25 de setembro de 2017

Como Darwin matou a charada do processo civilizador, José Eli da Veiga


A parte não humana da natureza é absolutamente regida pela lei da seleção natural, mas sua parte humana só o é de forma relativa
Como em novembro será lançado o livro Amor à Ciência – Ensaios sobre o materialismo darwiniano, aqui vai uma de suas passagens mais curiosas.
Depois que estudos sobre os procedimentos de domesticação de plantas e animais levaram Charles Darwin a comprovar a importância da seleção, sobrou-lhe uma verdadeira charada: como aplicar esse conceito a organismos que vivem em estado natural? E ela só foi solucionada quando sucedeu-lhe ler – para se distrair – uma obra publicada anonimamente 40 anos antes: Um Ensaio sobre o Princípio de População.
Sim, deve-se à essa tão malhada obra do pai da demografia – Thomas Robert Malthus – o estalo que deu a Darwin um esquema teórico com o qual trabalhar: a inferência de que, no processo de formação e evolução das espécies, variações favoráveis à sobrevivência dos organismos tendem a ser preservadas, enquanto as desfavoráveis vão sendo eliminadas.
Merece muita atenção, portanto, essa conexão entre a teoria da seleção natural e a desmentida tese de Malthus, motivo de um gigantesco mal-entendido, ainda bastante em voga entre marxistas, mas não só.
Pois atribuir malthusianismo ao núcleo da teoria darwiniana é um disparate, que no caso de Karl Marx até pode ser atribuído ao fato de nem ter lido a segunda grande obra de Darwin, de 1871: A Descendência do Homem.
Por mais incrível que possa parecer, o raciocínio demográfico do reverendo Malthus resultou diretamente de leituras sobre os fatos verídicos que, quase um século antes, haviam inspirado o escritor Daniel Defoe a criar Robinson Crusoé. Acontecimentos em uma ilha da costa do Chile em que um marinheiro escocês permanecera por mais de quatro anos.
A atenção de Malthus foi suscitada por depoimentos de navegadores, segundo os quais a exótica introdução de alguns poucos caprinos por precursores espanhóis provocara superpopulação. Mas, assim que um casal de galgos foi ali deixado por viajantes ingleses, não demorou para que se estabelecesse um equilíbrio dinâmico. Alguns rebanhos de caprinos sobreviveram em áreas rochosas de altitude, que chegam a 1.500 metros, enquanto as partes mais baixas passaram a ser superpovoadas pelos caninos.
Nessa concomitante adaptação das duas espécies, houve óbvia sobrevivência dos indivíduos que se mostravam mais aptos, em uma luta pela vida dependente da competição por recursos escassos, essencialmente alimentares. Só os caprinos que se mostraram mais resilientes ao choque provocado pela chegada dos galgos puderam se adaptar às inóspitas condições do ecossistema de altitude. Os menos capazes foram eliminados.
Em notável pirueta lógica, Malthus fez a transposição para populações humanas de tão exemplar constatação biológica, a respeito de relações entre espécies animais e delas com espécies vegetais. Por deixar de lado um dos principais vetores do processo civilizador – a capacidade de inovação – foi levado a prognosticar rápida e inevitável explosão populacional em nações que já se encontravam densamente povoadas. Por isso deu força aos que há muito vinham combatendo as políticas britânicas de amparo aos menos favorecidos. Seria como proteger caprinos que fossem incapazes de se manter nos mais áridos meios das montanhas da ilha que hoje se chama Robinson Crusoé.
Se Darwin tivesse concordado com a pirueta malthusiana, em vez de tratar exclusivamente de espécies animais e vegetais em sua primeira grande obra – A Origem das Espécies – com certeza nela teria incluído ao menos um capítulo sobre a espécie humana. Preferiu a prudência.
Mas, com o imediato e espetacular sucesso obtido, tornou-se inevitável que ela fosse indevidamente extrapolada para o caso da humanidade, pois isso jogava água no moinho de duas ideologias já bem estabelecidas e muito em voga: uma radicalmente liberal e outra conservadora mais autoritária. Se só sobrevivem os mais aptos, qual poderia ser o sentido de ajudar os pobres, perguntavam os primeiros, enquanto os outros logo propunham que se ajudasse a natureza eliminando os menos aptos via eugenia.
A discordância de Darwin sobre tais extrapolações foi fartamente confirmada com a publicação da sua segunda grande obra. Três afirmações sintetizadas na conclusão são suficientes para que se perceba que a história da espécie humana o levou bem além da teoria exposta na primeira, publicada 12 anos antes:
  • No que diz respeito à natureza do homem, outros fatores superaram a luta pela existência, por mais que ela tenha sido importante e ainda o seja.
  • As qualidades morais avançaram muito mais devido às consequências dos hábitos, dos poderes de raciocínio, da instrução, da religião etc., do que dos efeitos da seleção natural.
  • Foram instintos sociais que proporcionaram o desenvolvimento moral.
Para Darwin, a parte não humana da natureza é absolutamente regida pela lei da seleção natural, mas sua parte humana só o é de forma relativa, pois o processo civilizador generaliza e institucionaliza condutas que se opõem à livre operação de tal lei.
———————–
JOSÉ ELI DA VEIGA é professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP e autor de Amor à Ciência – Ensaios sobre o materialismo darwiniano (Ed. Senac-SP, 2017). www.zeeli.pro.br

Branding Teachers in Other Countries: Private Gain and Public Good (Tom Hatch) by larrycuban

"Thomas Hatch is a Professor at Teachers College, Columbia University and Co-Director of the National Center for Restructuring Education, Schools, and Teaching (NCREST). He previously served as a Senior Scholar at the Carnegie Foundation for the Advancement of Teaching where he Co-Directed the K–12 Program of the Carnegie Academy for the Scholarship of Teaching and Learning (CASTL) and established the Carnegie Knowledge Media Laboratory.  He is also the founder of internationalednews.com, a twitter feed and blog that provides access to news and research on educational policy and educational change around the world."
This post appeared September 13, 2017 on his blog


