Roberto Amaral
Cientista político e ex-ministro da Ciência e Tecnologia entre 2003 e 2004.
Carta Capital
04.07.2012 10:45
A solidão de Fernando Lugo no Parlamento paraguaio sem aliados contrasta com o apoio
partidário de que Dilma Rousseff dispõe no Congresso. Foto: AFP
Qualquer analista da política sul-americana concordará que uma das características
distintivas dos processos brasileiro e hispano-americano é, no caso de nossos vizinhos, sua
rápida revolução, contrastando com o vagar das transformações históricas brasileiras.
Fomos a única monarquia americana, o último país a desfazer-se — e assim ainda muito
mal — do escravismo. Aqui a República, fruto de um golpe de Estado, já nasceu decrépita,
envilecida por uma oligarquia rural arcaica que a monopolizou por 40 anos, período em que
jamais houve o encontro da democracia com a representação. A ‘revolução’ de 30, proposta
para promover esse encontro, terminou como uma ditadura ) civil (15 anos) sustentada
pelas armas.
Aqui, as ditaduras foram longevas e lentas, e os processos de redemocratização foram
conquistados palmo a palmo. Agora mesmo, passados tantos anos do fim da queda
da última ditadura, a discussão contemporânea é se podemos processar os agentes do
terrorismo de Estado, enquanto nossos vizinhos já têm os seus na cadeia. Por enquanto só
nos é dado (se tanto) conhecer a verdade negada à História, e pelo menos enterrar nossos
mortos, chamados de ‘desaparecidos’, o neologismo aviltante grafado pela ditadura.
Se o processo brasileiro é mais lento, parece ser menos propício a sobressaltos, tendendo
a uma evolução sem riscos de interrupções abruptas. Sem querer lembrar um passado que
teima em ficar presente, nossa evolução se dá de forma gradual, lenta, mas firme. Nessa
hipótese, o gradualismo, passando pela transação e pela conciliação, ainda que agravando
as dores e excitando as ansiedades, ensejaria uma mais fecunda semeadura do processo
democrático.
Talvez seja pueril minha leitura, mas suponho poder afirmar que, finalmente, construímos
a mais forte estrutura político-institucional democrática da República, apesar do esforço
sempiterno da grande imprensa no seu objetivo de desmoralizar a política, sem a qual,
todavia, não há democracia de qualquer espécie. E ela mesma sabe disso, pois foi
desmoralizando a política e seus agentes, os partidos e os políticos, que nossos jornalões
abriram caminho para as rupturas constitucionais, desde as quarteladas do início do século
ao golpe de 1964.
O fato objetivo de hoje é que estamos prestes a festejar 30 anos de vida
democrática ininterrupta, e, se é possível arriscar predições, em condições de afirmar que
o cenário que se descortina a olho nu é de tranquilidade institucional, e, seja-me permitido
o otimismo, de avanço social. Nesses anos pós-ditadura militar, reconstruímos a ordem
constitucional e vivenciamos com sucesso seis eleições presidenciais.
Realizamos a proeza de eleger duas vezes um operário presidente da República, e, para
sucedê-lo, uma notável mulher que chega à política depois do batismo na luta contra a
ditadura, cujos porões conheceu, na tortura infamante e na cadeia. Atrás desse operário e
dessa presidenta havia e há, nas campanhas eleitorais e no governo, um amplo apoio de
massas assentado em uma coalizão de partidos sob a hegemonia da centro-esquerda.
Essas considerações mais ou menos impressionistas me ocorrem como reflexão em face
da crise paraguaia, quando um golpe-de-Estado-parlamentar interrompeu o mandato
constitucional e legítimo do Presidente Fernando Lugo.
Em poucas horas a administração popular do presidente paraguaio foi demolida por uma
razia parlamentar, sem que à truculência da classe dominante reacionária se opusesse a
força das grandes massas assaltadas.
O fenômeno ao qual nos estamos referindo não se circunscreve ao nosso vizinho.
Os golpes antes intentados na Venezuela, no Equador e na Bolívia, onde até a secessão
foi cogitada, são a resposta da direita sul-americana, feudal e anti-nacional, em face de
governos conquistados na proa de históricos processos de emergência das massas, pela vez
primeira, nesses países, dissociados das elites e de suas classes dominantes, comprometidas
com o atraso no qual se cevam.
O golpe consumado em Honduras, ao final consolidado pela pusilanimidade estadunidense,
parece ter sido apenas um laboratório do qual o Paraguai é um experimento. Outros golpes
estarão nas mesas de ensaio?
A frustração daqueles golpes (Equador, Venezuela, Bolívia) nos impediu de ver a
permanência de sua ameaça, pois a direita em nosso continente (lembremos sempre o já
sabido) jamais esteve comprometida com a democracia.
Em comum nesses países, a pobreza da organização social, que não se expressa mediante
organizações partidárias fortes e inseridas na vida política, donde a fragilidade das
administrações populares, sem base de sustentação institucional, e sem condições de
mobilização e resistência diante da ofensiva de seus adversários.
Não basta ao bom Príncipe ganhar o poder (no caso concreto, mais exatamente o governo),
pois o desafio é conservá-lo.
Há, porém, uma severa distinção a destacar entre a política brasileira contemporânea e a de
nossos vizinhos, e ela reside no fato de aqui a esquerda haver aprendido que, para governar,
ela precisa de alianças para além de seu campo, de par com a conservação da capacidade
de mobilização popular (relembro a resistência de Lula às tentativas de golpe de 2005). A
solidão de Lugo em seu Parlamento sem aliados contrasta com o apoio partidário de que a
presidenta Dilma Rousseff dispõe nas duas casas do Congresso brasileiro.
Será esta outra lição?
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