idade, que os adolescentes podem encontrar no crime a identificação e o acolhimento que deveriam ter sido proporcionados pela escola.
"O maior critério de sucesso educacional seria sabermos quantos alunos não deixamos no meio do caminho", diz o professor.
Na faixa dos quatro aos 17 anos, 151 mil crianças e adolescentes ainda estão fora da sala de aula, segundo o movimento Todos pela Educação. Por trás do abandono, há escolas defasadas e sucateadas, além de problemas sociais que cercam as periferias.
"Você não dissocia a questão da educação da criança da realidade da família. O crime não é uma situação isolada, é uma decorrência. Quando você chega ao sistema prisional, o sistema prisional é a parte final do desastre social brasileiro", afirma o advogado e professor Luiz Marcelo Berger.

Quase 800 escolas a menos

A falta de recursos e de infraestrutura na educação gaúcha é mais um obstáculo na luta contra o crime. Nos últimos 20 anos, 793 escolas foram fechadas no estado, como aponta o Conselho Estadual de Educação.
Neste período, o investimento público em educação no estado passou de quase R$ 6 bilhões em 1997 para R$ 9,7 bilhões em 2015. Ainda assim, o montante é inferior ao previsto em lei. Desde 2001, os governos gaúchos não cumprem a Constituição Estadual, que manda destinar 35% dos impostos para a educação. No ano passado, a proporção ficou em 29,28%.
Berger defende um maior investimento na área em curto prazo para melhorar a situação das escolas no estado. "No mínimo entre cinco a 10 anos, que a gente comece a ter resultado se fizermos investimento a partir de agora. E essa é a pergunta que temos de fazer, se esse investimento vai vir ou não. E nós vamos qualificar esse investimento ou não vamos? Ou seja, vamos analisar se aquilo dá resultado ou não?", questiona.

Verba elevada para segurança

Enquanto falta investimento para educação, o dinheiro dos impostos destinado pelos governos para a segurança deu um salto, chegando a mais de R$ 5 bilhões em 2016. Ainda que o Poder Público não poupe recursos para combater o crime, as estatísticas aumentam, provando que só repressão não diminui a violência.
Desde 2012, o número de presos no Rio Grande do Sul saltou de 29 mil para 34 mil. Para abriga-los propriamente, o estado teria de criar cerca de 9,4 mil vagas, o que acarretaria em gastos de R$ 500 milhões.
"Não há política pública que vai resolver o problema da criminalidade no Brasil em um prazo de dois três anos", diz o professor de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Rogério Maia Garcia.

'Masmorras medievais'

O diretor do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados, José Vicente Tavares dos Santos, defende a educação em turno integral para evitar que os alunos. "As prisões não servem para nada, só para aumentar a capacidade criminal. As condições das prisões brasileiras, que são masmorras medievais, não ressocializam", disse.
Por cada preso cumprindo pena, o estado gasta hoje R$ 24 mil por ano, valor suficiente para manter três alunos em uma escola estadual. O gasto tem poucos resultados, já que o sistema penitenciário, sucateado e superlotado, recupera muito pouco. Cerca de 70% dos detentos de presídios do estado já haviam sido presos outras vezes.
"O Brasil prende muito, mas ao mesmo tempo prende mal, e se pensar em construir presídios para dar segmento a essa política de encarceramento em massa nós dificilmente vamos conseguir transformar isso em reflexos positivos, no que diz respeito à diminuição dos índices de criminalidade", diz Garcia.