New York Times’ reporter Natasha’s Singer’s recent article on “brand-name” teachers, created quite a stir.  Reaction in the Times and elsewhere in the US focused on “topdog” teacher Kayla Dalzel and what EdSurge called the “murky relationship between edtech developers and the educators who tout their products.” For me, the emergence of “brand-name” teachers in the US (and “super tutors” and “celebrity tutors” in places like Singapore and Hong Kong) also highlights both long-standing tensions between private gain and the public good and the way that cultural and economic context shapes education systems.
The discussion reminded me of a conversation I had this summer with Pekka Peura, a Finnish high school math and physics teacher who could be described as an “entrepreneurial teacher.” Peura takes advantage of Finland’s celebrated autonomy for teachers by regularly trying out new ideas in his classroom.  At first, he simply experimented with changing his homework assignments, giving all the assignments to students in 7 week blocks rather than every single day, and letting students decide when and how to complete their work. Now he doesn’t use exams (almost unheard of in the highly exam-driven context of Finnish high schools and in math and physics courses in particular), and he doesn’t do any grading – the students evaluate themselves. Peura explained that he made these changes in his classroom in order to create learning activities and environments where students want to work hard and can evaluate and direct their own learning.
Peura surprised me, however, when he told me that, at the same time, he works systematically to build his reputation and “brand” among educators in Finland. He does that by making his teaching visible and sharing his plans and tools (like a seven week plan for teaching vector calculus) in his own blog, Facebook page, and YouTube videos, as well as in a new book, Flipped Learning, by Marika Toivola, Markus Humaloja, and Peura (the book will be published in English this fall).
Peura’s efforts to “build his brand” have paid off. His Facebook page now has 13,000 members, and he regularly receives invitations to speak at conferences and visit other schools and other countries. He’s gained access to other noted educators and those who wield power and influence in education, and his books and other works certainly have a bigger audience than he would otherwise have had.
Since my Norwegian and Finnish colleagues consistently emphasize the importance of equity and common identity – and not building an “individual brand” – Peura’s approach seem more American than Nordic. But Peura has always had a larger goal in mind: changing the traditional, academic focus of the whole Finnish education system.  As Peura explained, building his reputation is a key means of encouraging other teachers take advantage of the autonomy offered in the Finnish education system and to pursue and share their own efforts to change conventional instruction. “We just need a lot of teachers that are creating their own books, and blogs and leading their own subjects,” he told me.
From Peura’s perspective, Finnish teachers need to go public precisely because it is so counter-cultural. Although the Finnish education system is well-known for supporting teachers’ autonomy and independence, Finnish teachers are not particularly prone to collaborate or share their work. Furthermore, although many know the Finnish education system is high-performing, as Saku Tuominen (an expert on innovation and founder of HundrED) regularly points out, few people can name a single innovative educational tool or practice developed in Finnish classrooms (but everyone seems to know that Angry Birds was launched in Finland).
Given these circumstances, Peura explained to me that he feels that he not only needs to go public with his own work, he needs to help build an audience that is interested in hearing from educators and to encourage other educators to make their work and ideas public as well.  As he put it, “if you have some good tools or ideas to share, there is no one to share with unless people will listen to you.”
At the same time, Peura makes it clear that the relationship between commercial enterprises and classrooms in Finland is also dramatically different from the US.  As he wrote to me:
In Finland we don’t promote companies very easily. I don’t know any teacher, who gets money from some company to advertise them. But it is familiar that some companies give technology hardware or software for free for some classrooms to test them. But we give fair feedback, if the product doesn’t work in the classroom, it is said out loud.
From my point of view it is really important NOT to connect your name-brand with some one company, because we are a very small [community] and teachers know each other, especially if you are a well known teacher, and it eats into your credibility as a change maker. And one thing that is also quite common in Finland is that we try to seek open/free solutions, so if there is a free and a commercial product/solution, we promote the free one. It is crucial for your credibility to promote commercial products only if it’s the best and only solution for some problem. 
There are teachers like Kayla Dalzel and Pekka Peura all over the world, and all have to contend with the tensions between personal gain and the public good, but the context is different.  In this case, when it comes to the US and Finland, it all comes down to trust.  In Finland, they trust teachers.  In the US, we don’t.
We sometimes forget why that’s the case.  As Peura points out, trust, visibility and reputation are inextricably linked everywhere, but Finnish educators work in a systemdesigned to build trust in teachers. US educators do not.
larrycuban | September 25, 2017

Formação é calcanhar de Aquiles dos professores de matemática do Brasil, Marcelo Viana


Apu Gomes - 18.ago.2011/Folhapress
Alunos têm aula de português em sala de aula lotada, na zona sul de São Paulo
Alunos têm aula de português em sala de aula lotada, na zona sul de São Paulo



Acabo de receber material muito interessante do meu colega Humberto Bortolossi, da Universidade Federal Fluminense, intitulado "Formação de professores de matemática: O que é realmente necessário e prioritário?", que recomendo vivamente aos leitores.






