15 de setembro de 2012

HÉLIO SCHWARTSMAN Razão de voto


SÃO PAULO - Num mundo perfeitamente racional, o que de melhor um eleitor pode fazer com seu voto é vendê-lo pela melhor oferta.
Para começar, ao contrário do que insinua o braço cívico do politicamente correto, não há crime em aceitar alguma forma de pagamento pelo sufrágio. A Lei Eleitoral proíbe apenas a compra do voto pelo candidato.
Além disso, a menos que você more numa cidade de poucas centenas de eleitores, votar tende a ser um exercício inútil. A possibilidade de o seu escrutínio definir a disputa é quase nula. Não encontrei números para o Brasil, mas um estudo de Andrew Gelman de 1998 estimou que as chances de uma eleição presidencial nos EUA ser decidida por um único sufrágio vão de 1 em 10 milhões a 1 em 100 milhões. A probabilidade de ganhar a Mega-Sena apostando um bilhete simples é de 1 em 50 milhões.
Só que o mundo, para o bem e para o mal, não é um lugar perfeitamente racional. A venda de votos é um fenômeno relativamente raro e contingentes significativos da população se dão ao trabalho de visitar a cabine indevassável mesmo nos países onde fazê-lo não é obrigatório.
Esse cenário desafiava as teorias da escolha racional até que Gelman, num artigo de 2007, propôs um modelo alternativo. O momento do voto é aquele em que o cidadão é menos egoísta. Ele só frequenta as urnas porque vê aí sua oportunidade de contribuir para o bem geral.
Pode parecer um jogo de palavras, mas isso explica por que o comparecimento tende a subir em eleições disputadas ou tidas como importantes, onde a utilidade de cada voto individual diminui, e por que ele raramente cai abaixo dos 50% -quanto menos gente aparece, mais importância ganha cada sufrágio singular.
De acordo com autores mais cínicos, como Bryan Caplan, esse pendor social, de buscar o que se pensa ser o melhor para todos, explica também por que democracias cometem tantas barbeiragens econômicas. 
folha de são paulo,15,9,2012


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