1 de dezembro de 2013

Brasileiro se endivida para estudar


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Depois do boom de consumo de geladeiras, TVs e carros, nova classe média gasta com ensino superior e cursos profissionalizantes    

30 de novembro de 2013 | 18h 12

Márcia De Chiara, de O Estado de S. Paulo
SÃO PAULO - O brasileiro se endividou não apenas para comprar geladeira, fogão e carro zero, mas também para estudar. Dívidas com faculdade, escola e cursos aparecem na segunda posição no ranking dos gastos que levaram ao endividamento, revela uma pesquisa nacional sobre emprego temporário neste final de ano.

Destes, 59% apontaram o cartão de crédito como motivo do endividamento, seguido pelo gasto com estudo, com 28% das respostas. O endividamento com mensalidade de escola, faculdade e curso está à frente até do cheque especial, do carnê e dos financiamentos para compra do carro zero e da casa.Realizada pela Vagas, empresa de tecnologia especializada em recrutamento eletrônico, a enquete consultou cerca de 1.400 currículos entre a última semana de outubro e a primeira semana de novembro e constatou que 22% dos candidatos que pretendem obter renda extra com emprego temporário este ano querem pagar dívidas.
"O peso da dívida com estudo surpreendeu", diz Fabíola Lago, coordenadora da pesquisa. Ela explica que pela primeira vez neste ano procurou-se saber a razão do endividamento dos candidatos a uma vaga de trabalho temporário. No entanto, observa, por meio de outras pesquisas do mercado, o cartão de crédito sempre foi o principal foco de endividamento. A pesquisa mostra que o cartão continua sendo o vilão e apareceu no estudo como importante fator de endividamento.
Outro resultado que reforça as indicações de que a educação ganhou relevância entre os gastos que levaram às dívidas é que 61% dos endividados têm formação superior cursando ou interrompida, 35% têm 1.º ou 2.º graus completos ou incompletos e 5%, curso profissionalizante. "A parcela de endividados com ensino superior completo é muito pequena", diz Fabíola.
O avanço da demanda por educação fica nítido no Censo da Educação Superior, divulgado pelo Ministério da Educação. No fim de 2012, havia no País 7 milhões de alunos matriculados em curso superior, a maioria (73%) em redes particulares de ensino. É quase duas vezes e meia o contingente registrado em 2001, quando 3 milhões de pessoas estavam nessa condição. Só de 2011 para 2012, o número de ingressantes nas instituições de educação superior cresceu 17,1%. Nos últimos dez anos, a taxa média anual de ingressos foi de 8,4%.
Boom. "A nova classe média ampliou a demanda por educação porque está pensando no futuro", afirma Alexandre Pierantoni, sócio da PwC Brasil e líder na área de private equity e educação. Ele observa que cursos de graduação, pós-graduação e de línguas são objetos de demanda da classe emergente, além de outros produtos e serviços básicos.
A maior procura por educação também aumentou o interesse de investidores e provocou uma onda de fusões e aquisições no setor, observa Pierantoni. Entre 2007 e junho deste ano, foram fechados 156 negócios no setor. O primeiro movimento foi de transações entre grupos ligados ao ensino universitário. O próximo movimento de fusões deve se concentrar no ensino médio e fundamental,
Também para Fabíola, da Vagas, a maior procura por educação faz parte do boom de consumo de tudo que houve no País: turismo, eletrodomésticos, carros, por exemplo. "O Brasil tem uma classe emergente que está consumindo mais, inclusive com mais oportunidade de cursar nível superior", observa.
É que o brasileiro da nova classe média vê a despesa com educação não como um gasto, mas um investimento, explica Renato Meirelles, presidente do instituto de pesquisas Data Popular, voltado para as classes emergentes. Isso significa que esse desembolso é encarado por essa classe como uma possibilidade de melhoria do padrão de vida no futuro.
Com base em dados coletados em pesquisas feitas pelo Data Popular e combinados com informações da Pnad e da POF, ambas pesquisas do IBGE, Meirelles calcula que os brasileiros desembolsaram R$ 75 bilhões este ano com educação, cifra 5,6% maior em relação a 2012.
Meirelles destaca que o Sudeste responde por mais da metade do gasto (53%). Mas o Nordeste, onde movimento de migração social foi intenso, vem em segundo lugar, com 18% do total, e à frente do Sul (15%).
 