Humberto fez mestrado no Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) e doutorado em matemática na PUC-Rio, com uma excelente tese sobre otimização de redes de produção e distribuição energia.
Ele combina cultura acadêmica e tecnológica fora de série com uma diversidade de interesses de estudo igualmente invulgar: educação em matemática, popularização da ciência, formação de professores e muito mais. Humberto tem mais uma grande qualidade: ao contrário de tantos teóricos da educação que "pesquisam" o tema em seus gabinetes sem jamais chegarem perto da sala de aula, ele põe a mão na massa e submete suas ideias e experiências ao duro julgamento da realidade.
A formação de professores é o calcanhar de Aquiles da nossa educação básica. O professor é elemento crucial da cadeia educativa e, no entanto, a formação oferecida na maior parte das nossas licenciaturas em matemática é totalmente inadequada, além de obsoleta. No Brasil, a esmagadora maioria dos licenciados da área é egressa de faculdades particulares com controles de qualidade duvidosos. Muitas dessas instituições não têm jeito, precisam ser fechadas. Para outras, um efetivo controle por parte das autoridades poderia fazer uma grande diferença. Mas nossas melhores universidades públicas também não estão isentas de críticas.
Em artigo publicado em março de 2011 na revista "Notices", da American Mathematical Society (Sociedade Americana de Matemática), o professor emérito Hung-Hsi Wu da Universidade da Califórnia, em Berkeley, pergunta: "Para formarmos bons professores de francês, deveríamos exigir que eles aprendam latim, no lugar de francês? Afinal, latim é a língua mãe do francês e, sendo um idioma mais complicado, aqueles que conseguirem aprendê-lo deverão estar bem habilitados para o francês."
Claro que é uma ironia mas, segundo Wu, tem muito a ver com o que fazem as licenciaturas em matemática em seu país. No Brasil não é diferente.
Humberto cita outra observação de Wu: na formação do professor de matemática, em contraste com outras disciplinas que apenas "olham para a frente", para o que será visto na pós-graduação, é indispensável devotar tempo considerável a "olhar para trás", isto é, a analisar tópicos elementares de um ponto de vista avançado.
Ensinamos na escola que raiz cúbica de 2 é o número que elevado ao cubo dá 2. Mas nunca gastamos tempo para mostrar ao licenciando que tal número existe. Para dividir duas frações devemos multiplicar a primeira pela inversa da segunda. Por quê?
Também não explicamos ao futuro professor de matemática o que significa realmente a expressão decimal de um número: porque é que 0,99999999999999... é o mesmo que 1? Não ensinamos essas coisas porque supõe-se que elas são simples e o estudante já aprendeu no ensino médio –as duas suposições estão erradas– e que na faculdade deve aprender coisas avançadas.
Deve-se aprender latim, para ensinar francês.
Mais de cem anos atrás, o grande matemático e educador alemão Felix Klein (1849-1925), outro que colocava as mãos na massa, já criticava o fato de que "por muito tempo [] os homens da universidade preocuparam-se exclusivamente com as suas ciências, sem considerarem as necessidades das escolas, nem mesmo se preocupando em estabelecer uma conexão com a matemática escolar".
O resultado é o que Klein chamou "dupla descontinuidade na formação do professor": ao chegar à universidade, o futuro professor é confrontado com ensinamentos avançados sem conexão aparente com os temas da escola básica; e, ao final dos estudos, quando volta à escola como professor, vê-se na posição de ter que ensinar a matemática elementar tradicional, do mesmo modo de sempre.
Nas palavras de Klein "seus estudos universitários permaneciam apenas uma lembrança mais ou menos agradável, que não tinha nenhuma influência sobre o seu ensinar". Embora Klein escrevesse no pretérito, pensando na Alemanha, no Brasil tal situação perdurou até o século 21.
Mudanças começaram a acontecer a partir do Projeto Klein em Matemática, realizado entre 2008 e 2012 pelas sociedades científicas da área, com o apoio da Capes. O Mestrado Profissional para Professores de Matemática (Profmat) nasceu em 2011, sob a influência das ideias de Klein, Wu e outros. Não é surpresa que o mestrado tenha sido "acusado" por alguns educadores de valorizar demais o conteúdo matemático, e por alguns matemáticos de omitir tópicos avançados ensinados em muitas licenciaturas.
A coleção de livros "Matemática para o Ensino" e a revista eletrônica "Professor de Matemática On-line", ambas da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), são também produtos diretos do Projeto Klein.
Outra importante iniciativa em curso, com o apoio do Impa, é o Projeto Livro Aberto de Matemática, um esforço de professores –universitários e da escola básica– para produzir, de maneira colaborativa, livros didáticos de matemática com excelência acadêmica e licença aberta. Confira no site como colaborar.
Muito mais é necessário, evidentemente. Não tenho dúvida de que a "saída" passa pelo envolvimento cada vez maior da comunidade matemática universitária nas questões do ensino da disciplina, em colaboração com a comunidade de professores da escola básica e levando em conta os mais recentes avanços na pesquisa na área do ensino da matemática.
Nesse sentido, é urgente repensar as nossas licenciaturas em matemática. Existe um ótimo ponto de partida: o estudo de diretrizes curriculares que a SBM vem aprimorando há alguns anos. 

O que faz a desigualdade ser tão persistente no Brasil Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/09/25/

/REUTERS - 08.06.2015

Estudos divergem nos detalhes, mas reforçam o fato de que o país é um dos campeões mundiais de inequidade de oportunidades e de renda 

