20 de janeiro de 2013

Nova York quer sua mordida da maçã


Cidade cria universidade de ponta para se tornar polo tecnológico
RAUL JUSTE LORES, Folha de SP, 20/1/2013
RESUMO
Iniciativa do prefeito Michael Bloomberg pretende transformar Nova York em polo de alta tecnologia focado em medicina, mídia, arquitetura e planejamento urbano. Consórcio entre a universidade americana Cornell e o israelense Technion deve inaugurar campus de nova instituição de ensino para 2.500 alunos em 2017.
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EM NOVA YORK,o setor financeiro perdeu mais de 40 mil empregos desde a crise de 2008. Outras indústrias fundamentais para a cidade, como a editorial e a fonográfica, a de mídia e o varejo, enfrentam um momento ruim, graças à concorrência da internet.
Enquanto isso, o Vale do Silício, vizinho a São Francisco, e a região de Boston-Cambridge, que abriga o prestigiado MIT (Massachusetts Institute of Technology), vivem um boom econômico produzido por milhares de start-ups -nome dado às empresas iniciantes-, sem mencionar o auge de gigantes da tecnologia, como a Apple, o Google e o Facebook.
Nova York percebeu então que precisava se tornar um polo tecnológico.
Em parte para se reinventar mas também para salvar suas indústrias tradicionais, a cidade decidiu que o primeiro grande passo para competir com o Vale do Silício seria criar sua própria versão do MIT: uma universidade que se direcionasse para a tecnologia, habilitada a formar os pesquisadores e a mão de obra para indústrias que talvez ainda não existam hoje.
A gestação do MIT nova-iorquino começou com um concurso promovido pelo prefeito
Michael Bloomberg: à universidade que apresentasse o melhor projeto, a prefeitura cederia um terreno de 45 mil metros quadrados na Roosevelt Island, vizinha a Manhattan, além de oferecer um aporte de US$ 100 milhões para gastos com infraestrutura.
Houve candidaturas de 18 propostas de quase 30 universidades de 9 países. Com a recusa do MIT de Boston em participar, Stanford se transformou na favorita -foi das salas de aula da universidade californiana que saíram os fundadores de Google, Yahoo, HP, Sun e PayPal, além de boa parte das diretorias da Apple, do Facebook e da Microsoft.
Mas o consórcio entre a tradicional Universidade Cornell, de Ithaca, no Estado de Nova York, e o instituto tecnológico israelense Technion, de Haifa, ofereceu rapidez -as aulas começariam um ano antes do que previam os demais concorrentes- e garantiu financiamento imediato para começar o novo campus, além dos US$ 100 milhões da prefeitura.
A vantagem se definiu uma semana antes da data em que Bloomberg anunciaria o vencedor, em dezembro de 2011, quando um ex-aluno de Cornell, o bilionário Charles Feeney, criador da rede Duty Free Shops, doou US$ 350 milhões à instituição. A doação, uma das maiores já feitas por um indivíduo a uma universidade no mundo, foi integralmente para o projeto.
A primeira fase do campus desenhado pelo arquiteto Thom Mayne para o Cornell NYC Tech deve ser inaugurada na Roosevelt Island em 2017 -na próxima década, a nova instituição deve alcançar os números de 2.500 alunos e 300 professores. O investimento nos próximos 15 anos chegará a US$ 2 bilhões. Mas, como Nova York tem muita pressa, as aulas não vão esperar. A prefeitura e o consórcio vencedor assinaram uma parceria com o Google para criar uma sede provisória do campus em Manhattan.
A instalação temporária funcionará num edifício que ocupa um quarteirão inteiro nas proximidades do parque High Line, no bairro do Chelsea. O gigante dos mecanismos de buscas comprou o imóvel dois anos atrás, por
US$ 2 bilhões, e alugou 2.500 metros quadrados de um de seus 15 andares ao consórcio, por um período de cinco anos. Os alunos, todos pós-graduandos, começam a frequentar as aulas no final deste mês -certamente sob os olhos atentos de boa parte da comunidade acadêmica internacional.
DO ZERO
Caminhando pelo vasto andar do Google ainda vazio, com apenas dez funcionários, Dan Huttenlocher, 54, sonha alto. Ele foi nomeado em março passado reitor do novo campus. Professor de Ciência da Informação, Computação e Negócios em Cornell desde 1988, Huttenlocher tem como tarefas a criação do currículo e a seleção dos professores -em resumo, inventar praticamente do zero a tal universidade do futuro. As expectativas são altas.
Há um ano, ao apresentar o consórcio Cornell-Technion como vencedor do concurso que originaria o Cornell NYC Tech, o prefeito Michael Bloomberg -ele mesmo um bilionário da tecnologia e da mídia- afirmou acreditar que a criação da nova universidade ajudaria Nova York a se tornar mais rapidamente "o centro do universo digital".
Se, no momento, parece que cada jovem americano brilhante, da economia à engenharia, quer aprender a fazer códigos de software e criar a enésima rede social para tentar se tornar o novo Mark Zuckerberg, o que Huttenlocher pensa em lecionar no novo campus? Algo que não envelheça como, digamos, um Orkut?