8 de agosto de 2017

Como o Canadá se tornou uma superpotência em educação


Em debates sobre os melhores sistemas educacionais do mundo, os nomes mais citados costumam ser de países nórdicos, como a Noruega e a Finlândia, ou de potências como Cingapura e Coreia do Sul.
Embora seja muito menos lembrado, o Canadá subiu ao topo dos rankings internacionais.
Na mais recente rodada de exames do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, entidade que reúne países desenvolvidos), o Canadá ficou entre os dez melhores países em matemática, ciências e interpretação de texto.
As provas são o maior estudo internacional de desempenho escolar e mostram que os jovens do Canadá estão entre os mais bem educados do mundo.
Eles estão muito à frente de vizinhos como os Estados Unidos e de países europeus com quem têm laços culturais, como o Reino Unido e a França.
O Canadá também tem a maior proporção de adultos em idade produtiva com educação superior - 55%, em comparação com uma média de 35% de países da OCDE.
ALUNOS IMIGRANTES
O sucesso do Canadá em testes escolares é incomum ao ser comparado com tendências internacionais.
Os países com melhor desempenho costumam ser pequenos, com sociedades homogêneas e coesas e com cada pedaço do sistema educacional integrado a uma estratégia nacional - como em Cingapura, que tem sido usado como exemplo de progresso sistemático.
O Canadá nem sequer tem um sistema educacional nacional, pois a organização é baseada em províncias autônomas. E é difícil imaginar um contraste maior entre uma cidade-Estado como Cingapura e um país de dimensões continentais como o Canadá.
Em uma tentativa de entender o sucesso do Canadá na educação, a OCDE descreveu o papel do governo federal no setor como "limitado e às vezes inexistente".
Também é bem conhecido o fato de que o Canadá tem um alto número de imigrantes em suas escolas. Mais de um terço dos jovens no Canadá têm ambos os pais oriundos de outro país.
Os filhos das famílias de imigrantes recém-chegados se integram em um ritmo rápido o suficiente para ter o mesmo desempenho de seus colegas de classe.
Quando o último ranking da OCDE é analisado em detalhe, os resultados regionais do Canadá são ainda mais impressionantes.
Se as províncias se inscrevessem no teste como países separados, três delas (Alberta, Quebec e British Columbia) estariam entre os cinco primeiros lugares em ciências, junto com Cingapura e Japão e à frente de lugares como Finlândia e Hong Kong.
Afinal, como o Canadá superou tantos outros países na área de educação?
Andreas Schleicher, o diretor de educação da OCDE, diz a característica que une os diversos sistemas educacionais do país é a igualdade.
Apesar de diversas diferenças nas políticas educacionais, um traço em comum entre todas as regiões do país é o comprometimento em oferecer igualdade de oportunidades na escola.
Schleicher diz que existe um forte senso de equilíbrio e igualdade de acesso - o que pode ser observado na alta performance acadêmica de filhos de imigrantes.
Até três anos depois de chegar ao país, os alunos imigrantes alcançam notas tão altas quanto as de seus colegas. Isso torna o Canadá um dos poucos países em que crianças imigrantes atingem um patamar similar aos das não-imigrantes.
Outra característica distinta é que os professores são muito bem pagos em comparação com os padrões internacionais - e o ingresso na profissão é altamente seletivo.
OPORTUNIDADES IGUAIS
David Booth, professor do Instituto para Estudos em Educação da Universidade de Toronto, destaca um forte investimento de base em alfabetização.
Existiram esforços sistemáticos para melhorar a alfabetização, com a contratação de educadores bem treinados, investimento em recursos como bibliotecas nas escolas e avaliações para identificar escolas ou alunos que possam estar tendo dificuldades.
John Jerrim, do Instituto UCL de Educação de Londres, diz que o ótimo desempenho do Canadá nos rankings internacionais reflete a homogeneidade socioeconômica do país.
O país não é uma nação de extremos. Pelo contrário, seus resultados mostram uma média alta, com pouca diferença entre os estudantes mais e menos favorecidos.
No mais recente Pisa, o exame da OCDE, a variação de notas causada por diferenças socioeconômicas entre os estudantes canadenses foi de 9%, em comparação com 20% na França e 17% em Cingapura, por exemplo.
Os resultados mais igualitários explicam porque o Canadá está indo tão bem em exames internacionais. O país não tem nem uma fatia residual de estudantes com desempenho ruim, o que normalmente é algo relacionado à pobreza.
É um sistema consistente. Além da pouca diferença entre estudantes ricos e pobres, também há uma variação muito pequena entre diferentes escolas, em comparação com a média de países desenvolvidos.
Segundo o professor Jerrim, o alto número de imigrantes não é visto com um potencial entrave ao sucesso nos exames - o fato é provavelmente um dos ingredientes dos bons resultados.
Os imigrantes que vivem no Canadá, muitos de países como a China, a Índia e o Paquistão, têm educação relativamente alta, e a ambição de ver seus filhos se tornarem profissionais bem sucedidos.
O especialista afirma que essas famílias têm "fome de sucesso", e que suas altas expectativas provavelmente influenciam o desempenho escolar de seus filhos.
O professor Booth, da Universidade de Toronto, também cita esse fato. "Muitas famílias recém-chegadas ao Canadá querem que seus filhos tenham sucesso, e os alunos têm motivação para aprender", diz.
Este ano tem sido excepcional para a educação no Canadá. As universidades estão aproveitando o "efeito Donald Trump", com um número recorde de inscrições de estudantes que enxergam o Canadá como uma alternativa aos Estados Unidos após a eleição do atual presidente.
A vencedora do Prêmio Global de Professores também é canadense –Maggie MacDonnel está usando a condecoração para fazer campanha pelo direitos dos estudantes indígenas.
No ano em que celebra seu aniversário de 150 anos, o Canadá reivindica o status de uma superpotência em educação.