NEXO, 
João Paulo Charleaux 25 Set 2017



 A desigualdade entre ricos e pobres no Brasil continua sendo uma das mais altas do mundo, seja qual for a base de dados usada para medir. As pesquisas podem até discrepar em relação aos recortes metodológicos, mas a conclusão é a mesma: há um abismo entre os que têm mais e os que têm menos no país. Além do tamanho dessa distância entre ricos e pobres, outro fator que caracteriza a desigualdade no Brasil é a persistência do problema ao longo dos anos. Mesmo descontando variações que possam existir entre os diferentes métodos usados para aferir se esse abismo diminuiu ou não nos diferentes governos, ele continua existindo, a despeito das políticas públicas adotadas ao longo dos 32 anos desde a redemocratização. Dados do World Wealth & Income Database – instituto dirigido pelo economista francês Thomas Pikkety – mostram que, no Brasil, mais da metade da renda nacional está concentrada nas mãos dos 10% mais ricos. Esses dados, ilustrados numa série de dez gráficos publicados pelo Nexo no dia 13 de setembro, mostram que, embora a renda dos 50% mais pobres tenha crescido um ponto percentual, passando de 11% para 12% no período entre 2001 e 2015, a renda dos 10% mais ricos também cresceu na mesma medida, no mesmo período, passando de 54% para 55%. Quem teve queda de rendimento – de 32% para 34% da renda nacional – foram os 40% situados na faixa intermediária entre esses dois extremos. A necessidade de mudanças estruturais A persistência da desigualdade no Brasil motivou a ONG britânica Oxfam a lançar um relatório nesta segunda-feira (25) intitulado “A distância que nos une. Um retrato das desigualdades brasileiras”. No documento, a organização mostra que “uma pessoa que receba um salário mínimo mensal teria que trabalhar durante 19 anos para ganhar o salário de um mês de um brasileiro que faz parte do privilegiado grupo do 0,1% mais rico do país”, e que “apenas seis pessoas têm uma riqueza equivalente ao patrimônio dos 100 milhões de brasileiros mais pobres, metade da população”. A organização também enumera as razões que contribuem para a persistência desse quadro e as medidas que poderiam alterá-lo: Certo e errado, segundo a Oxfam O QUE DÁ ERRADO o sistema tributário regressivo, que pesa muito sobre os mais pobres e a classe média as discriminações de raça e gênero que promovem violência cotidiana a mulheres e negros, negando seus direitos básicos a falta de espírito democrático e republicano do nosso sistema político, que concentra poder e é altamente propenso à corrupção O QUE DÁ CERTO expansão de políticas públicas, em especial as sociais, para reduzir pobreza e aumentar renda familiar investimento em educação para reduzir diferenças salariais ampliação da cobertura de serviços para os mais pobres política de valorização do salário mínimo formalização do mercado de trabalho e queda do desemprego A diretora-executiva da organização no Brasil, Kátia Maia, disse ao Nexo que espera “envolver toda a sociedade brasileira no debate sobre a desigualdade, pois esse é um debate urgente, que não pode ser dividido em polarizações, em lado A contra lado B”. Maia reconhece que “avançamos em aumentar a base da pirâmide de renda no Brasil nos últimos 15 anos, mas a concentração no topo continua”. Ela lembra ainda que “as discriminações de raça e de gênero perpassam todos os demais fatores de desigualdade” no Brasil. Ela considera também que reformas como a da Previdência e a trabalhista estão avançando no Brasil, mas não têm sido pautadas necessariamente pelo interesse da maioria. Por isso, Maia afirma que é fundamental que a sociedade civil organizada participe mais ativamente da reforma tributária e da reforma política, por exemplo. “Temos de trazer toda a sociedade para pressionar o Executivo e o Legislativo, de maneira que saiam reformas que beneficiem a própria sociedade”, diz. Para ela, “não existe solução mágica para o problema da desigualdade. A solução está num conjunto de ações”. A diretora-executiva da Oxfam reconhece, no entanto, que “estamos num período de perda de esperanças” no Brasil e que a proximidade do debate eleitoral de 2018 “dificulta muito qualquer discussão que vá além do curto prazo”. ‘Educação é o maior redutor da desigualdade’ Para explicar o quadro brasileiro e apontar caminhos para a redução da desigualdade, o Nexo conversou com o economista Naercio Aquino Menezes, coordenador do Centro de Políticas Públicas no Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa). A desigualdade diminuiu ou cresceu nos últimos 15 anos no Brasil? NAERCIO AQUINO MENEZES Existem várias medidas de desigualdade. Algumas olham para a distribuição como um todo, como o índice Gini, que é mais difícil para o público geral interpretar, e há outras, que mostram cada parcela da população em separado, e que são mais fáceis de interpretar. Se você olhar só a renda do trabalho, só o trabalho, a