| 13 de novembro de 2011 Educação no Brasil | O Estado do Maranhão | Cidade | MA Além da falta de estrutura física de escolas, alunos têm de conviver com a ausência de professores e de transporte Davi Soares, de 3 anos, está aprendendo uma lição: o conhecimento não vem de forma fácil. Não vem de graça. Não vem sem esforço. No caso dele e de outros 93 alunos do turno matutino e outros 62 do vespertino da Unidade de Ensino Básico (UEB) Luzenir Mata Roma, na Vila Nova República, no Maracanã, esse aprendizado acontece em uma casa cedida pela Associação dos Moradores do bairro, onde funcionam seis salas de aula. Um dos cômodos, com cerca de 40 metros quadrados, foi dividido em três para abrigar as seis salas de aula. O espaço foi separado por tapumes pintados pela comunidade. O banheiro é misto e a porta está quebrada. A privacidade é zero. A cozinha improvisada e a diretoria, que se resume a uma mesa e alguns papéis amontoados, estão no mesmo espaço. A geladeira que armazena o lanche também serve de mural para informações da rotina administrativa da escola. Nas carteiras, as crianças estudam e, durante o intervalo, merendam. "Queria um espaço para brincar", disse Davi Soares. A escola não tem bebedouros. Os alunos trazem água de casa e as aulas terminam mais cedo porque não há ventilação. "É muito triste ver uma escola nessa situação. Eu fico com medo de levar a minha filha para lá. Mas o que posso fazer?", afirmou Maria de Jesus Silva Costa, de 24 anos, mãe de Mateus Costa, de 4 anos, estudante da UEB Luzenir Mata Roma. Para comprar itens básicos como materiais de limpeza e papel, pais de alunos tiveram de fazer uma rifa e tirar o dinheiro do próprio bolso. Há menos de um ano, a situação era outra, embora não muito melhor. O antigo prédio do Município estava com as paredes rachadas e havia risco de desabamento. A Prefeitura anunciou uma reforma e pediu emprestada a casa da Associação dos Moradores. Na "nova escola", o ano letivo começou apenas em maio. A reforma do antigo colégio nunca começou e o presidente da associação, Iraelson Ferreira, já solicitou o espaço para implantar um curso técnico para a comunidade. Não há informações sobre a Prefeitura vai abrigar a UEB Luzenir Mata Roma. "A culpa não é minha. É irresponsabilidade da Prefeitura não terminar uma reforma como essa", disse Iraelson Ferreira. Poeirão - A menos de dois quilômetros dali, a professora Juliana (nome fictício), que preferiu não se identificar, com receio de retaliações, queria apenas uma melhor estrutura para trabalhar, ou seja, que o Município a mandasse para a UEB Rubens Ferreira Rosa, conhecido como Poeirão. Desde quando foi inaugurada em 2009, a escola nunca teve seu quadro completo de professores, mas este ano a situação está mais grave. A escola tem um déficit de seis professores. Houve casos em que as aulas foram suspensas desde maio por falta de docentes. Os alunos do 1º ciclo, 3ª etapa, antiga 2ª série, estão sem professores desde maio e por isso alguns foram remanejados para outras turmas e outros estão em casa. Os alunos do 2º ciclo, antiga 3ª série, estão sem aulas desde julho por falta de professores. Alunos das antigas 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries estão sem professores de arte e de inglês há pelo menos um mês. "Eu tenho pena destes alunos. O que vai ser da vida deles no futuro?", indagou Juliana. Cerca de 100 alunos estão sendo diretamente prejudicados. "Em contrapartida, não falta leite. É engraçada essa postura da Prefeitura. Falta professor, mas o tal leite na escola. Tem aluno que vem aqui assistir aula doente para não perder o leite. É uma inversão de valores. Aluno tem de vir para a escola para aprender, não para ganhar leite", criticou a professora. Outros docentes também se manifestaram contra os problemas de algumas escolas, mas não querem aparecer para evitar retaliações da Secretaria Municipal de Educação (Semed). 