ANA DE HOLLANDA E
LUIZ FERNANDO DE ALMEIDA
Uma natureza absolutamente singular e estonteante foi o que os europeus encontraram chegando ao local onde, no século XVI, instalou-se a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A Baía de Guanabara e seus arredores - localidade adequada para a instalação de uma cidade em um cenário exuberante - ao longo de mais de quatro séculos de história foram e têm sido palco de grandes e importantes eventos históricos no Hemisfério Sul. A paisagem cultural da cidade do Rio de Janeiro é única no mundo e representa a genialidade, os desafios, as contradições e a singularidade cultural da sociedade brasileira.
A perfeita harmonia entre a paisagem natural e a intervenção criativa e precisa do homem, incluindo o uso e as práticas em seu espaço e suas manifestações culturais, tornaram o Rio de Janeiro internacionalmente conhecido. Mas não basta ser apenas apreciado, esse bem excepcional deve ser compreendido, preservado e, principalmente, compartilhado.
Foi com esse intuito que o Ministério da Cultura e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), associados a parceiros como o governo estadual e a prefeitura do Rio de Janeiro, a Associação de Empreendedores Amigos da Unesco e a Fundação Roberto Marinho, apresentaram à Unesco a candidatura Rio de Janeiro: Paisagens Cariocas entre a Montanha e o Mar.
A partir de 1992 o conceito de paisagem cultural foi adotado pela Unesco e incorporado como uma nova tipologia de reconhecimento dos bens culturais. No entanto, os sítios já reconhecidos mundialmente nesta categoria estão relacionados a áreas rurais, sistemas agrícolas tradicionais, jardins históricos e outros locais de cunho simbólico.
Ao receber o título, a cidade do Rio de Janeiro passou a ser a primeira área urbana no mundo a ter reconhecido o valor universal da sua paisagem urbana. O título gera, ainda, um compromisso partilhado, já que governo e sociedade passam a ser responsáveis pela preservação e valorização dos critérios que proporcionam à cidade esse seu aspecto singular.
O reconhecimento desse seu valor cultural também deverá propiciar desenvolvimento com sustentabilidade, fomentando e provocando um melhor ordenamento territorial, maior conservação dos recursos naturais e culturais e, em função disto, uma otimização das indústrias do turismo, da cultura, do entretenimento, entre outras.
O desenvolvimento da cidade do Rio tem sido moldado por uma criativa fusão entre natureza e cultura. Este é um valor indissociável da experiência humana, de natureza cultural, que a cidade do Rio de Janeiro oferece para os brasileiros e para todo o mundo. Resultado de um intercâmbio importante, baseado em ideias científicas, ambientais e de projeto, que se materializou em função de criações inovadoras de construção de uma paisagem reconhecida por sua grande beleza por todos aqueles que a conhecem.
A cidade do Rio de Janeiro tornou-se, desde a sua fundação, um dos cenários mais belos do Brasil e do mundo, local onde as manifestações culturais aí produzidas expressam a síntese do viver carioca e que também se tornaram populares em todo o mundo: o samba, a bossa nova, o futebol, o carnaval de rua, as tradicionais festividades religiosas. Paisagem e modo de viver que se veem registrados em relatos de viagem, músicas, obras literárias, filmes e imagens. Esses aspectos mencionados expressam os critérios indicados que caracterizam os valores universais excepcionais do sítio.
A paisagem cultural do Rio extrapola as fronteiras. Ela pertence a todo o planeta e, também por isso, deve ser reconhecida e preservada.
ANA DE HOLLANDA é ministra de Estado da Cultura.
LUIZ FERNANDO DE ALMEIDA é presidente do Iphan.
O GLOBO, 12 DE JULHO, 2012
O GLOBO, 12 DE JULHO, 2012
Nenhum comentário:
Postar um comentário