desigualdade caiu, inequivocamente. Porém, quando você usa dados mais completos, da Receita Federal, das contas nacionais, você vê que a parcela que corresponde ao topo, aumentou. Então teve um crescimento maior da renda desse 1% que está no topo, do que do pessoal que está na metade de baixo da pirâmide de distribuição. Na verdade, quem cresceu menos foram os 40% que estão acima da metade de baixo da pirâmide, mas que estão abaixo dos 10% do topo. Há divergências na leitura desse quadro? NAERCIO AQUINO MENEZES Não. São fatos. Quando você olha a pesquisa domiciliar, ela captura muito bem a renda do trabalho [o ganho salarial das pessoas empregadas], mas não captura a renda do capital. Para capturar a renda do capital [dos mais ricos], você precisa recorrer aos dados da Receita Federal. Os estudos que usam a base da Receita com a Pnad [Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios] têm resultados muito parecidos. Como a desigualdade no Brasil se compara à desigualdade em outros países, seja na sua dimensão, seja na sua evolução? Somos um caso único? NAERCIO AQUINO MENEZES O Brasil é um dos países que têm maior desigualdade. Sempre foi. Nós começamos a medir nos anos 1960. A desigualdade era alta. De 1960 para 1970, aumentou ainda mais, e permaneceu alta desde então. Apesar dos altos e baixos que acompanharam a inflação e o salário mínimo, ela se manteve assim. A partir dos anos 2000 ela começa a reduzir de acordo com os índices que medem a renda do trabalho. Porém, como eu dizia, ao buscar os dados mais completos, que são capazes também de pegar o capital, o pessoal que está no topo da distribuição, o 1% dos que mais ganham, aí o Brasil é um dos campeões de desigualdade no mundo. O que é preciso fazer para enfrentar esse problema? NAERCIO AQUINO MENEZES De maneira geral, o país não chegou aqui à toa. É um país muito desigual, com instituições muito desiguais, com uma história que perpetua a desigualdade. Mas o que se sabe é o seguinte: se você aumenta a educação, os anos de estudo, você reduz a desigualdade. Isso é bem claro. Pesquisei isso. Se você aumenta a quantidade de pessoas com ensino médio, a diferença salarial entre quem tem ensino médio e quem tem ensino fundamental cai. Se você aumenta o ensino superior, mais do que o médio, a diferença entre o superior e o médio cai. Então, quanto mais você aumenta a oferta para o nível de cima, com relação ao de baixo, a desigualdade diminui. Isso é fato e é algo que aconteceu no Brasil, que vem acontecendo ao longo dos anos. Esse é um meio bom de distribuir renda porque você aumenta a educação das pessoas, elas se tornam mais produtivas e, ao mesmo tempo, você reduz a desigualdade e a pobreza. Acho que esse é o melhor caminho. Mas ainda tem que melhorar isso, até porque a qualidade da escola pública é muito baixa. Tem que investir na primeira infância, desde os primeiros meses, como recomendam os estudos mais modernos. O meio mais efetivo de reduzir a desigualdade é dar igualdade de oportunidade para que as famílias pobres tenham o mesmo atendimento infantil, saúde, creche, do que as mais ricas. Mas é algo muito difícil de fazer. Agora, como a desigualdade é tão grande no Brasil, é muito difícil atingir a igualdade de oportunidades. Quem nasce numa família do grupo do 1% mais rico tem muito mais condições do que quem nasce entre os mais pobres. Tem que reduzir essas diferenças. Tem que ter imposto sobre herança, por exemplo. Até porque herança é o principal mecanismo de perpetuação da desigualdade. A carga tributária também é muito regressiva atualmente, ela recai sobre os mais pobres, com muito imposto sobre consumo. Tem pouco imposto sobre propriedade e renda. Por isso, uma reforma tributária que atendesse a esses critérios também seria bem vinda. Até que ponto a desigualdade é um elemento indissociável do capitalismo? NAERCIO AQUINO MENEZES Alguma desigualdade sempre vai ter, mas pensa nos países escandinavos. Eles têm muito pouca desigualdade, embora sejam capitalistas. Como funciona lá? Você tem impostos altos financiando serviços públicos de qualidade. Então, a pessoa paga um imposto que às vezes chega a 40% ou até 50% e elas estão dispostas a pagar esse imposto porque sabem que não vão se preocupar com os gastos com saúde, com educação, com cultura, com museus. Eu acho que eles são mais felizes. E eles têm empresas produtivas. Então, acho que o capitalismo pode conviver com uma desigualdade menor, desde que a sociedade esteja preparada para seguir esse caminho, senão, não adianta só aumentar impostos e ter uma eficiência muito baixa no setor público, com problema de gestão generalizado. [O Brasil] teria de ter um governo com gestão eficiente, que pudesse realizar mais coisas com o mesmo dinheiro. Do jeito que está, com essa ineficiência governamental, ninguém vai querer pagar mais impostos. GRÁFICO A trajetória da distribuição de renda no Brasil e em outros países