SAMUEL PESSÔA: Mais educação é mais salário?


Apesar de pesquisa empírica e de 50 anos de teoria, ainda há ceticismo sobre isso, com mais verbo do que números
A hipótese de causalidade entre educação, produtividade e desenvolvimento econômico foi formulada na virada dos anos 1950 para os 1960 por três pesquisadores: Theodore Schultz, Gary Becker e Jacob Mincer.
Mais de 50 anos depois da publicação dos trabalhos dos pioneiros, e uma extensa pesquisa empírica, ainda persiste em alguns rincões, com mais verbo do que números, certo ceticismo.
A pesquisa sobre o tema decorreu de uma observação praticamente universal: a forte correlação positiva entre o nível de escolaridade e a renda do trabalho.
Os pesquisadores mencionados no primeiro parágrafo formularam a seguinte hipótese, conhecida como teoria do capital humano: a educação dota as pessoas de conhecimentos e técnicas, tornando-as trabalhadoras mais produtivas. A correlação positiva entre salário e educação refletiria uma relação de causalidade: maiores níveis de educação elevam os salários porque o mercado de trabalho remunera os trabalhadores de acordo com sua produtividade.
Nos anos 1970, o pesquisador Michael Spence apresentou uma instigante hipótese contrária à teoria do capital humano. Conjecturou que os maiores níveis de renda associados às maiores escolaridades resultavam de causalidade reversa. Pessoas que nasceram mais inteligentes e habilidosas são mais produtivas. O mercado de trabalho, porém, não tem como inferir as habilidades inatas de cada trabalhador. Por essa razão, a qualificação acadêmica funcionaria como uma sinalização da produtividade individual.
O estudo é mais fácil para as pessoas mais inteligentes e habilidosas. Assim, elas estudam mais para sinalizar ao mercado de trabalho sua maior produtividade.
Segundo a teoria da sinalização de Spence, a correlação positiva entre renda e educação decorre de um problema de variável omitida. A não observada inteligência inata induz maior nível de escolaridade, mecanismo de sinalização do maior talento. Não haveria relação causal direta de escolaridade para renda, mas sim de habilidade para renda, sendo a escolaridade um mero farol, uma sinalização da qualidade inata do indivíduo, esta sim a responsável pela sua maior produtividade.
Esse tema tem dominado a academia por muitas décadas. Não há dúvida de que maiores salários estão associados a maiores escolaridades e maiores níveis de inteligência. Será que há uma parcela do ganho de renda que esteja associado à educação independentemente das habilidades cognitivas inatas?
Para responder à questão formulada no parágrafo anterior, pode-se construir um experimento, de forma similar à pesquisa médica sobre a eficiência de uma droga.
De uma população homogênea,metade seria sorteada para ser o grupo de tratamento, e metade, o grupo de controle. O primeiro receberia incentivos para investir em educação, ao contrário do grupo de controle. No mais em tudo semelhantes, um eventual ganho de renda futuro no grupo de tratamento deveria ser atribuído ao maior esforço educacional.
As dificuldades óbvias em construir experimentos ideais, como o mencionado acima, direciona- ram boa parte da pesquisa para outros caminhos. Por exemplo, é pos- sível trabalhar com gêmeos idênticos que adquiriram diferentes níveis de educação.
Outra possibilidade é considerar os impactos das leis de idade mínima para sair da escola nos EUA. Dependendo do mês do ano em que a pessoa nasceu, se no primeiro ou no segundo semestre, ela é obrigada a estudar um ano a mais (ou não) na escola antes de abandoná-la. No universo das pessoas que não desejam continuar a estudar, esse ano a mais de estudo melhora de forma significativa a renda futura.
Testes empíricos foram realizados para o papel da educação apenas como sinalização de habilidades inatas, e os resultados foram desapontadores. Melhor educação parece ser a causa dos maiores salários: cada ano de escolaridade eleva o salário de um trabalhador em 10%.
Numa próxima coluna (provavelmente em duas semanas, pois a seguinte versará sobre o PIB do terceiro trimestre, a ser divulgado no dia 3 pelo IBGE), abordarei o segundo capítulo da saga --ainda em andamento-- sobre o impacto agregado da educação. Um esforço coletivo por maiores níveis de escolaridade levará a maior crescimento econômico?

