7 de dezembro de 2017

A imprensa que temos


Animadas por líderes irresponsáveis, as multidões creem em irrealidades invisíveis

*Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo
07 Dezembro 2017 | 03h07
Embora seja temerária qualquer previsão para o ano que vem, de uma coisa a gente pode ter certeza desde já: o chavão de que as empresas jornalísticas manipulam e jogam sujo vai atropelar os olhos e os ouvidos dos pobres eleitores. Repórteres levarão a culpa pelos reveses dos partidos. Demagogos que não leem coisa alguma, nem mesmo os títulos de alto de página, insultarão as redações como se fossem luminares do “media criticism”.
É claro que em 2018 o noticiário cometerá erros. Nada de novo sob o Sol. Os bombardeios que políticos movem contra a imprensa, porém, não são provocados pelos erros, e sim pelos acertos. Quanto mais acerta, mais a imprensa apanha dos poderosos. Os ataques vêm porque os órgãos jornalísticos cumprem seu papel e não traem seu público. Apesar dos desvios técnicos e éticos, que não são poucos nem irrelevantes, o trabalho dos jornalistas profissionais brasileiros tem sido uma das pouquíssimas reservas de verdade factual com que podemos contar.
Enfim, é por terem um mínimo de credibilidade que os jornais seguirão sob açoite num tempo em que os irracionalismos militantes se exasperam, um tempo marcado pela falta de senso e de coerência lógica, um tempo propício para os populismos de muitos matizes. Vejamos como são as coisas. Todos são unânimes em defender, em tese, que os corruptos sejam punidos; ao mesmo tempo, quase todos são contra qualquer julgamento quando o réu é alguém de seu partido, de sua estima ou de sua idolatria. Segundo a mentalidade da nossa era, corrupção ruim é a “corrupção dos outros”. De outra parte, a Justiça que apura a “nossa corrupção” não é Justiça – é a “Justiça dos outros”.
Logo, qualquer esforço para elucidar os fatos, de modo impessoal e apartidário, tende a ser recebido como um complô imundo para desmoralizar os políticos sacrossantos, pois a imprensa, de acordo com essa alucinação febril, não é nada além de instrumento de algum complô. O fanático menciona o nome de um ou outro jornal e proclama, com ares de profeta: “Você pode até não ver que conluio se esconde atrás das notícias, mas que algum complô existe, ah, pode apostar que existe”.
Chegamos, então, ao paradoxo interessantíssimo que nos aprisiona: no geral, todos concordam que os corruptos devem ser afastados da política e, no particular, todos acusam a Justiça de perseguir com selvageria o líder de sua predileção. Quando Jair Bolsonaro é acusado de fazer apologia da tortura ou do estupro, seus partidários protestam dizendo que tudo não passa de uma conspiração da Justiça e da imprensa. Quando Luiz Inácio Lula da Silva é acusado de fazer vista grossa para desvios oceânicos de dinheiro público, seus partidários protestam dizendo que tudo não passa de uma conspiração da Justiça e da imprensa. De forma quase idêntica, os furibundos de um lado e de outro atribuem à imprensa a causa do que dá errado com seus pretensos mitos salvadores.
A psicologia das massas perde conexão com os fatos. Animadas por líderes irresponsáveis, as multidões creem piamente em irrealidades fantasmagóricas invisíveis. Nossa imprensa se reduz mesmo a isso que dizem seus inimigos? Será que ela não passa de um amontoado de estratagemas mal costurados para derrubar esses e aqueles? As evidências, todas elas, respondem que não.
Um caso bem didático é o do alcaide de São Paulo. Muitos ainda acreditam que ele tenha sido eleito no bojo de uma articulação secreta e dolosa urdida pela “mídia” paulistana. Será? A relação de João Doria com a imprensa está longe de ser uma lua de mel. Ao contrário, a cobertura objetiva das mazelas da metrópole atrapalhou de vez a rotina e as ambições do prefeito. O tratamento que ele recebe no noticiário, visto no conjunto, não é melhor ou pior do que o que foi dispensado ao seu antecessor. Mal ou bem, o jornalismo fiscaliza o exercício do poder municipal. Não houve e não há complô “midiático” para eleger ou para sustentar João Doria.
Outro ponto crucial para avaliarmos a qualidade da imprensa é verificar se ela é um bloco organizado, que se comporta como um partido centralizado, ou se ela abre espaços para a pluralidade. Outra vez, não serão necessários grandes mergulhos teóricos para verificar que há diversidade de pontos de vista nas páginas dos jornais – e também entre os jornais. O pluralismo pode ser acanhado, débil, mas ele está aí.