7 de agosto de 2017

O custo do analfabetismo para a vida do indivíduo


Com base em dados brasileiros, estudo feito pelo economista Ricardo Paes de Barros mostra o efeito do analfabetismo na saúde, na renda e no planejamento familiar do adulto

FLÁVIA YURI OSHIMA
03/08/2017 - 16h49 - Atualizado 03/08/2017 18h16
A alfabetização é a principal porta de acesso à educação formal. Não há discussão sobre isso. O que não se sabia até pouquíssimo tempo era o impacto da alfabetização no desenvolvimento geral da criança no decorrer da vida. Estudos internacionais começaram a trilhar esse caminho nesta década. Agora, um levantamento liderado por Ricardo Paes de Barroseconomista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, usou os dados do Censo Educacional, do Censo Brasileiro e outras informações do Brasil para mostrar o impacto da não alfabetização na saúde, nos ganhos financeiros e no planejamento familiar de cada indivíduo e de sua família.
O estudo se concentrou no perfil de adulto, homem, de 35 anos. A equipe de Paes de Barros comparou as informações de adultos que tenham largado a escola depois de alfabetizados com aqueles que largaram a escola antes de concluir esse processo. Os resultados mostram que os indicadores são piores em todos os aspectos para o segundo grupo.
Com base nos dados levantados pelo estudo, os pesquisadores chegaram a um índice de qualidade de vida. Essa medição considera que quanto mais próximo de 100% melhor é a qualidade de vida do indivíduo. Para adultos que não tenham concluído a escola, mas sejam plenamente alfabetizados, esse índice chega a 77%. Já para aqueles que não aprenderam a ler, esse percentual cai para 43%. Ao desdobrar esses dados, vê-se que até mesmo a saúde é afetada pela não alfabetização. 

Entre os alfabetizados, a probabilidade de ter uma boa saúde aos 35 anos é de 67%, enquanto entre os não letrados é de 56%. As chances de o primeiro grupo praticar esporte – o que contribuiria para a manutenção da boa saúde – é mais que o dobro em relação ao segundo grupo (45% entre aqueles que foram alfabetizados e 21%entre os que não foram). 
Trabalho e rendimento financeiro são bem mais desvantajosos para os não letrados. Enquanto homens alfabetizados registram 71%de probabilidade de ter um emprego formal, para os analfabetos esse percentual cai para 45%. A renda familiar per capta do primeiro grupo fica em R$ 1.200,00 enquanto a do segundo em R$ 600,00.
As desvantagens trazidas pela não alfabetização alcançam os filhos desses indivíduos. Os números brasileiros evidenciam que a probabilidade de os filhos de pai analfabeto terminarem o ensino médio com até um ano somente de atraso é de apenas 38%,enquanto entre os alfabetizados é de 69%. As oportunidades de acesso à creche e à educação infantil – dois preditores importantes de desenvolvimento adequado na vida adulta – também é menor entre os analfabetos: fica em 54% e 74%, respectivamente, em comparação a 63% e 84% para os adultos que largaram a escola depois de ter aprendido a ler. 
O analfabetismo é um problema que o Brasil ainda não aprendeu a resolver. De acordo com os últimos números oficiais, divulgados pelo governo em novembro de 2016, existem no Brasil 12,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais de idade que não sabem ler. Isso representa 8% dos brasileiros nessa faixa de idade. O Nordeste é a região que concentra o maior número de analfabetos, com 16,1%. O Sul e o Sudeste têm as menores taxas, com 4,1% e 4,3%,respectivamente. No Norte do país, 9% da população adulta não saber ler e no Centro-Oeste esse índice é de 5,7%. “A alfabetização é um meio imprescindível para a realização de todos os direitos humanos preconizados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela convenção do Direito das Crianças, pela Constituição brasileira, por qualquer lei internacional ou nacional sobre direitos do ser humano”, diz Ricardo Paes de Barros. “Não é preciso refletir muito para constatar que esse tema deveria ser priorizado.”

Bullying, exposição e golpes: o papel das escolas diante dos riscos da internet

Banir é impraticável: o caminho é a educação direcionada,

                             

 dizem especialistas


  • Ludimila Gonçalves, especial para a Gazeta do Povo,
  • [04/08/2017]


    Em 2015 uma estudante de 15 anos de Itanhaém, no litoral de São Paulo, pediu para ser transferida de escola após alguns colegas de classe compartilharem por WhatsApp montagens que a humilhavam. Na época, a diretoria não acreditou na aluna, o que intensificou os ataques dentro da escola – meses se passaram até ela e a mãe conseguirem provar após terem acesso às mensagens, e então a troca foi realizada. 