Educação traria mais crescimento que subsídios

ENTREVISTA NILSON TEIXEIRA
A TRAVA E AS CHAVES

Benefício, se houver, deveria ser linear, sugere economista
Baixo investimento em infraestrutura e subsídios contribuem para baixo crescimento
ÉRICA FRAGADE SÃO PAULOANA ESTELA DE SOUSA PINTOEDITORA DE "MERCADO", Folha de S.Paulo, 1/12/2013

O Brasil é o único país entre os 26 que perseguem metas de inflação em que o Banco Central não possui autonomia formal --regime no qual os diretores têm mandato fixo, durante o qual não podem perder o cargo.
A conclusão é de pesquisa do Credit Suisse. Para Nilson Teixeira, economista-chefe do banco, a falta de autonomia contribui para a inflação mais alta. Preços elevados, diz, limitam o consumo, o que reduz as compras no varejo, freando a produção e reduzindo investimentos.
Outras travas ao crescimento, segundo Teixeira, são baixo investimento em infraestrutura e os subsídios do governo ao setor privado.
Folha - Por que a confiança do empresário não se recupera?
Nilson Teixeira - Os cortes de impostos e a redução do preço de energia deveriam ter gerado mais otimismo e até uma queda da inflação.
Mas os gastos continuaram crescendo e a arrecadação caiu, reduzindo o superavit primário. Isso elevou o risco fiscal, criando uma incerteza que se sobrepôs ao benefício da isenção tributária. Outro ponto foram as intervenções do governo na economia e o processo de idas e vindas na comunicação das medidas, com vários porta-vozes.
Para os empresários as mensagens dos porta-vozes são contraditórias?
Não diria contrastantes, mas cada um tem seu tom. Não tenho dúvida de que o governo tem, por definição, boas intenções. Mas as idas e vindas, as mudanças de rota causam incerteza. Essa dificuldade de comunicação tem impacto negativo no potencial de crescimento.
Há ações do governo que podem melhorar o PIB potencial no médio prazo.
Quais?
Por exemplo, como você faz para melhorar o capital humano? Com educação.
Você olha a taxa de investimento no Brasil e ela é baixa. Mas a taxa de investimento em máquinas e equipamentos, que é a que tem impacto mais no curto prazo, é alta. Por outro lado, o Brasil é um dos países com menor taxa de investimento em infraestrutura e o impacto disso na economia é no médio prazo.
O governo tem tratado disso. O caminho trilhado pode não ser o melhor, mas aponta para uma situação que tende a tornar o investimento em infraestrutura mais forte nos próximos dez anos.
O que mais pode ser feito?
Medidas para melhorar a eficiência da economia. Por exemplo, reduzir subsídios específicos, tornar os subsídios mais lineares. A literatura mostra que isso tende a melhorar a capacidade de crescimento do país.
O uso de subsídios no fomento à economia é equivocado? Prejudica o crescimento?
Como economista, acho que a oferta desse benefício, se houver, tem de ser linear. Você olha a distribuição de renda no Brasil, é tão desfavorável. Não seria melhor utilizar esses recursos para melhorar o ensino básico, o treinamento de professores?
Acho que os subsídios para determinados setores são desfavoráveis ao crescimento de médio e longo prazo porque não necessariamente refletem a melhor escolha.
Quem define quem receberá os subsídios do BNDES? Não é o Congresso.
Mas é o BNDES que financia hoje o investimento de risco, de longo prazo.
De 2004 a 2007, as empresas iam ao mercado captar recursos. Isso mudou. Enquanto uma instituição financeira der juros subsidiados, não há como as outras competirem.
As empresas reclamam das regras para investimentos em tecnologia e inovação.
A opção do governo por favorecer o conteúdo nacional impõe custos. O produtor nacional tem um monopólio e nós aprendemos que o monopólio leva a maiores preços. E isso é desfavorável para o investimento em tecnologia.
E a inflação?
A inflação em alta causa um mal-estar, um freio do consumo, da produção e, portanto, do investimento. E isso ajuda a explicar o fato de os empresários estarem menos otimistas. Será que o país é um país de inflação de 4,5% ou de 7%? Hoje, o regime de metas não é mais capaz de segurar as expectativas em 4,5%.
Sabe quantos dos 26 países com regime de meta de inflação têm autonomia formal --aqueles que têm presidente e diretores com mandato fixos? 25. Só o Brasil não tem.
Em que a autonomia ajuda?
Ajudaria a ancorar melhor as expectativas, a transmitir uma credibilidade maior em relação ao cumprimento da meta de inflação, reduzindo a inflação corrente.