Uma prova clara disso apareceu quando, em maio passado, o empresário Joesley Batista, numa conversa traiçoeira e esquisita, gravou os “ãs” e “arrãs” de Michel Temer para usá-los num acordo de delação premiada. Os três maiores jornais do País adotaram posições discrepantes, distintas. O Globo pediu em editorial a saída do presidente: “A renúncia é uma decisão unilateral do presidente. Se desejar, não o que é melhor para si, mas para o país, esta acabará sendo a decisão que Michel Temer tomará” (A renúncia do presidente, 20 de maio de 2017.) Os editoriais de O Estado de S. Paulo ficaram do lado oposto: “O vazamento de parte da delação do empresário Joesley Batista para a imprensa não foi um acidente. Seguramente há, nos órgãos que têm acesso a esse tipo de documento, quem esteja interessado, sabe-se lá por quais razões, em gerar turbulência no governo exatamente no momento em que o presidente Michel Temer parecia ter arregimentado votos suficientes para a difícil aprovação da reforma da Previdência” (A hora da responsabilidade, 19 maio de 2017) A Folha de S.Paulo, que tinha sido a única a defender, em 2016, a convocação de eleições gerais, preferiu uma postura de cautela.
Qual dos três tinha razão? Pouco importa. O que importa é que há debate na esfera pública. Há um mínimo de pluralismo. O jornalismo não é o causador da tragédia nacional. A imprensa deve e precisa melhorar, é claro, mas para isso a primeira atitude que os cidadãos e os políticos precisam tomar é parar de mentir sobre ela.
Animadas por líderes irresponsáveis, as multidões creem em irrealidades invisíveis
Embora seja temerária qualquer previsão para o ano que vem, de uma coisa a gente pode ter certeza desde já: o chavão de que as empresas jornalísticas manipulam e jogam sujo vai atropelar os olhos e os ouvidos dos pobres eleitores. Repórteres levarão a culpa pelos reveses dos partidos. Demagogos que não leem coisa alguma, nem mesmo os títulos de alto de página, insultarão as redações como se fossem luminares do “media criticism”.
É claro que em 2018 o noticiário cometerá erros. Nada de novo sob o Sol. Os bombardeios que políticos movem contra a imprensa, porém, não são provocados pelos erros, e sim pelos acertos. Quanto mais acerta, mais a imprensa apanha dos poderosos. Os ataques vêm porque os órgãos jornalísticos cumprem seu papel e não traem seu público. Apesar dos desvios técnicos e éticos, que não são poucos nem irrelevantes, o trabalho dos jornalistas profissionais brasileiros tem sido uma das pouquíssimas reservas de verdade factual com que podemos contar.
Enfim, é por terem um mínimo de credibilidade que os jornais seguirão sob açoite num tempo em que os irracionalismos militantes se exasperam, um tempo marcado pela falta de senso e de coerência lógica, um tempo propício para os populismos de muitos matizes. Vejamos como são as coisas. Todos são unânimes em defender, em tese, que os corruptos sejam punidos; ao mesmo tempo, quase todos são contra qualquer julgamento quando o réu é alguém de seu partido, de sua estima ou de sua idolatria. Segundo a mentalidade da nossa era, corrupção ruim é a “corrupção dos outros”. De outra parte, a Justiça que apura a “nossa corrupção” não é Justiça – é a “Justiça dos outros”.
Logo, qualquer esforço para elucidar os fatos, de modo impessoal e apartidário, tende a ser recebido como um complô imundo para desmoralizar os políticos sacrossantos, pois a imprensa, de acordo com essa alucinação febril, não é nada além de instrumento de algum complô. O fanático menciona o nome de um ou outro jornal e proclama, com ares de profeta: “Você pode até não ver que conluio se esconde atrás das notícias, mas que algum complô existe, ah, pode apostar que existe”.
Chegamos, então, ao paradoxo interessantíssimo que nos aprisiona: no geral, todos concordam que os corruptos devem ser afastados da política e, no particular, todos acusam a Justiça de perseguir com selvageria o líder de sua predileção. Quando Jair Bolsonaro é acusado de fazer apologia da tortura ou do estupro, seus partidários protestam dizendo que tudo não passa de uma conspiração da Justiça e da imprensa. Quando Luiz Inácio Lula da Silva é acusado de fazer vista grossa para desvios oceânicos de dinheiro público, seus partidários protestam dizendo que tudo não passa de uma conspiração da Justiça e da imprensa. De forma quase idêntica, os furibundos de um lado e de outro atribuem à imprensa a causa do que dá errado com seus pretensos mitos salvadores.