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/09/25/O-que-faz-a-desigualdade-ser-t%C3%A3o-persistente-no-Brasil

Pesquisa aponta saídas para combater desigualdade no Brasil


  • 25/09/2017 
  • Brasília
Paulo Victor Chagas - Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro - Comunidade da Rocinha, após confrontos entre grupos de traficantes rivais pelo controle de pontos de venda de drogas (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Relatório aponta causas da desigualdade social e aponta soluções para melhorar a distribuição de renda e de serviços essenciaisFernando Frazão/Agência Brasil

No Brasil, os seis maiores bilionários têm a mesma riqueza e patrimônio que os 100 milhões de brasileiros mais pobres. Caso o ritmo de inclusão no mercado de trabalho prossiga da forma como foi nos últimos 20 anos, as mulheres só terão os mesmos salários dos homens no ano de 2047, e apenas em 2086 haverá equiparação entre a renda média de negros e brancos. De acordo com projeções do Banco Mundial, o país terá, até o fim de 2017, 3,6 milhões a mais de pobres.
Essas são as constatações do relatório A Distância Que Nos Une, Um Retrato das Desigualdades Brasileiras, divulgado nesta segunda-feira (25) pela Oxfam Brasil. A organização, que trabalha no combate à pobreza e à desigualdade, resolveu publicar pela primeira vez um estudo em que investiga, com base em vários dados, as raízes e soluções para um país onde se distribui de forma desigual fatores como renda, riqueza e serviços essenciais.
De acordo com Katia Maia, diretora-executiva da entidade, o objetivo é divulgar um relatório anual sobre a desigualdade e mostrar os diferentes problemas do tema, como, por exemplo, o da tributação brasileira. “Nós pagamos muitos impostos. Mas não é que a nossa tributação é excessiva, na verdade ela é injusta. A gente está abaixo da média dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) [em termos de carga tributária]. Mas é uma tributação onde quem paga o pato é a classe média e as pessoas mais pobres”, disse.
Tributação indireta
O documento identifica falhas na forma como o imposto é arrecadado no Brasil, em contraste com outros países. Além da alta tributação indireta, há questionamentos à isenção de impostos sobre lucros e dividendos de empresas e à baixa tributação de patrimônio, que, com isso, acabam contribuindo para aumentar a concentração de renda dos mais ricos.
A coordenadora do relatório defende que é possível que as autoridades brasileiras combatam fatores que impedem a tributação proporcionalmente igualitária, mesmo antes de uma necessária reforma tributária. Um deles é a evasão tributária, em que somente em 2016, segundo o Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda (Sinprofaz), deixaram de ser arrecadados R$ 275 bilhões.
Como pontos positivos dos últimos anos, A Distância Que Nos Une credita ao mercado de trabalho o “principal fator” da recente redução da desigualdade de renda no Brasil. Com a estabilização da economia e da inflação nos últimos 20 anos, foi possível ao país investir na queda do desemprego, na valorização real do salário mínimo e no aumento do mercado formal. Há diferenças, porém, que ainda precisam ser enfrentadas, de acordo com o relatório. Ele também enumera dados sobre as já recorrentes diferenciações salariais entre mulheres/homens e negros/brancos que possuem a mesma escolaridade.
“A média brasileira de anos de estudo é de 7,8 anos, abaixo das médias latino-americanas, como as do Chile e Argentina (9,9 anos), Costa Rica (8,7 anos) e México (8,6 anos). É ainda mais distante da média de países desenvolvidos”, indica o estudo, complementando que apenas 34,6% dos jovens de 18 a 24 anos estão matriculados em universidades, dos quais apenas 18% concluem o curso.
Juventude negra e pobre é a mais afetada por barreiras educacionais
“Em geral, a juventude negra e pobre é a mais afetada pelas barreiras educacionais. Baixo número de anos de estudo, evasão escolar e dificuldade de acesso à universidade são problemas maiores para esses grupos, que, não por acaso, estão na base da pirâmide de renda brasileira”, afirma.
Para Katia Maia, a construção da sociedade brasileira é baseada em uma divisão entre cidadãos de “primeira e de segunda categoria. “Os números são muito fortes: 80% das pessoas negras ganham até dois salários mínimos, e estamos falando de 50% da população brasileira. A gente olha no nosso entorno e vê as bolhas de pessoas brancas, enquanto as negras são colocadas na periferia da cidade. É importante a gente debater e conversar sobre o racismo, mostrando que somos iguais. Esse déficit a gente tem de assumir, que somos país racista e enfrentar, buscar solucionar isso. É grave porque do jeito que estão colocados, os números falam por si, a gente quase não resolve isso nesse século”, alerta.
Embora aponte uma “notável universalização do acesso à educação básica”, o relatório pede cuidados para lidar com a evasão escolar, especialmente em séries mais adiantadas. No que diz respeito a outros serviços essenciais, apesar de elogiar uma “importante expansão” nos últimos anos, o documento coloca como desafio a ampliação do acesso de mulheres e negros ao sistema público de saúde.
O documento lembra - como exemplos de desigualdade - a situação de dois dos 96 distritos de São Paulo, a maior cidade brasileira: “Dados mais recentes dão conta de que, em Cidade Tiradentes, bairro de periferia de São Paulo, a idade média ao morrer é de 54 anos, 25 a menos do que no distrito de Pinheiros, onde ela é de 79 anos. Trata-se de um dado que resume como as desigualdades se manifestam de diversas formas, sempre a um preço muito alto para a base da pirâmide social no Brasil”.
Com elogios à redução geral da desigualdade de renda e pobreza após a promulgação da Constituição Federal de 1988, o relatório considera ainda a retirada, nos últimos 15 anos, de 28 milhões de pessoas da pobreza e a saída do Brasil do Mapa da Fome, em 2015. A parcela da população abaixo da linha da pobreza caiu, entre 1988 e 2015, de 37% para 10%, conforme o estudo. Devido à crise econômica dos últimos anos, porém, os governos têm feito “mudanças radicais” que, segundo o levantamento, evidenciam uma “acelerada redução do papel do Estado” que “aponta para um novo ciclo de aumento de desigualdades”, segundo a organização.
Garantia de Direitos
A Emenda do Teto dos Gastos, que limita os gastos públicos por 20 anos, é considerada no documento como um “largo passo atrás na garantia de direitos”. De acordo com as constatações da Oxfam Brasil, há a necessidade de se revisar a reforma trabalhista aprovada recentemente pelo Congresso Nacional, “onde ela significou a perda de direitos”. Outros entraves ao fim das “desigualdades extremas” do Brasil, segundo a pesquisa, são a melhoria dos mecanismos de prestação de contas, mais transparência, combate à corrupção e uma “efetiva regulação da atividade de lobby”.
De acordo com Katia, a meta do relatório não é defender que todas as pessoas tenham a mesma coisa e sim mostrar os extremos que não devem ser aceitos pela sociedade. No dia em que se completam dois anos da assinatura dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) pelos 193 Estados Membros da Organização das Nações Unidas (ONU), com metas para os países até 2030, a coordenadora do relatório acredita, corroborando o documento, que as desigualdades “não são inevitáveis”.
“Elas são fruto de decisões políticas, de interesses, e nos níveis que nós temos hoje no Brasil, são eticamente inaceitáveis. Estamos construindo uma sociedade onde uma parte da população vale mais que outra. Não pode ser assim, somos todos parte da mesma sociedade. Essa distância entre nós está tão grande que a única forma de reduzir é atuando juntos, nos unindo”, finaliza.
Edição: Kleber Sampaio

A soberania e a crise na ciência: o começo do fim, Isaac Roitman

A soberania e a crise na ciência: o começo do fim (Artigo)