    MARCELO LEITE Jacques Monod e Albert Camus


    Jacques Monod, biólogo, e Albert Camus, escritor, não viraram o rosto diante da guerra e do stalinismo
    Oito anos atrás, uma palestra citou o grande cientista francês Jacques Monod (1910-1976), Nobel em Medicina de 1965, em sua obra-prima "O Acaso e a Necessidade" (1970). Ele se justificava por incluir a palavra "filosofia" no subtítulo de um livro de ciência:
    "Tenho uma só desculpa, mas a considero legítima: o dever que se impõe aos homens de ciência, hoje mais do que nunca, de pensar a sua disciplina no conjunto da cultura moderna, para enriquecer não só os conhecimentos tecnicamente importantes, mas também as ideias provenientes de sua ciência que eles possam tomar por humanamente significativas. A própria ingenuidade de um olhar novo (como o é sempre o da ciência) pode talvez esclarecer, como a luz de um novo dia, problemas ancestrais."
    Não foi possível deixar de perguntar, na época: como pode escrever tão bem um mero biólogo molecular? E pensar tão bem?
    Várias respostas a essas questões se encontram noutro livro precioso, "Brave Genius"("gênios de coragem"), de Sean B. Carroll. Subtítulo: "Um cientista, um filósofo e suas ousadas aventuras, da Resistência Francesa ao Prêmio Nobel".
    O pesquisador é Monod, claro. A surpresa está no filósofo que Carroll perfila ao lado do descobridor do modelo "operon" de regulação da expressão gênica (que esta coluna se absterá de explicar): Albert Camus (1913-1960), Nobel de Literatura em 1957. O que teria o existencialista a ver com o cientista?
    Muito. Para começar: a coragem, inseparável das biografias de ambos. O título do livro de Carroll destaca esse traço comum e se explica com uma citação de Denis Diderot (1713-1784) que abre seu prólogo: "O gênio está presente em cada época, mas os homens que o carregam dentro de si permanecem embotados até que eventos extraordinários ocorram para aquecer e derreter a massa de modo a que se derrame."
    O biólogo e o escritor viveram de perto e muito perto um do outro, mas sem cruzar caminhos, a Segunda Guerra Mundial e a ocupação da França por Hitler. Ambos aderiram à Resistência e se tornaram companheiros de aventura dos comunistas --não por muito tempo.
    Logo após a guerra, travaram contato e iniciaram uma amizade. Dois homens que presenciaram o absurdo maior, mas não viraram o rosto. Ao contrário, lançaram-se na ação, como recomendava Camus no clássico "O Mito de Sísifo".
    Unia-os uma repulsa visceral e precoce à ditadura stalinista, que os afastaria do Partido Comunista Francês e de companheiros como Jean-Paul Sartre. Camus, já em 1946. Monod, em 1948, quando escreveu uma crítica devastadora da teoria lamarckista, antidarwinista e antimendeliana de Trofim Lysenko que se tornara a biologia oficial do Estado soviético.
    Dez anos após a morte de Camus e dois depois de apoiar estudantes nas barricadas de Maio de 1968 em Paris, Monod abriria seu "O Acaso e a Necessidade"com uma epígrafe de "O Mito de Sísifo", retomando o programa do amigo: "A ânsia, a angústia de entender o sentido da própria existência, a demanda de racionalizá-la e justificá-la numa moldura consistente tem sido, e ainda é, uma das mais poderosas motivações da mente humana".
    Diante das biografias e das bibliografias de Camus e Monod, há que lamentar: já não se forjam intelectuais como antigamente.
    Folha de S.Paulo, 1/12/2013