A psicologia das massas perde conexão com os fatos. Animadas por líderes irresponsáveis, as multidões creem piamente em irrealidades fantasmagóricas invisíveis. Nossa imprensa se reduz mesmo a isso que dizem seus inimigos? Será que ela não passa de um amontoado de estratagemas mal costurados para derrubar esses e aqueles? As evidências, todas elas, respondem que não.
Um caso bem didático é o do alcaide de São Paulo. Muitos ainda acreditam que ele tenha sido eleito no bojo de uma articulação secreta e dolosa urdida pela “mídia” paulistana. Será? A relação de João Doria com a imprensa está longe de ser uma lua de mel. Ao contrário, a cobertura objetiva das mazelas da metrópole atrapalhou de vez a rotina e as ambições do prefeito. O tratamento que ele recebe no noticiário, visto no conjunto, não é melhor ou pior do que o que foi dispensado ao seu antecessor. Mal ou bem, o jornalismo fiscaliza o exercício do poder municipal. Não houve e não há complô “midiático” para eleger ou para sustentar João Doria.
Outro ponto crucial para avaliarmos a qualidade da imprensa é verificar se ela é um bloco organizado, que se comporta como um partido centralizado, ou se ela abre espaços para a pluralidade. Outra vez, não serão necessários grandes mergulhos teóricos para verificar que há diversidade de pontos de vista nas páginas dos jornais – e também entre os jornais. O pluralismo pode ser acanhado, débil, mas ele está aí.
Uma prova clara disso apareceu quando, em maio passado, o empresário Joesley Batista, numa conversa traiçoeira e esquisita, gravou os “ãs” e “arrãs” de Michel Temer para usá-los num acordo de delação premiada. Os três maiores jornais do País adotaram posições discrepantes, distintas. O Globo pediu em editorial a saída do presidente: “A renúncia é uma decisão unilateral do presidente. Se desejar, não o que é melhor para si, mas para o país, esta acabará sendo a decisão que Michel Temer tomará” (A renúncia do presidente, 20 de maio de 2017.) Os editoriais de O Estado de S. Paulo ficaram do lado oposto: “O vazamento de parte da delação do empresário Joesley Batista para a imprensa não foi um acidente. Seguramente há, nos órgãos que têm acesso a esse tipo de documento, quem esteja interessado, sabe-se lá por quais razões, em gerar turbulência no governo exatamente no momento em que o presidente Michel Temer parecia ter arregimentado votos suficientes para a difícil aprovação da reforma da Previdência” (A hora da responsabilidade, 19 maio de 2017) A Folha de S.Paulo, que tinha sido a única a defender, em 2016, a convocação de eleições gerais, preferiu uma postura de cautela.
Qual dos três tinha razão? Pouco importa. O que importa é que há debate na esfera pública. Há um mínimo de pluralismo. O jornalismo não é o causador da tragédia nacional. A imprensa deve e precisa melhorar, é claro, mas para isso a primeira atitude que os cidadãos e os políticos precisam tomar é parar de mentir sobre ela.
Animadas por líderes irresponsáveis, as multidões creem em irrealidades invisíveis
Embora seja temerária qualquer previsão para o ano que vem, de uma coisa a gente pode ter certeza desde já: o chavão de que as empresas jornalísticas manipulam e jogam sujo vai atropelar os olhos e os ouvidos dos pobres eleitores. Repórteres levarão a culpa pelos reveses dos partidos. Demagogos que não leem coisa alguma, nem mesmo os títulos de alto de página, insultarão as redações como se fossem luminares do “media criticism”.
É claro que em 2018 o noticiário cometerá erros. Nada de novo sob o Sol. Os bombardeios que políticos movem contra a imprensa, porém, não são provocados pelos erros, e sim pelos acertos. Quanto mais acerta, mais a imprensa apanha dos poderosos. Os ataques vêm porque os órgãos jornalísticos cumprem seu papel e não traem seu público. Apesar dos desvios técnicos e éticos, que não são poucos nem irrelevantes, o trabalho dos jornalistas profissionais brasileiros tem sido uma das pouquíssimas reservas de verdade factual com que podemos contar.
Enfim, é por terem um mínimo de credibilidade que os jornais seguirão sob açoite num tempo em que os irracionalismos militantes se exasperam, um tempo marcado pela falta de senso e de coerência lógica, um tempo propício para os populismos de muitos matizes. Vejamos como são as coisas. Todos são unânimes em defender, em tese, que os corruptos sejam punidos; ao mesmo tempo, quase todos são contra qualquer julgamento quando o réu é alguém de seu partido, de sua estima ou de sua idolatria. Segundo a mentalidade da nossa era, corrupção ruim é a “corrupção dos outros”. De outra parte, a Justiça que apura a “nossa corrupção” não é Justiça – é a “Justiça dos outros”.