Nelson Rodrigues introduziu a expressão complexo de vira-lata quando, na decisão da Copa do Mundo, fomos derrotados pelo Uruguai. Ele apontava que o complexo de inferioridade não se limitava ao campo futebolístico. A herança deixada pelo processo de colonização refletiu também no aspecto cultural, educacional e científico. A preocupação de explorar as riquezas da terra conquistada definiu as bases do que somos hoje: país exportador de suas riquezas naturais e com injustiças sociais. 
A institucionalização da ciência no Brasil foi feita na década de 1950, com a criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento do Ensino Superior (Capes). A partir da década de 1960, bem-sucedido sistema de pós-graduação foi implantado no Brasil. Atualmente, mais de 16 mil doutores são formados por ano. 
A criação, em 1985, do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), depois MCTI, foi também marco importante. Nos últimos 20 anos, a ciência brasileira se consolidou com secretarias de C&T nos estados e suas fundações de amparo à pesquisa. Nesse período, nossa produção científica tem crescido com taxas superiores à média mundial. Uma rede de institutos nacionais de ciência e tecnologia (INCT) foi criada e políticas de integração academia-empresa foram implantadas. Tudo apontava para um desenvolvimento científico como base da era do conhecimento. Ledo engano. 
O primeiro sinal da crise da ciência brasileira foi a fusão do MCTI com o Ministério de Comunicação, no início de 2016, com um argumento não convincente de que o governo necessitava enxugar a máquina administrativa. Daí para a frente, testemunhamos grandes cortes em bolsas e em projetos. Uma emenda constitucional limitou os gastos federais a aumentos no nível da inflação por 20 anos. Em março de 2017, o governo anunciou redução de 44% no orçamento federal de ciência.
O orçamento do MCTIC será o mais baixo em pelo menos 12 anos, com apenas R$ 2,8 bilhões. A redução de investimentos alcançou também as fundações estaduais de fomento à pesquisa. A Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj) apresenta calote de R$ 470 milhões, que está interrompendo as atividades de pesquisas, principalmente nas universidades estaduais do Rio de Janeiro. As universidades federais, entre elas a Universidade de Brasília, estão à beira do colapso. O CNPq anuncia a suspensão de bolsas de estudos. É o início do caos. 
A fragilização do nosso sistema nacional de ciência e tecnologia terá implicações graves para o desenvolvimento social e econômico brasileiro. Estamos formando um exército de doutores para ficarem desempregados. Os investimentos na formação de recursos humanos, nas últimas décadas, serão desperdiçados. O desperdício da inteligência é atitude de burrice plena. Se o processo de desmonte não for interrompido, teremos um êxodo de cientistas brasileiros para países avançados, onde a ciência é valorizada. 
A inserção do Brasil na era do conhecimento é questão de soberania. A reversão do presente quadro deve ser rápida, pois grupos de pesquisas que levaram anos para serem construídos serão desativados. É pertinente que nossos governantes lembrem o pensamento de Winston Churchill: "Construir pode ser a tarefa lenta e difícil de anos. Destruir pode ser o ato impulsivo de um único dia". 
A restauração do MCTI deve ser imediata. Os investimentos em ciência e tecnologia devem ser incrementados. A burocracia para a aquisição de insumos e equipamentos deve ser simplificada. Projetos de parceria com o setor privado devem ser estimulados para obtenção de novas patentes e produtos. As pesquisas que visam à solução de problemas demandados pela sociedade devem ser valorizadas. 
O Brasil precisa, urgentemente, tratar a educação e a ciência e tecnologia com seriedade, pois são pilares fundamentais para nosso desenvolvimento como nação. Caso contrário, continuaremos à mercê de tecnologia externa, comprometendo a nossa soberania e o fracasso da nossa missão geracional de legarmos para as próximas gerações um país soberano sem injustiças sociais, onde todos poderão conquistar a felicidade.

Suicídio e prevenção


EDITORIAL

Getty Images/BBC-Brasil
As razões que fazem a Nova Zelândia ter o maior índice de suicídio entre jovens em países desenvolvidos
Casos suicídio no Brasil avançaram 12%
Suscita preocupação o dado divulgado pelo Ministério da Saúde na quinta-feira (21) segundo o qual avançaram 12% os casos de suicídio Brasil, entre 2011 e 2015. A sociedade não pode assistir inerme a tamanho desperdício de vidas.
Foram 11.736 casos em 2015. Cinco anos antes, ainda eram 10.490. As razões do aumento pedem investigação, mas não há que esperar por estudos acadêmicos para fazer o que mais importa: prevenção.
Não se descarta que parte do aumento se deva a um incremento na notificação. O tabu social ainda leva alguns profissionais de saúde e familiares a evitar que esse ato de desespero extremo figure como causa oficial da morte.
Entretanto o tratamento mais aberto do tema nos últimos tempos parece contribuir para que se conheça melhor sua real dimensão.
O maior contingente de suicidas é de homens (79%). Entre jovens de 15 a 29 anos de idade, aparece como a quarta principal causa de morte, mas a maior taxa se registra entre idosos -8,9 mortes por 100 mil pessoas com mais de 70 anos, contra 6,8 por 100 mil entre os que têm de 20 a 29 anos.
A região Sul, com meros 14% da população, representa 23% dos episódios. Dos 4 municípios nacionais com maior incidência, 3 ficam no Rio Grande do Sul.
Há informação suficiente sobre os grupos de maior risco. Não faltam estudos, ademais, a afirmar que 9 entre 10 casos podem ser evitados. E o maior fator preditivo para um suicídio consumado é a realização de tentativas anteriores.
O sistema público já conta com um modelo consagrado para o trabalho de prevenção. Segundo estimativa do Ministério da Saúde, a presença no município de um Centro de Atenção Psicossocial –locais para atendimento especializado e assistência social, mais conhecidos pela sigla Caps– diminui em 14% o risco de suicídio.
Existem hoje no Brasil 2.463 desses estabelecimentos, mas são 5.570 os municípios. Além disso, metrópoles como São Paulo ou Rio de Janeiro abrigam vários Caps.
Para alcançar a meta de reduzir em 10% a mortalidade por suicídio até 2020, há que capilarizar ainda mais esse serviço, que de resto atende pessoas com todo tipo de problemas mentais e psicológicos.
Seria desejável que o ministério apresentasse um cronograma para a expansão da rede. Suicídio não tem cura, mas pode ser prevenido. 