      'Uruguai não terá fumo livre', diz Mujica


      Presidente pede ao mundo que deixe seu país fazer uma 'experiência' de regulamentação da produção e venda da droga
      Projeto está prestes a ser votado no Senado; compra de cigarros de maconha passará a ser controlada pelo Estado
      LUCAS FERRAZENVIADO ESPECIAL A MONTEVIDÉU, Folha de S.Paulo, 1/12/2013

      Sentado na chácara onde vive, nos arredores de Montevidéu, José Alberto Mujica Cordano filosofa: "As pessoas, nas suas condutas, não dão bola para a razão".
      E não há nenhuma que explique o fato de esse senhor de 78 anos entrar para a história como o responsável por transformar o Uruguai no primeiro país a regulamentar produção e venda da maconha, algo inédito no mundo.
      Baseado ele afirma que nunca fumou.
      "Não defendo a maconha, gostaria que ela não existisse. Nenhum vício é bom. Vamos é regular um mercado que já existe. Não podemos fechar os olhos para isso. A via repressiva fracassou."
      Em entrevista à Folha na zona rural de Rincón del Cerro, na chácara onde vive com a mulher, a senadora Lucía Topolansky, o presidente ressalta que o Uruguai vai regulamentar, e não legalizar a maconha. A venda será controlada pelo Estado.
      Simulando de forma caricatural quem está sob efeito da droga, garante que o país não se transformará na terra do "fumo livre".
      "Pedimos ao mundo que nos ajude a fazer essa experiência, que nos permita adotar um experimento sócio-político diante de um problema grave que é o narcotráfico", disse. "O efeito do narcotráfico é pior que o da droga."
      Já aprovado na Câmara, o projeto de lei que regulamenta a droga permite ainda que os usuários, mediante licença, plantem a erva em casa.
      De acordo com o governo, se quiserem sair da clandestinidade, os cerca de 200 mil usuários de maconha no país deverão se cadastrar para ter acesso limitado à droga.
      A votação do projeto pode ser concluída nesta semana pelo Senado, último estágio antes da sanção presidencial. Na prática, a experiência começará no ano que vem.
      Ainda será preciso regulamentar a medida, estabelecendo limite de cigarros que podem ser comprados --um número citado é 40 por mês.
      A prerrogativa será restrita a uruguaios e residentes no país, uma forma de inibir o turismo da droga.
      Como o governo Mujica tem maioria no Senado, espera-se que o projeto seja aprovado com folga.
      REVOLUÇÕES
      Será mais uma medida revolucionária do governo do ex-guerrilheiro, que já aprovou o casamento gay e legalizou o aborto.
      País de tradição liberal, onde fumar maconha não é crime (ao contrário do Brasil), o Uruguai começou a discutir a regulação da droga há pelo menos dez anos.
      "Propusemos a lei por causa das tradições do Uruguai. De 1914, 1915, até os anos 60, o álcool era monopólio do Estado. Por mais de 50 anos produzimos e vendemos nossa própria grapa, cachaça, rum. Por um valor maior, que era para direcionar recursos para a saúde pública. É o que vamos fazer agora".
      O presidente cita outros vanguardismos do país de pouco mais de 3 milhões de habitantes, como a regulamentação da prostituição, o direito de divórcio pela vontade da mulher e a opção do Uruguai de ser um Estado laico. Todos esses pontos foram estabelecidos nas primeiras décadas do século passado.
      Usando metáforas da vida no campo, Mujica lembra que mudar a sociedade é como plantar oliva, "não se pode esperar uma grande colheita logo de cara". "As causas humanas são de longo prazo."
      Ele afirma que, se houver equívoco ou resultado negativo no processo de regulação da maconha, o governo voltará atrás. "Mas, se descobrimos coisas que podem servir como ferramenta para a humanidade, e se esse experimento na vida real valer a pena, poderemos ser um exemplo. Mas também a conclusão pode ser a de que não temos solução para isso, e assistiremos a uma humanidade cada vez mais doente."
      Ele contou à Folha que uma das medidas para tentar restringir a circulação da maconha no Uruguai é a adoção de um código genético único nas plantas. "Molecularmente, será possível identificar a nossa maconha", disse.
      Ele admite que seu governo está sendo pressionado pela comunidade internacional, sobretudo por países vizinhos, como o Brasil, temerosos de que a maconha uruguaia transborde as fronteiras. "Sempre vai haver pressão. Há um aparato no mundo que vive em reprimir e custa muito."
      A resistência também vem de dentro. Pesquisas mostram que parte da população uruguaia é contrária à lei. "Há um custo político alto, ninguém quer pagar por isso. Ex-presidentes como Ricardo Lagos [Chile] e FHC defendem, mas o curioso é que fazem isso quando não são mais presidentes. Por que não defenderam quando eram presidentes?".