Logo, qualquer esforço para elucidar os fatos, de modo impessoal e apartidário, tende a ser recebido como um complô imundo para desmoralizar os políticos sacrossantos, pois a imprensa, de acordo com essa alucinação febril, não é nada além de instrumento de algum complô. O fanático menciona o nome de um ou outro jornal e proclama, com ares de profeta: “Você pode até não ver que conluio se esconde atrás das notícias, mas que algum complô existe, ah, pode apostar que existe”.
Chegamos, então, ao paradoxo interessantíssimo que nos aprisiona: no geral, todos concordam que os corruptos devem ser afastados da política e, no particular, todos acusam a Justiça de perseguir com selvageria o líder de sua predileção. Quando Jair Bolsonaro é acusado de fazer apologia da tortura ou do estupro, seus partidários protestam dizendo que tudo não passa de uma conspiração da Justiça e da imprensa. Quando Luiz Inácio Lula da Silva é acusado de fazer vista grossa para desvios oceânicos de dinheiro público, seus partidários protestam dizendo que tudo não passa de uma conspiração da Justiça e da imprensa. De forma quase idêntica, os furibundos de um lado e de outro atribuem à imprensa a causa do que dá errado com seus pretensos mitos salvadores.
A psicologia das massas perde conexão com os fatos. Animadas por líderes irresponsáveis, as multidões creem piamente em irrealidades fantasmagóricas invisíveis. Nossa imprensa se reduz mesmo a isso que dizem seus inimigos? Será que ela não passa de um amontoado de estratagemas mal costurados para derrubar esses e aqueles? As evidências, todas elas, respondem que não.
Um caso bem didático é o do alcaide de São Paulo. Muitos ainda acreditam que ele tenha sido eleito no bojo de uma articulação secreta e dolosa urdida pela “mídia” paulistana. Será? A relação de João Doria com a imprensa está longe de ser uma lua de mel. Ao contrário, a cobertura objetiva das mazelas da metrópole atrapalhou de vez a rotina e as ambições do prefeito. O tratamento que ele recebe no noticiário, visto no conjunto, não é melhor ou pior do que o que foi dispensado ao seu antecessor. Mal ou bem, o jornalismo fiscaliza o exercício do poder municipal. Não houve e não há complô “midiático” para eleger ou para sustentar João Doria.
Outro ponto crucial para avaliarmos a qualidade da imprensa é verificar se ela é um bloco organizado, que se comporta como um partido centralizado, ou se ela abre espaços para a pluralidade. Outra vez, não serão necessários grandes mergulhos teóricos para verificar que há diversidade de pontos de vista nas páginas dos jornais – e também entre os jornais. O pluralismo pode ser acanhado, débil, mas ele está aí.
Uma prova clara disso apareceu quando, em maio passado, o empresário Joesley Batista, numa conversa traiçoeira e esquisita, gravou os “ãs” e “arrãs” de Michel Temer para usá-los num acordo de delação premiada. Os três maiores jornais do País adotaram posições discrepantes, distintas. O Globo pediu em editorial a saída do presidente: “A renúncia é uma decisão unilateral do presidente. Se desejar, não o que é melhor para si, mas para o país, esta acabará sendo a decisão que Michel Temer tomará” (A renúncia do presidente, 20 de maio de 2017.) Os editoriais de O Estado de S. Paulo ficaram do lado oposto: “O vazamento de parte da delação do empresário Joesley Batista para a imprensa não foi um acidente. Seguramente há, nos órgãos que têm acesso a esse tipo de documento, quem esteja interessado, sabe-se lá por quais razões, em gerar turbulência no governo exatamente no momento em que o presidente Michel Temer parecia ter arregimentado votos suficientes para a difícil aprovação da reforma da Previdência” (A hora da responsabilidade, 19 maio de 2017) A Folha de S.Paulo, que tinha sido a única a defender, em 2016, a convocação de eleições gerais, preferiu uma postura de cautela.
Qual dos três tinha razão? Pouco importa. O que importa é que há debate na esfera pública. Há um mínimo de pluralismo. O jornalismo não é o causador da tragédia nacional. A imprensa deve e precisa melhorar, é claro, mas para isso a primeira atitude que os cidadãos e os políticos precisam tomar é parar de mentir sobre ela.
*Jornalista, é professor da ECA-USP