19 de setembro de 2017

Aniversário de Paulo Freire: 5 livros imperdíveis indicados por professores


O pedagogo faria 96 anos se estivesse vivo. Em sua homenagem, educadores falam sobre a obra do brasileiro
Salvar
Por: Caroline Monteiro
Arte: Alice Vasconcellos
Se estivesse vivo, o pedagogo e filósofo Paulo Freire completaria 96 anos nesta terça-feira, 19 de setembro. Reconhecido não só no Brasil, mas também no exterior, o Patrono da Educação Brasileira é responsável pelo processo de alfabetização que incentiva o uso do vocabulário e conhecimento dos alunos, principalmente jovens e adultos, na aprendizagem da leitura e escrita. Testada na cidade de Angicos (RN) em 1963, a atividade não utilizava cartilhas e alfabetizou 300 catadores de cana em 40 horas de aula distribuídas em 45 dias. Na época, 40% da população brasileira era analfabeta.
No ano seguinte, Paulo Freire foi preso e exilado pela ditadura. Ficou cinco anos no Chile, onde desenvolveu suas teses e trabalhos em programas de Educação de jovens e adultos. O educador viveu também na Inglaterra, na Suíça e em colônias portuguesas da África, como Guiné-Bissau e Moçambique. Foi nesse período de 16 anos fora do Brasil que Freire escreveu várias de suas obras.
Morto em 1997, seu trabalho continua reconhecido por professores e pedagogos brasileiros e estrangeiros, mas o Freire é também criticado por ter ideias de esquerda.
Em comemoração ao aniversário do educador, pedimos a cinco professores que indicassem um livro importante de sua obra. Confira:
"Educação como Prática de Liberdade" (1967)Indicado por João Paulo Pereira de Araújo, professor de História nas EEs Dr. Pompílio Guimarães e Professor Botelho Reis e no Colégio Equipe, em Leopoldina (MG)
"Fala sobre um método de alfabetização de adultos, mas para isso, Freire faz um passeio pelo passado e conta de suas experiências. O livro me impactou porque, logo no início, coloca para reflexão a importância da compreensão em torno do que é existir. E nesse momento ele explica que existir é muito mais do que apenas estar no mundo, pelo contrário, é preciso participar dele. O pedagogo propõe que é necessário dialogar e se comunicar. Isso é muito importante, por exemplo, quando pensamos na profissão do professor, no existir dentro da sala de aula. De ter o olhar social e compreender que seu papel vai muito além do que se imagina. No livro, Freire apresenta uma trajetória da construção do país e ressalta a ausência do povo nas grandes decisões e faz uma crítica à Educação tradicional, falando da massificação, e das possibilidades que a Educação tem de libertar o homem. Quando fala da sua experiência no ensino de adultos, Freire nos mostra o quanto é possível transformar a nossa realidade."
"Pedagogia do Oprimido" (1968)Indicado por Mara Mansani, professora alfabetizadora na EE Professora Laila Galep Sacker, em Sorocaba (SP), e blogueira de Nova Escola
"Quando o li esse livro pela primeira vez, chorei, pois aquelas palavras me falaram fundo. Refleti, me inquietei e me questionei. Que Educação eu vinha fazendo? Minha prática educativa contribuía na opressão, na formação de mais oprimidos e de opressores? Descobri, então, que eu estava acomodada em uma situação de segurança, sem ação. Mas eu não queria mais isso nem para mim, nem para meus alunos. E assim, depois dessa leitura, me esforço sempre para construir para eles e com eles, meus alunos, uma Educação de qualidade, onde juntos, mediatizados pelo mundo, possamos nos libertar, com diálogo, com amor, criticidade, sendo sujeitos ativos na construção da nossa história. De tempos em tempos, volto a ler Paulo Freire para acender a chama da inquietude, da reflexão, da ação e da esperança."
"A importância do ato ao ler" (1981)Indicado por Diego Durães, professor de Língua Portuguesa no Sesi 284, em Presidente Prudente (SP)
"Ao falar de Língua Portuguesa, a obra me faz refletir sobre as possibilidades de se trabalhar com a leitura na sala de aula, bem como da necessidade de um olhar mais próximo das práticas sociais. O livro apresenta uma intensa discussão sobre as necessidades de se ensinar a ler na escola  ler com sentido, com referências, com contextualização, e sobretudo, ler para conhecer e mudar o mundo! Conhecer e reconhecer a obra de Paulo Freire é necessário para a minha prática porque considero que o ensino de Língua Portuguesa contempla, como base em diversos temas e conteúdos, o ato de ler."
"Professora sim, tia não" (1993)Indicado por Sunamita Silva de Oliveira, pedagoga na Escola Maria Alice da Veiga Pessoa, em Gravatá (PE)
"A obra de Freire, como um todo, é impactante e indispensável. Não consigo desmembrar um livro do outro. Todos se complementam, mas 'Professora sim, tia não' faz uma crítica a forma como, a partir de uma nomenclatura, se compromete a autoridade e se mistura e confunde o papel do professor em sala. Visão patriarcal, paternalista, com um protecionismo exacerbado. A tia é aquela que permite, brinca, diverte e esporadicamente visita em um passeio. A obra de Freire me incentiva a ser uma combatente. Luto, para mim, é de fato, verbo!"
"Pedagogia da Autonomia" (1996)Indicado por Fabio Augusto Machado, coordenador pedagógico da EMEF Recanto Dos Humildes, São Paulo, e professor de Geografia
"É um livro que considero simples, mas de ideias profundas. Quando ainda cursava a licenciatura em Geografia, fui impactado com a coragem e a ousadia da obra. Freire tem a audácia de definir o que vem a ser o 'pensar certo' ou o 'pensar errado' no fazer pedagógico. Não há neutralidade. Os 'saberes necessários', sobre os quais Freire discorre da primeira à última página, são a própria antítese do projeto Escola sem Partido. Aliás, a superficialidade na prática pedagógica é condenada por ele no livro. É o 'pensar errado'. Até porque, para ele, 'ensinar exige compreender que a Educação é uma forma de intervenção no mundo'. Em sua obra, ele destaca que 'ensinar exige a convicção de que mudar é possível'. É preciso constatar, não apenas para saber como é, mas para transformar. A 'Pedagogia da Autonomia' mudou a minha vida, fez com que eu me apaixonasse pela Educação, e gerou consequências na vida dos meus alunos. O projeto 'A construção da Identidade', um dos vencedores do Prêmio Educador Nota 10 2016, é uma conseqüência direta dessa obra."