      'O dogmatismo é uma doença da esquerda'
      DO ENVIADO A MONTEVIDÉU
      Badalado internacionalmente como o "presidente mais pobre do mundo", "o melhor presidente do mundo" e "o herói não reconhecido da América Latina", José Mujica diz achar graça dos clichês.
      Na entrevista à Folha, ele também abordou temas como Mercosul e a esquerda latino-americana.
      Mercosul
      Está travado. As classes dirigentes, como a burguesia paulista e argentina, não entendem que estamos na época da integração. O Mercosul não vai caminhar se, de boa fé, não houver entendimento entre Brasil e Argentina.
      Esquerda
      O dogmatismo é uma doença crônica da esquerda latino-americana. Acreditamos que somos possuidores de uma verdade absoluta. A esquerda tem a doença de sempre ser apaixonada pelos modelos em que acredita. Mas se penso que meu vizinho deve pensar como eu, estamos fritos.
      Estilo de vida
      Há senhores acostumados com o poder, que se consideram representantes naturais dele e se sentem agredidos quando veem alguém que não pertence a essa classe e não renuncia a sua forma de viver. Eles não toleram. Tenho um respeito de pertencimento que não abandono, e isso dói em alguns. Essa luta tem diversas características. O Lula sofreu com isso por ser torneiro mecânico, gente do povo.


      Acho graça desses estereótipos. Pobre é quem precisa de muito. Tenho um tipo de riqueza que muitos não ambicionam. Desprezo a acumulação de dinheiro. Tenho 78 anos e estou por um passo [da morte], vou acumular dinheiro?