Ele diz que o programa se erguerá em torno grandes focos: vida mais saudável; ambiente construído -termo que designa não só arquitetura e planejamento, mas aspectos urbanos na escala mais reduzida do bairro, do quarteirão ou da rua-; e mídia conectiva -aquela que interage com redes sociais e na qual as fronteiras entre emissor e receptor se encontram em dissolução.
"Iremos da pesquisa científica sobre corpo ao uso de sensores e radares para construções mais sustentáveis e às novas mídias -não só redes sociais, mas as formas de nos comunicar, consumir e compartilhar informação."
Não à toa, os focos se relacionam a três das maiores indústrias da cidade: medicina, mídia e construção e planejamento urbano. O jovial Huttenlocher vai explicando outras singularidades do projeto: "Não teremos departamentos, haverá cada vez menos barreiras de comunicação, será um ambiente aberto".
Ele contratou Greg Pass, ex-diretor de tecnologia do Twitter, para chefiar o escritório de empreendedorismo do campus -instância responsável pelas futuras empresas que nascerão com os estudantes. "Todo aluno terá um orientador e um mentor da indústria, que esteja no mercado de trabalho. Todos farão estágio como aprendizes. Quatro dias por semana serão de aulas técnicas, e um, só de prática", discorre.
Empresas serão convidadas a ter centros de pesquisa e desenvolvimento dentro do campus. "Quero laços muito diretos entre empresas, professores e alunos. No passado, a pesquisa gerava interesse comercial entre as empresas. Hoje em dia, também acontece o caminho inverso; acadêmicos se debruçam sobre desafios empresariais -o interesse comercial gera pesquisa", diz.
No Brasil, doações de empresas a universidades ainda podem ser mal recebidas por alunos e professores; mas essa parceria entre iniciativa privada e academia é bem-vista em Nova York. "Acadêmicos curiosos querem trabalhar com problemas reais, ter acesso a dados que as empresas possuem e que não estão ainda na universidade", afirma.
Em sua carreira, o próprio Huttenlocher mistura esses dois mundos. Ao longo de mais de 20 anos lecionando em Cornell, tirou várias licenças para comandar pesquisa na Xerox, criar empresas de tecnologia e trabalhar em áreas que vão da análise de redes sociais a robótica avançada para veículos autônomos.
Questionado sobre a concorrência -poderosa em biologia, química e engenharia elétrica do MIT, onde surgem alguns dos maiores laboratórios farmacêuticos do mundo, e em softwares e redes sociais de Stanford- o reitor busca uma "terceira via".
"Queremos desenvolver nossa própria marca de tecnologia. O Vale do Silício [onde fica Stanford] é uma potência, mas é cercado de empresas de uma mesma área. Nova York tem grandes redes de televisão, jornais e revistas, editoras, teatros, produtoras. É um polo de medicina, de finanças, de planejamento urbano. Todas essas indústrias estão sendo transformadas pela tecnologia", diz.
Para Huttenlocher, o Cornell NYC Tech pode construir um "engajamento profundo com essas empresas, com os clientes, com quem usa" e ocasionar "um grande impacto na transformação dessas indústrias".
Para tanto, os docentes da nova universidade devem preencher uma série de qualidades superlativas. "Quero gente do mais alto nível acadêmico, que busque a pesquisa mais inédita, que sonhe com sucesso comercial, mas que queira causar impacto social. Há um número crescente de professores que pensam na tecnologia sem fins lucrativos, que se comprometem com grandes causas, e seria ótimo tê-los aqui."
na brigA Mesmo derrotadas por Cornell, as duas maiores universidades de Nova York, Columbia e New York University (NYU), não desistiram da briga para abreviar o atraso tecnológico da cidade. Columbia planeja a criação de um Instituto para Ciências de Dados e Engenharia, e a NYU anunciou a construção, no miolo do Brooklyn, do Centro para as Ciências Urbanas e o Progresso, voltado para urbanização, gerenciamento de energia, trânsito, segurança e sustentabilidade.
Outra parceria público-privada, bancada por empresas de tecnologia, como a Accenture, e bancos, como JP Morgan, Credit Suisse e Bank of America, promove concursos para start-ups de tecnologia que inventem serviços financeiros. Além de verbas de pesquisa, elas têm direito a mentores e encontros com diretores dos grandes bancos.
A vontade de replicar o Vale do Silício vai bem além das fronteiras dos EUA. Em Skolkovo, na Rússia, um projeto bilionário procura criar um polo tecnológico rigidamente controlado. Cingapura está tentando o mesmo. No Brasil, localidades de diferentes escalas, do Recife a Campinas, de Belo Horizonte ao gaúcho Vale dos Sinos, sonham em ser o berço de novas empresas de ponta. O exemplo de Nova York demonstra que a competição está apenas no começo. E, assumindo o tamanho ainda bem modesto de seu polo, a cidade se autoatribuiu a alcunha de Sillicon Alley -beco do silício".

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