30 crianças perderam o ano por falta de vagas Desde março, a dona de casa Roberta Costa, de 24 anos, tenta ensinar o alfabeto às filhas gêmeas Júlia e Juliana. Ensina sem metodologia, sem didática e, talvez, sem conhecimento suficiente. Ela tenta ensinar as filhas porque não conseguiu vaga na rede pública no início do ano. Segundo o Conselho Tutelar da zona rural, pelo menos 30 alunos já perderam o ano por falta de vagas na rede municipal de ensino. Roberta Costa mora a menos de 100 metros de uma escola de ensino fundamental e a menos de 300 de uma unidade de educação infantil. "Foi difícil. Eu corri de todas as formas para conseguir um colégio para as crianças, mas não deu. Agora, elas vão ter de entrar com um ano de atraso. Não sei como vamos recuperar no futuro", disse a mãe. "Sem escola, elas ficam sem ter o que fazer. Eu pego um papel para que pintem, tento ensinar algumas letras, mas tenho medo de estar ensinando errado", afirmou a mãe. O Conselho Tutelar tentou fazer sua parte. Desde 21 de fevereiro vem mandando ofícios para a Secretaria Municipal de Educação (Semed) pedindo vagas, mas nunca teve o retorno esperado. A situação é tão crítica que houve discussões entre conselheiros e gestores escolares porque havia a preocupação pela falta de vagas na região. No fim, a superlotação das escolas já existentes fragilizou a cobrança dos conselheiros. "A educação na zona rural é problemática. A condição das escolas é precária. Há problemas de todo tipo", afirmou o conselheiro tutelar da zona rural Aílson Rodrigues Sem transporte, escola está sem aulas desde abril Não há dinheiro para pagar combustível da Kombi que leva estudantes e professores; pelo menos 100 alunos estão prejudicados Toda criança tem algum sonho na vida. Muitos deles realizáveis por meio de uma educação de qualidade. E Fabíola Sousa de Jesus, de 9 anos, estudante da Unidade de Ensino Básico (UEB) Nossa Senhora dos Remédios, no povoado Jacamim, nas proximidades do Estreito dos Mosquitos, também tinha um desses sonhos. Queria ser médica. Hoje, ela tem um objetivo mais simples: quer apenas terminar os estudos. Isso se a escola onde está matriculada conseguir ter aulas regularmente. A UEB Nossa Senhora dos Remédios não tem aula desde abril deste ano por falta de transporte escolar. A denúncia sobre a falta de aulas partiu de Fabíola. Ela mostrou seu descontentamento com as manhãs sem estudar, sem merenda e sem a companhia dos amigos. "Eu gosto de estudar, mas sem escola fica difícil", disse a estudante. A escola atende aproximadamente 100 alunos do Ensino Infantil e Fundamental de comunidades como Jacamim, Imbaúbau, Ilha Pequena, Amapá e Portinho. Todos dependem do transporte fornecido pela Prefeitura para chegar à escola. Os professores também. A unidade de ensino fica no meio do povoado de Jacamim: uma ilha às margens do Estreito dos Mosquitos. São 4 quilômetros entre o porto do povoado até a escola. Os professores usavam uma lancha, no Coqueiro, para atravessar o Estreito dos Mosquitos e pegavam a Kombi até a escola. O veículo também buscava os alunos em casa para levá-los ao colégio, mas isso nunca mais aconteceu. Desde abril não há dinheiro para o combustível e as aulas ocorriam apenas se a kombi tivesse condições de transportar alunos e professores. O veículo está parado, aberto e serve apenas como playground de crianças da vizinhança. "Desde abril, nunca mais tivemos aulas normalmente", disse Francisco da Cruz Lopes Soares, pai de aluno. A escola também tem outros problemas. Faltam materiais básicos e o muro está danificado desde 2009. Pagando passagem - Os alunos da UEB Hortência Pinho, no Coqueiro, também dependiam dessa Kombi, mas hoje pagam passagem para não perder aula. Taline Sousa Pereira, de 11 anos, estuda na 5ª série e afirma que seu pai paga aproximadamente R$ 120,00 de transporte escolar por mês para que ela chegue à escola. Hanna Juliene Cardoso, de 10 anos, vive o mesmo problema. "É complicado chegar à escola. Fazemos esse esforço porque gostamos de estudar", afirmou Taline Pereira. "As dificuldades são tão grandes que prefiro ser dançarina. É mais fácil", complementou Hanna Cardoso. Mais Além dos problemas com a estrutura das escolas, os funcionários da Multicooper, que presta serviços administrativos para a Prefeitura, estão com três meses de salários atrasados. Os funcionários afirmam que não têm mais condições de trabalhar e já falam, informalmente, em paralisações a partir das próximas semanas. Essa não é a primeira vez que contratados cooperativados reclamam desse tipo de problema. O Estado enviou questionamentos à Secretaria Municipal de Educação (Semed) sobre esses problemas, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição. |
14 de novembro de 2011
Estudantes têm muita dificuldade para se manter em sala de aula
Postado por
jorge werthein
às
09:44
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