        CAIO ROSENTHAL E MÁRIO SCHEFFER Aids no Brasil: oportunidades perdidas

        Ao contrário das previsões oficiais, a epidemia da Aids ressurge com força total entre os homossexuais e as populações negligenciadas
        É bem possível que muitos de nós ainda estejamos vivos para assistir ao fim da epidemia da Aids. A ciência busca freneticamente uma vacina. Já em teste, drogas menos tóxicas e de efeito prolongado prometem substituir as doses diárias que pacientes tomam por toda a vida.
        Ganha força a ideia da cura funcional da Aids, a redução do HIV a um nível tão baixo no organismo ao ponto de o sistema imunitário assumir o controle da infecção, mesmo sem medicamentos.
        Hoje, quem faz o teste, descobre que tem HIV e recebe o tratamento pode também prevenir a transmissão a parceiros, assim como já é possível o uso controlado de antirretrovirais antes ou depois do sexo sem proteção, uma alternativa para pessoas soronegativas expostas. Se combinadas com a massificação do uso de preservativos, essas estratégias fariam cair drasticamente o número de infectados e de mortes.
        Nos últimos anos, no entanto, o Brasil não só perdeu essas oportunidades como imprimiu retrocessos no seu outrora respeitável programa de combate à Aids. Por falta de campanhas adequadas, o uso de preservativos só diminui. Desde 2006, as taxas de mortalidade voltam a crescer e, em algumas regiões, superam as da década de 1980. Trinta mortes e cem novos casos são registrados todos os dias no país.
        Por desconhecerem que estão infectados e por iniciarem tardiamente o tratamento, muitos morrem logo no primeiro ano do diagnóstico. Outros esperam meses entre o teste positivo e a primeira consulta em serviços lotados e sem médicos.
        Recente diretriz nacional que antecipa o começo do tratamento da Aids prevê o deslocamento de milhares de novos pacientes para as unidades básicas de saúde, que não estão preparadas para um atendimento que exige experiência e especialização. A oferta antecipada de medicamentos depende também do diagnóstico precoce. Infelizmente, as iniciativas de testagem do HIV buscam holofotes, do Carnaval ao Rock in Rio, mas deixam de identificar novos casos. Os mais atingidos pela epidemia seguem sem acesso ao teste.
        Trunfo do Brasil no passado, que chegou a quebrar a patente de um medicamento, a produção local de genéricos estagnou. Até hoje laboratórios nacionais não fabricaram a prometida dose fixa combinada, que junta três remédios antiaids em um único comprimido, o que facilita a adesão ao tratamento.
        No ritmo da incompetência, ministro e secretários da Saúde deveriam ser processados a cada caso de criança que nasce com HIV, um flagelo perfeitamente eliminável. Erráticos, os dados oficiais apostaram que a Aids avançaria em direção aos heterossexuais, às pessoas de baixa renda e ao interior do país. Concentrada nas áreas urbanas, a verdade é que a epidemia ressurge com força total entre os homossexuais e outras populações negligenciadas.
        Costuras eleitorais permitem o triunfo do moralismo e da religião sobre a saúde pública. Campanhas dirigidas aos mais vulneráveis são censuradas, afastando a ação governamental da epidemia real.
        Sem mais investimentos federais no SUS, sem liderança que retome o diálogo e a mobilização social, o Brasil ficará de fora da marcha mundial para o fim da Aids.

        HÉLIO SCHWARTSMAN, Democracia e falseabilidade


        SÃO PAULO - Num gesto temerário, comento hoje a interpretação que um físico --David Deutsch-- faz das ideias políticas de um filósofo da ciência --Karl Popper.
        Em "The Beginning of Infinity", Deutsch retoma alguns dos paradoxos matemáticos que assombram a democracia desde os tempos de George Washington e os "Founding Fathers" dos EUA, que jamais conseguiram encontrar uma fórmula justa para estabelecer a representação de cada Estado na Câmara de acordo com o total de habitantes. Em algumas situações, um Estado cuja população crescia mais acabava perdendo cadeiras. Hoje, graças ao teorema de Balinski e Young, de 1975, sabemos que a tarefa é mesmo impossível.
        Deutsch, porém, vai mais longe e, valendo-se de outra prova matemática, o Teorema da Impossibilidade de Arrow, segundo o qual a soma das racionalidades individuais não produz uma racionalidade coletiva, coloca em dúvida a legitimidade da noção de escolhas sociais --o que tem profundas e pouco alvissareiras implicações para a democracia.
        Para Deutsch, a resposta para o problema está em Popper. Em sua visão, a democracia é boa não porque represente a vontade do povo, mas porque é o sistema que mais facilita a remoção de políticas equivocadas e permite mudar governos sem violência. Se quisermos, é a aplicação, na política, das teses popperianas sobre a falseabilidade que fizeram tanto sucesso na epistemologia.
        "A essência do processo decisório democrático não é a escolha feita pelo sistema eleitoral, mas as ideias que se criam entre as eleições (...) Os eleitores não são uma fonte de sabedoria da qual as políticas corretas podem ser empiricamente derivadas'. Eles estão tentando, e de forma falível, explicar o mundo e, neste processo, melhorá-lo", escreve Deutsch.
        Se isso é verdade, progredimos mais quando despachamos governantes para casa do que quando os elegemos. E isso em todos os níveis.