    Já em outro caso que ocorreu em uma escola pública de Brasília, há pouco mais de um ano, a humilhação envolveu 10 estudantes que foram expostas em uma montagem em vídeo com conotação sexual; fotos utilizadas no vídeo foram retiradas do próprio perfil nas redes sociais das vítimas, desde selfies na escola a fotos de biquíni. 
    A internet, parte importante da vida dos jovens, traz riscos com os quais eles não estão preparados para lidar. E, além da família, a escola tem um papel fundamental a desempenhar nessa área.
    Risco calculado? 
    Crianças hoje em idade escolar já nasceram em um mundo que não se desconecta. No Brasil, a última pesquisa do TIC Kids Online Brasil revelou que 79% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos estão ativas na internet – número que representa 23,7 milhões de jovens, sendo que 85% deles acessam pelo celular. 
    Com os aparelhos móveis elas têm mais privacidade ao navegar online, sem necessariamente ter a mediação dos responsáveis. Daí surgem os perigos.
    Para Rodrigo Njem, psicólogo e diretor de educação da ONG SaferNet Brasil, entre os principais problemas e riscos do uso da internet no ambiente escolar estão a “distração do aluno, cyberbullying (intimidação ou discriminação), exposição da intimidade e outras questões de privacidade, como roubo de dados”. 
    Um estudo divulgado ano passado pela NASUWT, um dos sindicatos de professores do Reino Unido, descobriu mais da metade dos professores estavam ciente de alunos que praticavam “sexting” (envio de imagens íntimas) dentro da escola. A maioria dos incidentes envolveu alunos de 13 a 16 anos, mas os professores disseram estar cientes da prática também na escola primária, com alunos de até sete anos. Metade dos docentes afirmaram que encontraram alunos usando mídias sociais para enviar insultos ou praticar bullying. 
    Cristina Sleiman, presidente da Comissão Especial de Educação Digital da OAB-SP, alerta que a internet permite ao aluno contatar pessoas que estão fora da escola. “Em caso de uso aleatório para comunicação externa, até aliciamento, a escola pode acabar responsabilizada. Por isso devem existir regras claras sobre o uso; eles têm que entender que é um risco para eles mesmos a não utilização adequada”. 
    Influenciando o ambiente 
    Uma pesquisa pela London School of Economics mostra que, após as escolas proibirem os celulares, o desempenho dos estudantes melhorou. Mas especialistas acreditam que já não é mais possível ter um controle completo sobre os dispositivos. 
    “Se falamos em educação e desenvolvimento, você não poder proibir tecnologia, por isso o melhor caminho é educação digital: educar para que crianças e adolescentes saibam usá-la de maneira ética e segura”, diz Cristina. 
    Na Escola da Vila, instituição de ensino particular em São Paulo, alunos a partir do 6º ano podem levar o celular. Em alguns casos os dispositivos são incluídos em atividades escolares e contam com uma rede Wi-Fi livre para uso. Segundo Helena Mendonça, Coordenadora de Tecnologias Educacionais, há, porém, um controle para que eles não o utilizem durante a aula. 
    ”Uma situação em que uma aluna posta uma foto inadequada de uma colega na rede social, por exemplo, ou um aluno acessa indevidamente a conta de outro, gera conflitos na escola. A partir dos casos que acontecem, propomos uma discussão e a equipe de orientação educacional acompanha os envolvidos e desenvolve campanhas que são direcionadas para toda a escola”, conta. 
    Problema global 
    A importância da escola para a educação digital do aluno ganha força em todo o mundo. Em junho o Google lançou nos EUA o projeto “Be Internet Awesome” (“Seja Incrível na Internet”, em tradução livre), que consiste em uma plataforma informativa para pais e professores com princípios para uma internet segura. Para as crianças há um jogo interativo chamado “Interland”, em que elas devem combater hackers, phishers (golpistas online), oversharers (aqueles que compartilham informações em excesso na rede) e valentões, praticando as habilidades que precisam para serem bons cidadãos digitais. O objetivo é fazer com que os jovens tomem decisões inteligentes por conta própria. 
    De acordo com Sonia Livingstone, da London School of Economics and Political Science, mesmo que sejam nativas digitais, “crianças não necessariamente sabem tudo sobre como usar a internet”. Sonia afirma ainda que a visão dos adultos europeus mudou nos últimos anos, com uma maior percepção de que eles devem ser responsáveis por manter as crianças seguras na internet, mas que elas também devem desenvolver habilidades para se manterem seguras por conta própria. 
    A questão de uma idade mínima para a criança usar livremente a internet surge, então, naturalmente. Para Nejm um comparativo simples pode ajudar a responder a questão. “A criança tem capacidade de sair sozinha na rua? Ela já tem estabelecidos os parâmetros de segurança, de autocuidado e autoproteção? Ou ela ainda tem certa dependência? Se ela não tem maturidade para ficar sozinha no mundo real, o mundo digital é tão grande ou maior que o bairro onde ela mora. Pais e educadores precisam ter sempre essa referência”, diz.