Brasil tem maior número de mortes violentas no mundo, diz entidade




Mais de 12% dos mortos do planeta estão no País, que também tem 

terceiro maior número de assassinatos de mulheres 






Jamil Chade, O Estado de S.Paulo
07 Dezembro 2017 | 09h45
GENEBRA - O Brasil tem o maior número de mortes violentas registradas no mundo. O alerta faz parte de um novo informe publicado nesta quinta-feira pela
entidade Small Arms Survey, considerada como referência mundial para
a questão de violência armada. Em termos absolutos, a entidade aponta
que a situação no Brasil supera a violência na Índia, Síria, Nigéria e
Venezuela. 

Brasil tem maior número de mortes violentas no mundo, diz entidade
Hoje, mais de 20% dos homicídios são cometidos com essas armas.  Foto: REUTERS/Ralph D. Freso
Gergely Hideg, autor do estudo, indica que seus cálculos chegaram a
conclusão de que 70,2 mil pessoas foram vítimas de mortes violentas no
Brasil em 2016. "O número é superior ao que as autoridades afirmam",
disse o pesquisador, cuja instituição é financiada pelo governo da Suíça e
seus dados usados como base em programas da ONU. Segundo ele, o
número inclui as estatísticas oficiais de homicídios, mas também as
mortes violentas não intencionais e mortes em intervenções legais. 
O tamanho da população certamente tem um impacto nesses números.
 Mas, por si, só não explica a dimensão da violência. De uma forma geral,
Hideg aponta para três fatores que estariam levando ao cenário de mortes: a falta do estado de direito para uma parcela da população, a cultura da violência e
 o crime organizado. 
Em termos de homicídios, o estudo aponta para 58 mil mortes no Brasil
em 2015. Não há dados disponíveis sobre 2016. "Em cidades como o Rio
de Janeiro, a violência de gangues, o uso excessivo de força pelo estado,
um sistema de Justiça criminal corrupto, a militarização de certas áreas e
o acúmulo social de violência - onde violência gera mais violência - é o
que marca as taxas extremamente elevadas de homicídios", diz o estudo. 
"Traficantes de drogas, grupos de extermínio e milícias que promovem a
extorsão de residentes de áreas inseguras, junto com a polícia e outros
funcionários públicos que oferecem proteção a esses grupos, são centrais
para a maioria dos crimes violentos que ocorrem no Rio", constata. 
Com armas de fogo, a violência aumentou no Brasil entre 2015 e 2016.
Hoje, mais de 20% dos homicídios são cometidos com essas armas. 
Outra constatação do levantamento é de que o Brasil tem o terceiro maior número de mortes de mulheres no mundo. De acordo com o estudo, 84% das vítimas de mortes violentas são homens no planeta.  Mas meninas e mulheres somaram
ainda assim 87 mil mortes.  
Em termos absolutos, foram 10,7 mil mortes de mulheres na Índia, 6,4
mil na Nigéria, 5,7 mil no Brasil e 4,4 mil no Paquistão. 

Média

A entidade estima que, em 2016, 560 mil pessoas foram mortas pelo
mundo de forma violenta. Isso representa um assassinato a cada minuto.
Sozinho, porém, o Brasil representa mais de 12% dessas vítimas. 
A taxa de 7,5 por cada 100 mil habitantes no mundo é um pouco mais
baixa que os registros de 2014 e 2015. Mas, desse total, 385 mil foram
homicídios intencionais, número que registrou a primeira alta desde
 2004. Entre 2015 e 2016, a taxa subiu de 5,11 homicídios para cada 100
mil habitantes para 5,15. 
O informe também constata que a maioria das mortes violentas não
ocorre em países em guerra. Em 2016, mortes resultantes de conflitos
representaram apenas 18% do total de mortes violentas no mundo.
Dos 23 países mais perigosos do mundo, apenas nove sofrem com
guerras. 
Em campos de batalha, o número de mortes foi de 99 mil em 2016, abaixo dos 119 mil em 2015.
Se o Brasil lidera o ranking mundial em termos absolutos, é a Síria que
tem o maior número de mortes por habitantes. Ela é seguida por
 El Salvador, Venezuela, Honduras e Afeganistão. 
Nesse caso, a taxa no Brasil subiu entre 2015 para 2016. Ela era de cerca
 de 26 para cada 100 mil pessoas e passou para cerca de 30. Por esse
critério, o País é o 16o mais violento do mundo, ainda assim superando
países como Guatemala, Colômbia e República Centro Africana. 
Se essa realidade não mudar, a entidade estima que, até 2030, 610 mil pessoas serão alvos de mortes violentas no mundo a cada ano. 
O estudo ainda estima que 1,35 milhão de vidas poderiam ser salvas até
2030 se governos reconhecessem a dimensão do problema. Só em
termos de homicídios. 825 mil deles poderiam ser evitados com medidas
de controle e prevenção. A América Latina seria a região do mundo que
 mais se beneficiaria de uma mudança do comportamento de governos,
com 489 mil vidas salvas até 2030. 

