16 de outubro de 2013

MATIAS SPEKTOR O que a gente quer


O assento rotativo no Conselho de Segurança é a melhor plataforma para jogadas de alcance global
Há um risco de ficarmos do lado de fora do Conselho de Segurança das Nações Unidas até 2020.
A alocação de assentos rotativos é costurada dentro de blocos regionais, e o grupo latino-americano já tem sua lista: Chile (2014-2015), Venezuela (2015-2016), Uruguai (2016-2017), Bolívia (2017-2018), Peru (2018-2019) e República Dominicana (2019-2020).
A fila não é intransponível.
O Brasil ainda pode convencer algum vizinho a ceder-lhe o lugar em troca de incentivos ou de apoio em outros foros.
Em tese, um bom candidato para tal permuta seria a Venezuela.
A diplomacia venezuelana não parece muito empenhada em fazer campanha pelo assento e também ainda não conseguiu metade dos votos necessários para ter o endosso de todos os países.
Tendo virado membro do Mercosul com impulso brasileiro, o país tem muito espaço para negociar com Brasília.
Do ponto de vista brasileiro, o biênio 2015-2016 é sedutor: além das jornadas esportivas, a data marca o início de um novo governo.
Se Dilma se reelege, o assento rotativo no Conselho de Segurança da ONU é um lugar privilegiado para lançar a política externa do segundo mandato.
Se a oposição no país ganha, aquele é o ambiente ideal para imprimir a marca do novo.
Na prática, entretanto, tudo se complica. Há sete anos, Venezuela e Guatemala travaram uma disputa feroz pelo assento rotativo, que terminou indo para o Panamá, no que foi um golpe para o então governo de Hugo Chávez.
Como a Guatemala está no Conselho de Segurança agora, espera-se que a Venezuela ocupe seu assento logo mais.
Restaria ao Brasil então tentar a sorte com um outro país.
O tema é delicado, porque são todos relativamente pequenos e, por isso, suscetíveis a enxergar em qualquer gesto brasileiro a presunção de país grande.
O tempo é crucial. A cada mês que passa, a lista se consagra como uma realidade contra a qual será impossível lutar sem dividir a região.
Por que o Brasil não entrou para a lista quando ela estava ainda sendo negociada?
Afinal, o assento rotativo no Conselho de Segurança é a melhor plataforma para jogadas de alcance global.
É lá que se costuram regras importantes do jogo, tais como a governança da internet, o programa nuclear do Irã, a utilização de veículos não tripulados e o futuro da Síria, para citar apenas os mais chamativos.
É lá que os países põem em prática a sua visão de ordenamento internacional e brigam por ela.
E é lá que se obtêm os avanços táticos necessários para um dia, quem sabe, provocar uma reforma do organismo e obter representação permanente.
Há duas interpretações complementares sobre os porquês de nossa ausência na lista: falta de apetite voraz e uma dose de inércia.
Talvez tenha chegado a hora de dar um passo atrás para pensar se aquilo que a gente diz querer está alinhado àquilo que a gente de fato quer.
Folha de S.Paulo, 16/10/2013

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