21 de novembro de 2016

O Ensino Médio lá fora, Antonio Gois


21/11/2016 ,O Globo
Comparar países e seus modelos educacionais é sempre um exercício necessário, mas complexo. Por um lado, sociedade nenhuma pode se dar ao luxo de ignorar experiências de nações que enfrentaram dilemas comuns. Por outro, tentar copiar fórmulas desconsiderando contextos tende a ser improdutivo. No momento em que o Brasil debate uma reforma em seu ensino médio, ao menos dois seminários neste mês possibilitaram entender melhor como são organizados os sistemas secundários em países como Finlândia, Alemanha, Suíça, Polônia, Inglaterra e Canadá.
Uma primeira constatação é de que não há uma receita única. Um exemplo disso está no número de disciplinas obrigatórias. No Brasil são 13, e há quem ache demasiado. Na Inglaterra e em boa parte dos estados americanos, por exemplo, apenas inglês e matemática são compulsórias. A Polônia, um dos países que mais teve ganhos no Pisa e cuja experiência foi debatida em seminário realizado pelo Banco Mundial e pelo MEC, fez recentemente uma reforma que diminuiu de 14 para três o número de disciplinas obrigatórias. Ficaram apenas linguagem, matemática e educação física. O restante do currículo é montado a partir da opção dos alunos.
A regra mundial então seria ter poucas disciplinas? Nem sempre. Basta ver o caso da Finlândia, país reconhecido pela valorização dos professores e por seu sistema equitativo e de alto desempenho. O caso finlandês foi apresentado pela chefe da unidade de Ensino Médio do Conselho Nacional de Educação daquele país, Tiina Tahka, em seminário do Instituto Unibanco e do Conselho Nacional de Secretários de Educação. Lá, são 18 disciplinas obrigatórias. Alguns educadores finlandeses acham o número exagerado, e há no país escolas que estão testando inovações, apostando num ensino cada vez mais interdisciplinar, sem divisões rígidas entre as matérias.
Cabe destacar, porém, uma diferença em relação ao modelo brasileiro. O sistema finlandês no ensino médio tradicional é organizado em créditos, e a parte obrigatória do currículo corresponde a no máximo 51 dos 75 necessários para o aluno se formar. Algumas disciplinas (caso de física, química, filosofia e psicologia) são obrigatórias apenas num módulo básico, o que permite que o aluno complete essas matérias, por exemplo, no primeiro ano do ensino médio, e nos anos seguintes só volte a se aprofundar nelas caso queira.
O que há em comum em todas as nações cujos casos foram apresentados nos dois seminários é o fato de terem sistemas com algum grau de flexibilidade, em que é permitido ao aluno optar pelas áreas em que quer se aprofundar. Mas há também uma preocupação constante em evitar que esse sistema acentue desigualdades, com alunos mais ricos sendo direcionados majoritariamente para uma trajetória que os leve para a universidade, enquanto os mais pobres se destinam ao profissionalizante. Por isso, vários desses países oferecem orientação vocacional aos estudantes e permitem que eles voltem atrás em suas decisões. Não há caminhos sem retorno.
Porém, talvez a lição mais importante que podemos tirar desses países é a de que o projeto de reformar o ensino médio não se encerra na definição de um modelo. Há muito esforço a ser feito antes e depois, pois, tão ou mais importante quanto buscar o melhor formato possível é o investimento nas escolas e nos professores, para que sejam valorizados e estejam de fato preparados para fazer o melhor por seus alunos.

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