Oportunidade educacional varia de forma desigual em cidades brasileiras



O lento avanço educacional brasileiro ocorre de maneira desigual em cerca de 5.000 municípios do país. Pouco menos da metade deles (46% do total) melhorou em um indicador que mede a evolução de fatores como inclusão escolar e qualidade do ensino, entre 2015 e 2017.
Na outra metade, um pequeno grupo ficou estagnado (16% do total) e outro maior chegou a retroceder (38%). Os dados são da 2ª edição do Ioeb (Índice de Oportunidades da Educação Brasileira), que será divulgado nesta quinta (7) pelo Centro de Liderança Pública, uma organização não governamental.
Apesar do movimento heterogêneo entre as cidades, o resultado do Brasil como um todo teve pequena melhora ao passar de 4,5 para 4,7 (nota que pode variar de 0 a 10).
Os municípios do Ceará, que já haviam se destacado na 1ª edição do índice, aumentaram seu domínio no topo do ranking. Entre as 30 cidades mais bem colocadas em 2015, 5 eram do Estado nordestino. Neste ano, esse número saltou para 12. Sobral repetiu a primeira colocação geral.
SÃO PAULO
Entre os Estados, São Paulo passou de 5,1 para 5,3 e manteve a liderança, seguido por Minas Gerais. Bahia, Maranhão e Pará permaneceram no fim da lista.
O município de São Paulo saltou da 1.559º para a 206º posição, mas parte do avanço se deve a uma questão metodológica. O Ioeb incorpora em seu cálculo o resultado do Ideb (índice que mede a aprendizagem calculado bienalmente pelo governo federal) de dois anos atrás.
Como a capital paulista não teve Ideb para as primeiras séries do ensino fundamental em 2013, a primeira versão do Ioeb usou o indicador referente a 2011, fazendo com o que salto registrado em 2015 tenha ocorrido em relação a quatro anos, e não aos dois anos anteriores. Mas o município melhorou em outros quesitos mensurados pelo Ioeb, como aumento da fatia de alunos na faixa etária certa nas escolas.
INCLUSÃO EDUCACIONAL
Além de incorporar o Ideb (que mede desempenho dos alunos em português e matemática e taxas de aprovação das escolas), o Ioeb abarca a inclusão na educação infantil, a fatia de alunos atrasados e fora da escola, o tempo de experiência dos diretores, a porcentagem de professores com nível superior e a duração da jornada escolar.
As escolas privadas também entram no cálculo do Ioeb, embora nem todos os dados do índice estejam disponíveis para a rede particular. É descontado o efeito do nível socioeconômico familiar sobre o desempenho dos alunos, fazendo com que os resultados aferidos sejam mais próximos do que a própria escola agregou à aprendizagem das crianças.
Segundo Fabiana de Felício, idealizadora tanto do Ideb quanto do Ioeb em coautoria com o economista Reynaldo Fernandes, a ideia do índice mais novo é oferecer um retrato que também mostre a inclusão educacional. "Quando pensamos o Ideb, achávamos que resultado era o que mais importava, que ele já refletiria os insumos educacionais. Com o tempo, nos demos conta de que nem sempre isso ocorre."
Ela cita o fato de que alunos que deixam a escola têm impacto negativo em seu Ideb –por meio de uma taxa de aprovação mais baixa– apenas no ano em que saíram. Depois, o efeito desaparece mesmo que eles não voltem.
INTEGRADA
No Ioeb, as crianças e jovens evadidos ou muito atrasados continuam puxando para baixo o resultado porque é considerada a taxa de matrícula líquida, que mede a fatia da população que está na escola e no nível adequado à sua faixa etária.
O indicador considerado, nesse caso, é o do ensino médio. Isso faz com que variações da taxa nesse ciclo do ensino afetem a nota dos municípios e não apenas dos Estados, normalmente responsáveis pelos três últimos anos da educação básica.
"O Ioeb busca olhar não apenas a rede, mas o território de forma integrada para aferir a oportunidade que aquela criança ou aquele jovem tem naquela região", afirma Luana Tavares, diretora executiva do CLP.
CEARÁ COMBATE EVASÃO
"Basta o aluno faltar uma vez que batemos na porta de sua casa para ver o que está acontecendo." Essa é uma das receitas que Nova Olinda, no Ceará, tem empregado para reduzir a evasão nas escolas e melhorar a aprendizagem dos alunos, segundo Ana Célia Matos Peixoto, secretária de Educação do município.
"Chegamos a tentar monitorar isso pelo telefone, mas muitas vezes ouvíamos desculpas, como a de que o aluno estava doente, e depois descobríamos que não era verdade", afirma. Segundo ela, cada escola tem um coordenador que verifica a presença dos alunos em todas as salas logo no início das aulas diariamente.
Medidas como essa contribuíram para o salto de Nova Olinda do 154º para o 3º lugar no Ioeb (Índice de Oportunidades da Educação Brasileira), entre 2015 e 2017. As políticas da cidade também incluem reforço escolar no contraturno e bônus pagos aos professores que atingem bons resultados.
Elas se assemelham a medidas adotadas em outros municípios cearenses como Sobral, que se tornou uma das referências no Brasil por melhoras nos resultados em testes de proficiência. Segundo os idealizadores do Ioeb, um dos objetivos do índice é disseminar as práticas que têm contribuído para a melhora da qualidade e da inclusão educacional.
"O crescimento no número de municípios do Ceará entre aqueles com melhor desempenho começa a validar a hipótese de que uma maior sinergia entre o Estado e municípios gera resultados", diz Luana Tavares, diretora do CLP. Além da ONG, a Fundação Roberto Marinho, a Fundação Lemann, o Instituto Península e o Instituto Natura também apoiam o Ioeb.
Junto com o índice também será divulgado nesta quinta-feira (7) um estudo qualitativo que buscou mapear práticas comuns dos 100 municípios com melhores resultados. Segundo Fabiana de Felício, que coordenou a pesquisa, a ação preventiva contra a evasão é uma das políticas que se destacam. "A identificação precoce dos alunos que faltam tem permitido que os gestores tomem outras medidas, como reposição imediata do conteúdo".
Outro aspecto em comum entre os municípios com bons resultados, ressalta a pesquisadora, é o equilíbrio entre centralização e autonomia e a boa gestão de recursos. "Estamos vendo mais casos em que as secretarias de educação têm maior autonomia para gerir o orçamento da área", diz.
OPORTUNIDADES NA EDUCAÇÃOÍndice avança no país, mas de forma desigual; cidades do CE se destacam, e SP é o melhor Estado

28 de novembro de 2017

Where Do Ideas of “Success” and “Failure” in Schooling Come From? (Part 3) by larrycuban

In parts 1 and 2, I answered the question of where these ideas came from. In this post, I describe how these core values, the DNA of American character, spread.

How core values spread in society
The values of individualism, equal opportunity, and community have shaped American views of achieving success and avoiding failure for the past two centuries. They are transmitted through various democratic institutions such as businesses, political parties, sports, religious groups, media, families, and schooling. All have had influence in defining individual and group success and in shaping the flow and exercise of these values in daily affairs.
Business
Consider that in a market-based economy where citizens are expected to buy many products, competition reigns and the consumer is king. And each individual king has to know what is out there. America is (and has been) a land of abundance where hundreds of television channels, scores of cereals, dozens of car models, and seasonally fashionable clothes compete for consumers' attention. Ads aim to capture consumer eyeballs and open wallets.
Individuals buy products to bolster their health (e.g., prescriptions for everything from constipation to multiple sclerosis), enhance physical appearance (e.g., skin creams that get rid of wrinkles and treatments that grow hair on bald pates), satisfy different tastes in entertainment (e.g., vampire and horror flicks to Bambi to family sit-coms) and increase social status (e.g., moving from a studio apartment to a two-bedroom house). Ads, then, pervade television channels, print and social media seeking a nanosecond of consumers' attention in a cut-throat economy.
Sure, the value of individual choice reigns in the ad world but the of equal opportunity has become more present as well. Anyone over the age of 40 has noted that ads asking consumers to buy particular products have become racially, ethnically, and sexually diverse in recent decades. Black, Latino, Asian, and gay adults announce the most recent drug for diabetes, hair shampoo, and automobile. Corporate ads displaying inter-racial couples and families  using their products announce that they are equal opportunity vendors who reinforce the diversity that America has always been but now is recognized and fought over by companies.
If most ads cater to individual health, looks, entertainment preferences, and social status, there are also occasional ads that ring consumer bells to engage with their community. The restaurant chain, Chilis, for example ran a clutch of ads a few years ago showing fathers and daughters talking over burgers, a party welcoming a returning soldier, people helping others after a natural disaster.
Ads, then, transmit core American values to the reading and viewing public.
Sports
Consider Little League to professional baseball where individuals shine as individual all-stars and, at the same time, as team-mates fighting to win games. Both individual and community matter in achieving success or experiencing failure.
Since the integration of professional sports after World War II, individual merit has come to count more than skin color,  ethnicity, religion, geography or who one knows. Teams compete to win football games, lead the league, and get into the Super Bowl. Team work glows when two basketball players do a pick-and-roll to make a three pointer or a short stop scoops up a grounder and throws to the second baseman who rifles it to first for a double play to end the inning and the game. Individuals cooperate to win a game.
And when a team from Cleveland, Boston, New York, or Houston wins the national championship be it in baseball, basketball, or football, the city celebrates as a community proud and joyous in the victory.
Yet parents and sports fans do worry about  athletes using dope to enhance their performance in, for example, football, baseball and competitive bicycling. Concerns over professional and non-professional individuals and teams cheating and too much emphasis on winning at all costs leading to compromised individual athletes who are expected to be moral examples.
Even with these deep concerns on the part of the public, in football, soccer, and basketball working together as a team, representing a city or region and performing as an individual are sides of the same coin in sports as well as America. Both are important.
Sports at all levels from sandlot to professional, then, have embedded within them the core American values of individualism, equal opportunity, and community.
And here is where schools enter the picture as another social institution not only reflecting the larger culture but also as a tax-supported organization expected to transmit and instill those all-important core values.
The final post of this series describes how schooling reflects those deeply American values.



larrycuban | November 28, 2017

25 de novembro de 2017

Jorge Werthein: O valor da educação


Estamos cansados de saber que, para muitos governos, o que importa em educação não é propriamente a qualidade ou a sua relevância para a vida das pessoas e para o desenvolvimento do país. Por vezes, é mais importante atender a “interesses transitórios“ do que colocar recursos em projetos de longo prazo que não geram dividendos políticos imediatos e de grande visibilidade. Não há convicção quanto ao valor estratégico dos investimentos em educação. Para muitos governantes, dinheiro bem aplicado é o do pagamento das dívidas externa e interna, ou na construção de grandes obras como pontes, viadutos, estradas... Todavia, essa lógica do atraso, a cada dia que passa, fragiliza-se diante de evidências e fatos que indicam o contrário.  
 
Um estudo realizado por José Márcio Camargo, a pedido da Unesco, mostrou uma relação positiva entre anos de escolaridade e taxa de crescimento do produto. Pondera que investimentos em capital humano, além de terem uma taxa de retorno privada elevada (entre 5% e 15% para cada ano adicional de escolaridade), têm também uma taxa de retorno social elevada, que pode atingir de três a quatro vezes as taxas de retorno privadas. Se a taxa de retorno social é mais elevada, o investimento público em educação está não apenas justificado, como também se eleva à condição de investimento prioritário diante da situação social e educacional do país.  
 
Porém, se por um lado, os estudos mostram o retorno da educação para as pessoas e para a sociedade, por outro, não será com qualquer educação que será possível atingir esses resultados. Ninguém se iluda, o caminho não é fácil. Está provado que a gestão governamental tem um impacto direto sobre as relações entre a despesa e os indicadores sociais. Países com uma gestão deficiente, devida, geralmente, a instituições frágeis e a desvios contumazes, tendem a registrar taxas anuais de crescimento da riqueza nacional 1,6% menores do que a de outros países. Importa, portanto, quem aplica as verbas e como as aplica.  
 
Nesse sentido, Eric Hanushek, economista particularmente duro com o desperdício, supôs que, em 2005, um país criasse um programa bem-sucedido de melhoramento escolar. É claro que a reforma leva tempo e as crianças precisam crescer até atingirem o tempo de trabalhar. Porém, os efeitos chegam. Uma reforma que alcança as metas em 10, 20, 30 anos acumula resultados. Com um modesto, mas significativo, aumento dos conhecimentos dos alunos, em 2040 o PIB seria quase 4% maior do que se não fizesse mudanças na educação básica. Se as reformas têm resultados em menor prazo, maiores são os aumentos do PIB. Esse aumento do crescimento é suficiente para pagar, ao fim de 20 anos, todo o dinheiro aplicado na educação. Em outros termos, a educação devolve com “juros“ o que se aplicou nela de maneira zelosa e competente. Fica claro que não é só cortar a fita de inauguração. Um governo pode se orgulhar de construir tantas salas de aula por ano, tantas universidades em dois anos, diplomar tantos professores em três anos. Qual o impacto sobre a qualidade? Qual a eficiência dos gastos? Por isso mesmo, educação não é problema de governos, mas, sobretudo, de Estado, com horizontes claros a alcançar, com planejamento e em uma visão de longo prazo.  
 
Vejamos os países emergentes conhecidos pela sigla “Bric“ (Brasil, Rússia, Índia e China). Analistas afirmam que o Brasil é o “país-baleia“, mais promissor. A sua população é importante, mas não tem as gigantescas massas asiáticas. O PIB por habitante é alto; a economia, bem diversificada, com setores de alta tecnologia e, sobretudo, tecnologias da informação; a abertura econômica é prudente. Mas o lema “exportar é bom, importar é mal“ subestima a necessidade da integração rápida às redes globalizadas, para produzir mercadorias e prestar serviços de maior valor, alcançando o desenvolvimento sustentável e eqüitativo. O maior freio apontado é a falta de políticas eficientes para a educação, a ciência e a tecnologia, integradas, sem compartimentar-se. Com isso, faltam condições para a interdependência com o exterior. Paradoxalmente, com medo da dependência externa, cria-se mais dependência e deixa-se de alcançar o desenvolvimento e a redução da pobreza.  
 
Portanto, a educação não é queima de dinheiro. É queima de ignorância. Cabe à Unesco, como organização especializada das Nações Unidas nas áreas de educação, ciência, cultura e comunicação, lembrar e insistir sempre: a educação se paga quando suas verbas são bem utilizadas. A educação dá frutos, não na safra do próximo outono, mas ao longo de muito tempo, abrindo os caminhos para os países saírem da pobreza e da periferia. Sem essa visão estadista não será possível romper o círculo que perpetua o atraso.